UOL Notícias Internacional
 

10/09/2005

Líderes empresariais de Nova Orleans planejam renascimento da cidade

The New York Times
Gary Rivlin

Em Baton Rouge, Louisiana
O establishment empresarial em exílio de Nova Orleans estabeleceu uma cabeça de ponte em um anexo do governo aqui, localizado do outro lado da rua do Capitólio estadual. É aqui que organizações como o Birô de Convenções e Turismo de Nova Orleans começaram a planejar o renascimento da cidade.

Nas salas e corredores apertados deste prédio, chamado Anexo do Capitólio, e prosseguindo à noite em bares e restaurantes espalhados por Baton Rouge, os líderes empresariais e pessoas influentes de Nova Orleans estão elaborando grandes planos, o mais importante deles a reabertura do Bairro Francês em 90 dias.

Também estão em discussão planos ambiciosos para a realização de uma comemoração reduzida do Mardi Gras (o Carnaval em Nova Orleans), em 26 de fevereiro de 2006, e de um lobby para a realização de uma das convenções partidárias de 2008 para indicação do candidato à presidência, talvez até mesmo o próximo Super Bowl (a final do futebol americano) disponível.

Até o momento, estas conversas estão transcorrendo sem a participação de um personagem chave --a municipalidade. "Ela ainda está em modo de emergência e ainda não está pensando estrategicamente", disse J. Stephen Perry, o executivo-chefe do Birô de Convenções e Turismo de Nova Orleans. "Nós estamos pensando estrategicamente."

Os obstáculos que continuam no caminho deles são imensos, já que grande parte da cidade ainda está inundada e alguns estão prevendo que poderá levar entre seis meses a um ano até que a cidade esteja novamente habitável. Mas as pessoas influentes da cidade não se sentem intimidadas.

"As coisas começaram a andar"

Por exemplo, F. Patrick Quinn, III, que é dono e opera 10 hotéis no Bairro Francês e arredores, estabeleceu temporariamente suas operações no escritório de um amigo e sócio em Baton Rouge para que possa fazer viagens freqüentes aos seus hotéis, onde estão hospedados de jornalistas a funcionários da Agência Federal de Administração de Emergência.

Geradores de emergência permitiram a Quinn fornecer energia limitada a seus hóspedes, e ele trouxe trabalhadores do Texas e da Flórida de ônibus. "Nós estaremos em funcionamento assim que a cidade estiver pronta", disse Quinn.

"O que as pessoas não percebem, assistindo a TV e tudo mais, é que o coração da cidade --o Bairro Francês, o distrito de depósitos e o distrito comercial central-- está seco", disse Perry, um personagem chave nos planos de reconstrução.

A energia deverá ser restaurada no centro da cidade em três semanas, disse Perry, e os sistemas de água e esgoto estarão em funcionamento não muito depois disto. Algumas partes da cidade já estão com a energia restabelecida.

E, é claro, é o Bairro Francês e as comunidades ao redor que atraem virtualmente todos os visitantes a esta cidade, onde o turismo é rei. O turismo traz cerca de US$ 7 bilhões a US$ 8 bilhões por ano, segundo o birô de convenções, com virtualmente todo o dinheiro gasto no Bairro Francês, no distrito comercial central e no distrito de depósitos --precisamente as áreas menos atingidas pelo furacão.

"Nós estamos caminhando por uma linha tênue aqui", disse Bill Hines, um sócio administrativo da Jones Walker, uma importante firma de advocacia com sede em Nova Orleans que transferiu mais de 100 de seus advogados para a filial daqui.

"As pessoas em Baton Rouge olham de forma engraçada para mim, como se falar em trazer a música de volta, ou o Mardi Gras, ou as artes ou o futebol, fosse frívolo quando estamos no meio deste tipo de tragédia humana. Mas eu acho que os nova-iorquinos conseguem entender", disse Hines, natural de Nova Orleans.

"Assim como foi importante a Broadway não ficar no escuro após 11 de setembro, é importante começarmos a pensar sobre o futuro apesar de todas as notícias deprimentes ao nosso redor."

Alden J. McDonald Jr., presidente da Câmara de Comércio de Nova Orleans, é mais contido do que alguns de seus camaradas. McDonald é executivo-chefe do Liberty Bank and Trust Co., o terceiro maior banco de propriedade de afro-americanos nos Estados Unidos.

McDonald, que está trabalhando em uma das agências do seu banco em Baton Rouge, disse que sua clientela foi duramente atingida, diferente daqueles do setor de turismo, e pelo menos metade de suas agências foi seriamente danificada pelas águas.

Mas ele também está começando a participar de algumas destas conversas. "Nós estamos conversando entre nós mesmos, alguns executivos de bancos, outros aqui na cidade", disse ele. "É idéia é entrarmos em sintonia para que possamos nos mover na mesma direção. Eu suspeito que entre a próxima semana a 10 dias tais conversas ganharão muito mais impulso."

McDonald disse que na segunda-feira (12/09) ele abrirá várias agências de seu banco localizadas na Paróquia de Jefferson.

A comunidade empresarial, a princípio espalhada por toda a Louisiana e Estados vizinhos na primeira semana após a tempestade, precisava urgentemente de um comando central --e obteve um, cortesia do vice-governador do Estado, Mitchell J. Landrieu, filho do ex-prefeito de Nova Orleans, Moon Landrieu, e irmão de Mary Landrieu, que representa a Louisiana no Senado dos Estados Unidos (todos democratas).

Na manhã em que o furacão atingiu o Estado, Perry seguiu na direção noroeste até a casa de sua mãe, em Baton Rouge, sem saber onde trabalharia. Imaginando que se ausentaria por dois dias no máximo, ele trouxe apenas duas camisas com ele.

Mas na quinta-feira daquela semana, Mitchell Landrieu, a quem Perry conhecia de seu tempo como chefe de gabinete de um ex-governador, emprestou a ele e sua organização algumas salas no fim do corredor onde fica seu gabinete, no último andar deste belo prédio de cinco andares, dos anos 30. Outros também aceitaram a hospitalidade de Landrieu.

Agora, quando Perry precisa falar com seu par na associação dos hotéis de Nova Orleans, ele desce a escada até o terceiro andar. O escritório de desenvolvimento econômico do prefeito fica no segundo andar. O diretor da Greater New Orleans, Inc., uma organização de desenvolvimento privado que representa muitas das maiores corporações da cidade, transformou em sua base um salão de conferência no primeiro andar até se mudar para um lugar mais espaçoso na sexta-feira.

Tais conversas são apenas preliminares, certamente. Foi apenas nos últimos dois dias que a maioria das pessoas do establishment empresarial passou a dispor de um celular operacional ou endereço de e-mail em funcionamento.

Até recentemente, eles não tinham como entrar em contato uns com os outros. Além disso, preocupações mais imediatas distraíram praticamente todos os executivos na primeira semana após a tempestade, como ajudar os seus funcionários a encontrarem um lar, a levarem suas próprias famílias.

Assim, foi apenas nos últimos dias que estes líderes e empresários da cidade começaram a planejar seu retorno. Hines, o advogado, tem estado ocupado ajudando seu filho, um estudante da Universidade de Tulane, a se candidatar a faculdades alternativas ao mesmo tempo em que ajuda sua esposa a se mudar para Houston, onde suas duas filhas freqüentarão um colégio católico. Foi apenas no meio da semana, ele disse, que ele recebeu um e-mail repassado a vários executivos-chefes sugerindo uma reunião em Baton Rouge ou Dallas para "começar a falar sobre o futuro".

Tal reunião ocorrerá neste fim de semana em Dallas, onde o prefeito estabeleceu temporariamente sua base. Na sexta-feira, Hines e outros líderes corporativos estavam fazendo planos para participar.

"As coisas realmente começaram a andar nas últimas 24 horas", disse Hines, quando contactado por telefone em seu escritório temporário, na quinta-feira.

Otimismo

Várias empresas se estabeleceram em Houston ou Dallas, no Texas. Outras preferiram se transferir para outras localidades próximas.

Mas é Baton Rouge, a 90 minutos de carro de Nova Orleans, que serve como centro do establishment empresarial deslocado da cidade. "Quase toda a liderança empresarial de Nova Orleans se mudou para cá", disse Perry em uma entrevista. Por ora, ele disse, "Baton Rouge é, na prática, Nova Orleans Norte".

É em Baton Rouge que a divisão de Nova Orleans da Freeport McMoRan, uma empresa Fortune 500, estabeleceu sede temporária. Baton Rouge é onde uma grande parte dos banqueiros e advogados de Nova Orleans se estabeleceu.

E é onde a Marriott Corp., que opera mais quartos de hotel em Nova Orleans do que qualquer outra empresa, estabeleceu um centro de comando de 125 pessoas para lidar com tudo, da busca por funcionários perdidos ao levantamento do que é necessário ser feito para a reabertura de suas 15 propriedades na área de Nova Orleans o mais rapidamente possível.

Alimentando o sentimento de otimismo que começou o tomar conta de Baton Rouge está a crescente percepção de que o Bairro Francês, a jóia da coroa da cidade, que mais do que qualquer outra indústria alimenta a economia local, sobreviveu com apenas danos moderados.

Oito das 10 propriedades de Quinn estão em ótimas condições, ele disse, e duas outras sofreram apenas poucos danos. "Se o Bairro Francês tivesse sucumbido, se tivesse sido destruído de um ponto de vista de infra-estrutura, então a fundação para a recuperação econômica teria sido removida", disse ele. "Então a população de Nova Orleans, que passou por esta quase diáspora, não teria como voltar para casa. Não haveria empregos."

Em vez disso, Perry e outros imaginam que o Bairro Francês estará pronto para os turistas dentro de 90 dias, e o centro de convenções da cidade estará pronto para receber os eventos dentro de seis meses.

O Bairro Francês está em boa forma, ele disse, e poderá ser "a chave para o renascimento da cidade. Com empregos, haverá dinheiro para iniciar a reconstrução das casas e começar a reconstrução das comunidades".

Gordon Stevens é dono e opera três cafés no Bairro Francês chamados Cafe Beignet. "Eu planejo reabrir antes do primeiro dia do ano, com certeza", disse Stevens. Stevens também opera dois barcos para turistas que, por ora, estão atracados em Baton Rouge.

Perry disse estar ouvindo a mesma confiança de vários empresários ligados ao turismo.

"Nós estaremos operando antes mesmo da cidade estar pronta para receber turistas novamente", disse ele. O fator desconhecido, disseram Perry e outros, está relacionado à saúde dos sistemas de água e esgoto da cidade, e assuntos mais mundanos como a disponibilidade de pessoas para fazer de tudo, de dirigir táxis até trabalhar nos bares.

Mark Drennan, o executivo-chefe da New Orleans, Inc., cujo escritório temporário está no Anexo do Capitólio, está igualmente otimista. Ele e membros de seu quadro de 20 funcionários --pelo menos aqueles em condições de voltar ao trabalho-- começaram a trabalhar com os representantes da Louisiana no Congresso nas linhas gerais de um plano de reorganização dos negócios para a cidade.

"Nós estamos buscando levantar dinheiro para contratar os consultores e planejadores urbanos mais talentosos existentes para nos ajudar na reconstrução", disse Drennan. Maior atração turística local, Bairro Francês sofreu poucos danos George El Khouri Andolfato

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