UOL Notícias Internacional
 

11/09/2005

Desordem marcou o progresso do furacão à anarquia

The New York Times
Por Eric Lipton, Christopher Drew, Scott Shane e David Rohde*
A governadora da Louisiana estava irritada. Era a terceira noite após o furacão Katrina ter inundado Nova Orleans, e a governadora Kathleen Babineaux Blanco precisava de ônibus para resgatar milhares de pessoas do fétido estádio Superdome e centro de convenções. Mas apenas uma fração dos 500 veículos prometidos pelas autoridades federais tinham chegado.

Vincent Laforet/The New York Times 
Carros e caminhões se amontoam na água, sem ter para onde ir, em Chalmette (Lousiana)

Blanco invadiu o centro de emergência do Estado em Baton Rouge. "Alguém neste prédio sabe de algo sobre os ônibus?", ela lembrou de ter gritado.

Eles eram realmente fundamentais para evacuar uma cidade onde quase 100 mil pessoas não tinham carros. Mas as autoridades federais, estaduais e locais, que fracassaram em reunir ônibus antecipadamente, agora estavam em uma busca frenética. Levaria mais de dois dias até encontrarem ônibus suficientes para esvaziar os abrigos.

As autópsias oficiais da falha em responder à tempestade catastrófica já começaram em Washington, e podem oferecer lições para lidar com um ataque terrorista ou mesmo outro furacão nesta estação.

Mas um exame inicial das conseqüências do Katrina demonstra a extensão em que o governo federal fracassou em cumprir a promessa feita após os ataques de 11 de setembro, de enfrentar as ameaças como uma força unida, coesa.

Em vez disso, a crise em Nova Orleans foi aprofundada por causa de um impasse virtual entre autoridades federais hesitantes e autoridades locais e estaduais sitiadas, como mostraram entrevistas com dezenas de autoridades.

As autoridades da Agência Federal de Administração de Emergência (FEMA) esperavam que o Estado e a cidade comandariam seus próprios esforços e pediriam por ajuda se necessário.

Mas os líderes na Louisiana e Nova Orleans estavam tão sobrecarregados pela escala da tempestade que não estavam apenas incapacitados de administrar a crise, mas também sem saber exatamente do que precisavam.

Enquanto as autoridades locais presumiam que Washington forneceria ajuda rápida e extensa, as autoridades federais, pesando legalidades e logística, prosseguiam em um ritmo hesitante.

Russ Knocke, secretário de imprensa do Departamento de Segurança Interna, disse que qualquer exame detalhado da resposta ao Katrina revelará falhas de muitas partes. "Eu não acredito que ocorreu um erro crítico", disse ele. "Haverá alguns erros que foram cometidos por todos os envolvidos."

A FEMA parece ter subestimado a tempestade, apesar do alerta extraordinário do Centro Nacional de Furacões de que ele causaria "um sofrimento humano incrível segundo os padrões modernos". A agência enviou apenas sete de suas 28 equipes de busca e resgate urbano para a área antes da chegada da tempestade e não enviou nenhum agente para Nova Orleans depois da passagem do Katrina, na segunda-feira, 29 de agosto.

Na terça-feira, um funcionário da FEMA, que tinha sobrevoado a cidade de helicóptero, parecia ter dificuldade para transmitir aos seus chefes o grau de destruição, segundo uma vereadora de Nova Orleans.

"Ele telefonou para Washington e ouvi ele dizer: 'Vocês precisam entender o quão sério é isto, e não se trata do que me disseram, isto é o que eu vi pessoalmente'", lembrou a vereadora Cynthia Hedge-Morrell, do funcionário da FEMA ter dito.

As autoridades estaduais e federais passaram dois anos trabalhando em um plano para desastre em preparação a uma tempestade altamente devastadora, mas ele estava incompleto e fracassou em lidar com duas questões que provaram ser cruciais: a evacuação dos refugiados e a imposição de lei e ordem.

A Guarda Nacional da Louisiana, já limitada pelo envio de mais de 3 mil soldados ao Iraque, foi atrapalhada quando seus quartéis em Nova Orleans foram inundados. Ela perdeu 20 veículos que poderiam ter transportado os soldados pelas ruas alagadas e teve que abandonar seu equipamento de comunicação mais avançado, disseram oficiais da Guarda.

Em parte devido à escassez de soldados, a violência tomou conta do interior do Centro de Convenções de Nova Orleans, que entrevistas mostram que foi ainda pior do que o descrito anteriormente. Membros de uma equipe policial da SWAT se viram avançando na escuridão, guiados pelos clarões dos disparos das armas dos bandidos, disse o capitão Jeffrey Winn.

"Em 20 anos como policial, realizando em grande parte trabalho tático, eu nunca vi nada como aquilo", disse Winn. Três de seus oficiais pediram demissão, ele disse, e outro simplesmente desapareceu.

Um desastre nacional

Oliver Thomas, o presidente da Câmara dos Vereadores de Nova Orleans, expressou uma opinião semelhante a de muitos no governo estadual e
municipal: a de que um desastre nacional exige uma resposta nacional.

"Todos estão tentando olhar para isto como se a cidade de Nova Orleans tivesse se atrapalhado", disse Thomas em uma entrevista. "Mas então você quer dizer que no país mais rico do mundo, as pessoas realmente esperam que uma pequena cidade, com menos de 500 mil habitantes, seria capaz de lidar com um desastre destes? É ridículo até mesmo pensar nisto."

Andrew Kopplin, o chefe de gabinete de Blanco, tem uma posição semelhante. "Este foi um desastre natural maior do que qualquer Estado seria capaz de lidar sozinho, muito menos um Estado pequeno e um relativamente pobre", disse Kopplin.

As autoridades federais parecem ter tardiamente chegado à mesma conclusão. Michael Chertoff, o secretário de Segurança Interna, disse que futuras "ultracatástrofes" como o Katrina exigirão um papel federal mais agressivo.

E Michael D. Brown, o diretor da FEMA, que foi elogiado publicamente pelo presidente Bush uma semana antes por ter feito um "trabalho tremendo", foi afastado na sexta-feira, substituído por um almirante encarregado.

Richard A. Falkenrath, um ex-conselheiro de segurança interna da Casa Branca de Bush, disse que a principal falha federal foi não prever que a cidade e o Estado seriam tão comprometidos.

Ele disse que a resposta expôs a "falsa propaganda" sobre como o governo foi transformado nos últimos quatro anos após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

"Francamente, eu não fiquei surpreso com o fato de ter transcorrido de tal forma", disse Falkenrath.

No meio da tarde daquela segunda-feira, poucas horas após a entrada do Katrina no continente, os líderes estaduais e federais apareceram juntos em uma coletiva de imprensa em Baton Rouge, em uma demonstração de solidariedade.

Blanco expressou sua gratidão a Brown, o chefe da FEMA.

"Diretor Brown", disse ela, "eu espero que diga ao presidente Bush o quanto apreciamos saber -e estes são os momentos que realmente contam- que nosso governo federal virá nos dar o tipo de assistência que precisaremos".

A senadora Mary L. Landrieu acrescentou: "Nós somos realmente afortunados por termos um diretor experiente e capaz da FEMA, que esteve conosco aqui por algum tempo".

Brown respondeu no mesmo espírito: "O que vi aqui hoje é uma equipe coesa, trabalhando estreitamente junta, sendo muito profissional ao fazê-lo, e na minha humilde opinião, tomando as decisões certas".

Àquela altura, Nova Orleans parecia ter sido poupada do pior da tempestade, apesar de algumas áreas já terem sido inundadas por fendas nas barragens. Mas quando a inundação disseminada lançou a cidade na crise, a confiança de segunda-feira ruiu, expondo a grave fragilidade do mecanismo dos serviços de emergência.

Foco no terrorismo

Questões foram levantadas sobre a FEMA, que foi engolida pelo Departamento de Segurança Interna, criado após 11 de setembro. Seus críticos se queixavam de que ela estava voltada demais ao terrorismo, prejudicando os preparativos para desastres naturais, e que se tornou politizada.

Brown é um advogado que chegou à agência por meio de conexões políticas, mas com pouca experiência na administração de emergências.

Isto também é verdadeiro para Patrick J. Rhode, o chefe de gabinete da FEMA, que foi vice-diretor das operações avançadas da campanha de Bush e da Casa Branca de Bush.

Scott R. Morris, que era vice-chefe de gabinete da FEMA e agora é diretor de seu escritório de recuperação na Flórida, trabalhava para a Maverick Media em Austin, Texas, como estrategista de mídia da campanha de Bush nas primárias e da campanha Bush-Cheney de 2000.

E David I. Maurstad era o vice-governador republicano do Nebraska antes de se tornar diretor do escritório regional da FEMA em Denver, e depois um alto membro do quartel-general da agência.

A Federação Americana dos Funcionários Públicos, que representa os funcionários da FEMA, escreveu ao Congresso, em junho de 2004, se queixando: "Diretores experientes da agência estão sendo colocados de lado para abrir espaço a novatos inexperientes e empreiteiros".

Além disso, a ênfase do governo no terrorismo afetou o tipo de equipamento que os Estados podiam comprar com dinheiro federal para preparativos de emergência, disse Trina R. Sheets, diretora executiva da Associação Nacional de Administração de Emergências, que representa as autoridades estaduais.

Mesmo assim, a perspectiva de um grande furacão atingir Nova Orleans era uma prioridade da FEMA. Vários estudos e exercícios foram realizados em preparação a uma resposta.

Em 2002, Joe M. Allbaugh, o então diretor da FEMA, disse: "Desastres catastróficos são melhor definidos por superarem totalmente os recursos locais e estaduais, o motivo para a necessidade de um papel do governo federal. Há cerca de meia-dúzia de contingências no país que me causam grande preocupação, e uma delas está bem ali no seu quintal".

As autoridades federais prometeram trabalhar com as autoridades locais para melhorar a resposta a um furacão, mas o plano para a Louisiana não estava concluído quando o Katrina atingiu o Estado.

As autoridades estaduais disseram que o plano ainda não contemplava transporte ou controle de crimes, duas questões que provaram ser cruciais. Terry Ebbert, diretor de segurança interna para Nova Orleans desde 2003, disse que nunca falou com a FEMA sobre o plano de desastre para o Estado. Nova Orleans tinha seu próprio plano.

À primeira vista, o Anexo 1 do "Plano Abrangente de Administração de Emergência da Cidade de Nova Orleans" é tranqüilizador. Quarenta e uma páginas de prosa simples traçam uma lista aparentemente completa de procedimentos de evacuação em caso de furacão, incluindo um "centro de comando móvel" que substituiria um prédio da prefeitura incapacitado e quais escolas seriam designadas como abrigos.

Nova Orleans gastou US$ 18 milhões em recursos federais desde 2002 em exercícios, treinamento para emergências e na construção de torres de transmissão para melhorar as comunicações de emergência. Após anos de atrasos, um novo centro de comando de US$ 16 milhões seria concluído em 2007.

Houve conversa sobre a melhoria do abastecimento de água e energia elétrica de emergência ao Superdome, o abrigo de emergência da cidade de "último recurso", como parte de um novo acordo com o inquilino, o time do New Orleans Saints.

Mas o plano da cidade dizia que cerca de 100 mil habitantes "não possuem meios de transporte pessoais" para evacuação, e poucos detalhes foram oferecidos sobre formas de abrigá-los.

Sem normas rígidas

Apesar do Departamento de Segurança Interna ter encorajado Estados e cidades a apresentarem estratégias de preparação para emergências, ele não estabeleceu normas rígidas para os planos de evacuação.

"Há uma exigência muito vaga em termos de quando deve ser feita e qual sua qualidade", disse Michael Greenberger, um professor da Escola de Direito da Universidade de Maryland e diretor do Centro para Saúde e Segurança Interna. "Não há muita urgência."

Ele disse que a experiência de Nova Orleans ilustra que a resposta ao desastre não foi coordenada entre os níveis de governo, apesar da coordenação ter sido parte da agenda elaborada por Washington em seu Plano Nacional de Resposta, apresentado após os ataques de 11 de setembro.

Enquanto o furacão Katrina se aproximava de Nova Orleans, o prefeito C. Ray Nagin seguiu o plano da cidade, eventualmente ordenando a primeira evacuação obrigatória da cidade. Apesar de 80% da população de Nova Orleans ter partido, até 100 mil pessoas permaneceram.

Ebbert decidiu tornar o Superdome o único abrigo da cidade, presumindo que a cidade teria que abrigar as pessoas no estádio por apenas cerca de 48 horas, até a passagem da tempestade ou a chegada do governo federal para o resgate das pessoas.

Já na sexta-feira, 26 de agosto, enquanto o Katrina cruzava o Golfo do México, as autoridades no centro de vigilância no quartel-general da FEMA, em Washington, discutiam a necessidade de ônibus.

Alguém disse: "Nós devíamos estar obtendo ônibus e removendo as pessoas de lá", lembrou Leo V. Bosner, um especialista em administração de emergência com 26 anos de FEMA e presidente do sindicato dos funcionários. Outros concordaram, ele disse.

"Nós todos podíamos ver ela se aproximando, como um míssil teleguiado", disse Bosner sobre a tempestade. "Nós, como membros da agência, nos sentimos impotentes. Nós sabíamos que era necessária a rápida adoção de grandes medidas, mas, por algum motivo, elas não foram adotadas."

Motoristas com medo

Quando a água subiu, o Estado começou a lutar para encontrar ônibus. As autoridades imploravam às várias paróquias do Estado para que enviassem ônibus escolares. Mas na terça-feira, 30 de agosto, à medida que surgiam as notícias na imprensa de saques e violência, as autoridades locais começaram a resistir.

Blanco disse que os motoristas dos ônibus, a maioria mulheres, "ficaram com medo de dirigir".

"Então começamos a procurar por pessoas com autoridade para dirigir ônibus escolares", disse Blanco.

A FEMA se ofereceu para ajudar, disse a governadora, requisitando ônibus. A Greyhound Lines começou a enviar ônibus para Nova Orleans duas horas após obter a aprovação da FEMA na quarta-feira, 31 de agosto, disse Anna Folmnsbee, uma porta-voz da Greyhound.

Mas o ritmo lento e os relatos de desespero e violência no Superdome levaram ao apelo frustrado da governadora no centro de emergência do Estado, na noite de quarta-feira.

Ela eventualmente assinou uma ordem executiva exigindo que as paróquias entregassem seus ônibus, disse o coronel William J. Doran III, diretor de operações do Escritório de Segurança Interna e Preparação para Emergência.

"Só a logística para obtenção de ônibus suficientes para remover as pessoas do estádio nos tomou três dias", disse Doran. Um problema de transporte separado surgiu para os asilos. Em alguns casos, o atraso provou ser mortal.

Regulamentação estadual exige que os asilos tenham planos de evacuação detalhados e contratos assinados de evacuação com empresas privadas de transporte, segundo autoridades da Louisiana.

Mas 70% dos 53 asilos da área de Nova Orleans não foram evacuados antes da chegada do furacão na manhã de segunda-feira, segundo a Associação dos Asilos da Louisiana. Nesta semana, as buscas revelaram 32 corpos em um asilo em Chalmette, uma comunidade vizinha de Nova Orleans.

Mark Cartwright, um membro do comitê de preparação para emergência da associação dos asilos, disse que 3.400 pacientes foram evacuados da cidade em segurança. Um número desconhecido de pacientes morreu aguardando evacuação ou durante a evacuação.

"Eu ouvi histórias", disse Cartwright. "Como o resgate não chegou, as pessoas estavam sucumbindo ao calor." Cartwright disse que alguns diretores de asilos ignoraram a ordem de evacuação obrigatória do prefeito, optando por manter seus pacientes frágeis no local e aguardarem pela passagem da tempestade.

Em evacuações anteriores por furacão, os diretores de asilos foram criticados depois que pacientes idosos morreram enquanto estavam sentados em ônibus presos em congestionamentos gigantes.

Símbolos de desespero

A confluência destas falhas de planejamento e o rompimento das barragens transformaram dois dos marcos mais visíveis do perfil de Nova Orleans -o Superdome e o centro de convenções- em armadilhas mortais e símbolos do desespero da cidade.

No Superdome, a calma inicial se transformou em medo quando um pedaço do teto branco foi arrancado pelo vento, lançando destroços sobre o distintivo dos Saints no campo. A queda da eletricidade deixou apenas pouca iluminação dentro do prédio sem janelas. O domo rapidamente se transformou em uma sauna gigante, com as temperaturas passando de 38 graus.

Dois terços das 24 mil pessoas presas em seu interior eram mulheres, crianças e idosos, e muitos eram enfermos, disse Lonnie C. Swain, um superintendente assistente de polícia que supervisionava os 90 policiais que patrulhavam o local juntamente com 300 soldados da Guarda Nacional da Louisiana. E não demorou muito para o mau cheiro de dejetos humanos fizesse muitas pessoas buscarem o lado de fora.

Swain disse que a Guarda forneceu água e comida -duas rações militares por dia. Mas o desespero cresceu assim que as pessoas começaram a fazer fila na quarta-feira para os ônibus aguardados para a manhã do dia seguinte, apenas para se depararem com seu misterioso atraso.

Ebbert e Swain disseram em entrevistas que os primeiros ônibus obtidos pela FEMA foram desviados para outro lugar, e foram necessárias muitas horas a mais para o início da evacuação.

Na sexta-feira, a água e a comida tinham se esgotado. Também irrompeu a violência. Um soldado da Guarda foi ferido por disparos e a polícia confirmou que ocorreram tentativas de ataque sexual contra pelo menos uma mulher e uma criança, disse Swain.

E apesar da existência de clínicas no estádio, disse Swain, "algumas poucas pessoas morreram durante sua estadia aqui".

Quando os últimos ônibus chegaram no sábado, ele disse, algumas crianças estavam tão desidratadas que os soldados da Guarda tiveram que carregá-las para fora, e vários adultos morreram enquanto caminhavam para os ônibus. As autoridades estaduais disseram no sábado que um total de 10 pessoas morreram no Superdome.

"Eu estou muito revoltado por não termos conseguido os recursos que precisávamos para salvar vidas", disse Swain. "Eu estava assistindo pessoas morrerem."

Nagin e o chefe de polícia de Nova Orleans, P. Edwin Compass III, disseram em entrevistas que acreditavam que assassinatos ocorreram no Superdome e no Centro de Convenções, para onde a cidade também começou a enviar pessoas na terça-feira. Mas no Centro de Convenções, a violência foi ainda mais predominante.

"O maior problema é que não havia segurança suficiente", disse Winn, chefe da equipe da SWAT. "A única forma de descrever é uma situação de total falta de lei."

Enquanto aqueles que entravam no Superdome eram revistados à procura de armas, não houve tempo para a tomada de precauções semelhantes no Centro de Convenções, que recebeu uma mistura volátil de pobres, ricos e funcionários de hospitais e pacientes. Tiros se tornaram tão rotineiros que grandes equipes da SWAT tinham que invadir o local quase toda noite.

Winn disse que grupos armados de 15 a 25 homens aterrorizavam as pessoas, roubando dinheiro e jóias. Ele disse que policiais que patrulhavam o centro lhe disseram que várias mulheres foram arrastadas pra fora por grupos de homens e estupradas por eles -e que assassinatos estavam ocorrendo.

Cordeiros 'com os leões'

"Nós tínhamos uma situação em que os cordeiros tinham sido presos com os leões", disse Compass. "E nós basicamente tivemos que nos tornar domadores de leões."

Winn disse que grupos armados até mesmo selaram a polícia de fora de dois dos seis salões do centro, forçando a equipe da SWAT a retomar o território.

Mas a polícia estava em desvantagem: ela não podia disparar contra a multidão no local quente e mal iluminado. Então, quando viam clarões de disparos, ela corria na direção deles, revistando com lanternas à procura de alguém com uma arma.

Enquanto isso, aqueles nas proximidades "fugiam correndo para salvar suas vidas", disse Winn. "Ou ficavam deitados no chão em posição fetal."

E quando a equipe da SWAT pegava alguns dos culpados, não havia muito o que fazer. As cadeias também estavam inundadas, e ainda não tinham sido criadas cadeias temporárias.

"Nós os levávamos para outro salão e esperávamos que não voltassem", disse Winn.

Certa noite, disse Winn, o departamento de polícia chegou perto de abandonar o centro de convenções -e desistir dos 15 mil lá dentro. Ele disse que um capitão encarregado da policia comum estava preparando a evacuação de seu contingente por helicóptero quando 100 soldados da Guarda Nacional chegaram para restaurar a ordem.

Antes que a última pessoa fosse evacuada naquele sábado, vários corpos foram jogados perto da porta, e dois ou três bebês morreram de desidratação, disseram médicos de emergência. As autoridades estaduais disseram que 24 pessoas morreram dentro ou do lado de fora do centro de convenções.

As autoridades estaduais disseram que não tinham qualquer informação sobre quantas destas mortes foram homicídios. Winn disse quando sua equipe fez a varredura final no prédio na última segunda-feira, ela encontrou três corpos, incluindo um com múltiplas facadas.

Winn disse que quatro de seus homens pediram demissão em meio ao terror. Outros policiais disseram que cerca de 10 policiais comuns destacados ao Superdome e 15 a 20 ao Centro de Convenções também pediram demissão, juntamente com várias centenas de outros policiais por toda a cidade.

Mas, disse Winn, a maioria dos policiais da cidade estava "se arrebentando de trabalhar" e se agüentando heroicamente. Quanto ao terror e falta de lei, ele acrescentou: "Eu só não esperava que fosse explodir da forma que ocorreu".

Enquanto a cidade ficava paralisada tanto pela água quanto pela falta de lei, o mesmo acontecia com a resposta do governo. A divisão fraturada de responsabilidade -Blanco controlava as agências estaduais e a Guarda Nacional, Nagin dirigia os funcionários municipais, e Brown, o chefe da FEMA, servia como representante do governo federal- significava que ninguém estava no comando.

As pessoas que assistiram pela televisão viram uma governadora freqüentemente abatida, um prefeito volúvel e o geralmente otimista chefe da FEMA aparecerem em coletivas de imprensa e entrevistas diárias concorrentes.

Divisão de poder deliberada

O arranjo de divisão de poder deliberado, à medida que os dias passavam, provou ser desastroso. Sob o governo Bush, a FEMA redefiniu seu papel, oferecendo assistência mas permanecendo subordinada aos governos estadual e local.

"Nosso papel típico é trabalhar com o Estado em apoio às agências estaduais e locais", disse David Passey, um porta-voz da FEMA.

Com o Katrina, isto significou que a agência mais experiente em lidar com desastres e com acesso aos maiores recursos obedeceu, em vez de comandar.

A deferência da FEMA foi frustrante. Em vez de iniciar os esforços de ajuda -ônibus, alimentos, tropas, combustíveis, barcos de resgate- a agência esperava por pedidos específicos das autoridades estaduais e locais.

"Quando você vai para a guerra você não tem tempo de pedir por cada cápsula de munição que precisa", reclamou Ebbert, o diretor de operações de emergência da cidade.

Sem comunicações e com grande parte da cidade inacessível, as autoridades nem sempre podiam ser precisas. "Se você não sabe quais são suas necessidades, eu não posso pedir à FEMA o que preciso", disse o tenente-coronel William J. Doran III, do Escritório de Segurança Interna e Preparação da Louisiana.

Para Bush, Blanco dirigiu um apelo urgente e não bem definido.

"Eu preciso de tudo o que você tiver", a governadora disse ter dito ao presidente na segunda-feira. "Eu vou precisar de toda a ajuda que você puder me enviar."

Blanco, em uma entrevista nesta semana, disse que estava frenética à medida que as condições se tornavam mais perigosas. "Nós íamos do amanhecer até tarde da noite, dia após dia, após dia, após dia, tentando tomar decisões críticas", disse ela. "Tentando obter produtos, recursos, saber de onde vem a comida. Conhecendo a rede de fornecimento."

Ela disse que nem sempre ela sabia exatamente o que pedir. "Nós paramos e pensamos a respeito?" ela perguntou. "Você só pára e pensa em ajudar."

A assistência da FEMA foi crucial, mas seu ritmo parecia lento. "Assim que se move, é grande", disse Doran sobre a agência. "Mas até se mover, leva um grande tempo para mobilizá-la."

A agência de desastre atribuiu parte do atraso a problemas de comunicações em um evento esmagador. "Havia uma quantidade significativa de discussões entre as partes e provavelmente alguma confusão sobre o que foi pedido e o que era necessário", disse Knocke, o porta-voz do Departamento de Segurança Interna.

Enquanto Nova Orleans degradava em uma quase anarquia, a Casa Branca considerava o envio de tropas do serviço ativo para impor a ordem. O Pentágono não estava disposto a ter tropas de combate no papel de polícia doméstica. "Da forma como está arranjado em nossa Constituição", notou o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, em uma coletiva de imprensa nesta semana, "as autoridades estaduais e locais devem ser a primeira linha de resposta".

Autoridades do Pentágono, Casa Branca e do Departamento de Justiça debateram por dois dias se o presidente devia tomar o controle da missão de ajuda das mãos de Blanco. Mas temiam as conseqüências políticas de passar por cima da autoridade do Estado, segundo funcionários envolvidos nas discussões. No final, elas rejeitaram a idéia e decidiram tentar acelerar a chegada das forças da Guarda Nacional, incluindo muitos soldados treinados como policiais militares.

Paul McHale, o secretário-assistente de Defesa para segurança interna, explicou tal decisão em uma entrevista nesta semana. "Nós poderíamos ter enviado fisicamente forças de combate para uma cidade americana, sem o consentimento do governador, visando usar tais forças não treinadas do ponto de vista de manutenção da lei, para tal fim? Sim."

Mas, ele perguntou, "você quer isto na sua consciência?"

Para alguns daqueles nas áreas atingidas, tais discussões em Washington pareciam remotas. Antes da cidade se acalmar, seis dias depois da tempestade, tanto Nagin quanto Ebbert atacaram.

Blanco quase zombou das palavras de garantia oferecidas pelas autoridades federais. "Eles dizem que estão chegando, que estão chegando, que estão chegando, que estão chegando", disse ela em uma entrevista. "Está tudo a caminho. Está tudo em movimento."

'Preso em Atlanta'

As imagens de partir o coração da Costa do Golfo provocaram ofertas de todo tipo possível de ajuda. Mas a FEMA se viu acusada repetidamente de colocar minúcias burocráticas à frente da ajuda àqueles que precisavam desesperadamente dela.

Centenas de bombeiros que responderam a um pedido nacional de ajuda ao desastre foram mantidos por dias pela agência federal em Atlanta, para treinamento em relações comunitárias e abusos sexuais antes de serem enviados para a área devastada.

A demora, se queixaram alguns voluntários, representava que vidas estavam sendo perdidas em Nova Orleans.

"No noticiário, a cada noite, você ouvia: 'Por que todos nos esqueceram?'" disse Joseph Manning, um bombeiro de Washington, Pensilvânia, ao "The Dallas Morning News". "Nós não esquecemos. Nós estamos presos em Atlanta bebendo cerveja."

William D. Vines, um ex-prefeito de Fort Smith, Arkansas, ajudou a entregar comida e água nas áreas atingidas pelo furacão. Mas ele disse que a FEMA parou dois caminhões com milhares de garrafas de água destinadas ao Campo Beauregard, perto de Alexandria, Louisiana, uma área de manobras para distribuição de suprimentos.

"A FEMA não permitia que os caminhões descarregassem", disse Vines em uma entrevista. "Os motoristas ficaram retidos por vários dias no acostamento a cerca de 16 quilômetros do Campo Beauregard. A FEMA disse que precisávamos de 'um número de tarefa'. Que diabos é um número de tarefa? Eu não tenho idéia. É só burocracia e é ridículo."

A senadora Blanche Lincoln, democrata de Arkansas, que intercedeu em nome de Vines, disse: "Todos os escritórios do Congresso tinham dificuldade em contatar a FEMA. Os escritórios do governo tinham dificuldade em contatar a FEMA". Quando Arkansas ofereceu repetidas vezes o envio de ônibus e aviões para evacuar as pessoas deslocadas pela inundação: "Era informado que eles não podiam ir. Eu realmente não sei por quê".

Em 31 de agosto, o xerife Edmund M. Sexton, Sr., de Tuscaloosa County, Alabama, e presidente da Associação Nacional dos Xerifes, enviou um alerta convocando seus membros.

"O pessoal foi retido por dois, três dias, enquanto eles trabalhavam na papelada", disse ele.

Alguns xerifes se recusaram a esperar. Em Wayne County, Michigan, que inclui Detroit, o xerife Warren C. Evans recebeu um telefonema de Sexton em 1º de setembro.

No dia seguinte, ele liderou um comboio com seis tratores, três caminhões de aluguel e 33 policiais, apesar do apelo público da governadora Jennifer M. Granholm para que aguardassem um pedido formal.

"Eu assistia a CNN e via pessoas morrendo, e não podia em boa consciência aguardar por uma resposta coordenada", disse Evans. Ele entregou comida, água e suprimentos médicos em Mobile e Gonzales, Louisiana, onde uma força-tarefa de xerifes o direcionou ao Bairro Francês. No sábado, 3 de setembro, a equipe de Michigan estava realizando missões de busca e resgate. "Nós perdemos milhares de vidas que podiam ter sido salvas."

Knocke, o porta-voz de segurança interna, disse: "É um testamento da generosidade do povo americano -muitas pessoas queriam contribuir".

"Mas", ele continuou, "não há realmente qualquer meio de saber a esta altura se ou como as ofertas localizadas foram adicionadas à operação de resposta e recuperação".

Metas elevadas

Uma ironia da muito criticada resposta federal ao furacão é que ela está sendo supervisionada por um novo departamento federal criado em resposta às falhas percebidas na resposta aos ataques de 11 de setembro. E é regido por um novo plano do Departamento de Segurança Interna apresentado em dezembro com grande fanfarra.

O Plano Nacional de Resposta estabeleceu uma meta elevada em seu prefácio: "O resultado final é uma coordenação altamente melhorada entre as organizações federais, estaduais, locais e tribais para ajudar a salvar vidas e proteger as comunidades da América, aumentando a velocidade, eficácia e eficiência na administração de incidentes".

A evidência da resposta inicial ao furacão Katrina gerou dúvidas sobre se o plano realmente melhorou a coordenação. Mas com prováveis várias grandes análises do caso Katrina, haverá muita oportunidade para determinar o que funcionou e o que fracassou na maior resposta a desastre na história americana.

Uma destas análises será feita dentro do Departamento de Segurança Interna. Knocke disse que o departamento percebeu que precisa aprender com seus erros, e o inspetor-geral do departamento recebeu US$ 15 milhões em verba adicional de emergência pelo Congresso para estudar a falha operação de resgate e recuperação, assim como a continuidade do esforço para reconstruir a região.

"Haverá muita culpa para ser distribuída por todos os níveis", disse ele. "Nós seremos nossos maiores críticos."

* Jason DeParle, Robert Pear, James Risen e Thom Shanker contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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