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12/09/2005

Chegando à Broadway via Hollywood

The New York Times
Jesse McKinley
É um dilema eterno. Você quer ir ao cinema, mas sua namorada quer ir
ao teatro. Bem, a Broadway de hoje permite que você divida a
diferença. Quase metade dos 20 musicais da Broadway foram tirados de
filmes, inclusive dois dos sucessos da última temporada: "Spamalot de
Monty Python" e "Dirty Rotten Scoundrels" (do filme "Os Safados") e
sucessos antigos como "The Producers", "Hairspray", "Rei Leão" e "A
Bela e a Fera". (Se eles deixassem você comprar pipoca...)

Joan Marcus/Alliance Theater/The New York Times 
A atriz LaChanze interpreta Celie, personagem de "A Cor Púrpura", em montagem da Alliance Theater

A Broadway vem roubando idéias de Hollywood desde sempre. No entanto,
as mudanças financeiras nos dois ramos, combinadas com uma indústria teatral cada vez mais avessa ao risco levaram essa antiga tendência a um outro patamar. Atualmente, os produtores estão adaptando dezenas de filmes para musicais. Desde "Blade Runner" (que se baseia em um romance) até "Batman" (baseado em uma série em quadrinhos), nenhum filme parece bizarro demais para ser adaptado.

"O trânsito de duas mãos entre Nova York e Hollywood é um fato da vida, desde que Hollywood foi inventada. Mas ele realmente se intensificou nos últimos cinco anos", disse Jed Bernstein, presidente da Liga de Teatros e Produtores Americanos.

Alinhados para a temporada de 2005-2006 estão "Afinado no
Amor", "Tarzan", "A Cor Púrpura", tirado do livro de Alice Walker e do
filme de 1985, e possivelmente "Princesses", baseado livremente no
romance vitoriano e filme de 1995 "A Princesinha".

Alguns críticos, é claro, vêem os musicais de filmes como outro sinal
da falência criativa da Broadway, uma mistura cínica de comércio e
marketing com uma pitada de arte, mais usada para vender DVDs do que
para elevar o público. O compositor Michael John LaChiusa iniciou
recentemente um debate acirrado sobre espetáculos inspirados em
filmes, publicado na Opera News, chamando muitos de "falsos musicais"
que não "aspiram ser o próximo 'West Side Story'", mas meramente
seguem os passos dos filmes. Outros produtores freqüentemente riem das
idéias de adaptações.

Enquanto isso, os musicais de filmes estão ganhando cada vez mais
fôlego, em parte porque os estúdios tomaram medidas para melhor vender
seus catálogos para os produtores. Uma das principais razões pelo
crescimento, aparentemente, é simples: a Disney. Nos anos 90, a Disney
provou -definitivamente- que versões de filmes animados para o palco
poderiam atrair as famílias (e turistas e moradores e todo mundo). "A
Bela e a Fera" e o "Rei Leão" arrecadaram US$ 3,3 bilhões (cerca de R$
7,9 bilhões) no mundo todo. (As bilheterias combinadas dos dois
filmes, enquanto isso, deram meros US$ 1,16 bilhão, ou cerca de R$ 2,8
bilhões, de acordo com o Box Office Mojo, site da Web que acompanha os
resultados de bilheteria). E isso antes das camisetas, CDs e livros de
lembrança.

"Esse não é um negócio pequeno", disse Thomas Schumacher, presidente
da Disney Theatricals, que emprega cerca de 100 pessoas. "A Broadway
tem dois espetáculos da Disney em cartaz. No entanto, há 16 companhias
apresentando-os pelo mundo."

E haverá mais. "Tarzan" deve estrear na primavera e "Mary Poppins"
deve aterrissar na Broadway na temporada de 2006-7. A versão para o
palco de "A Pequena Sereia" também está a caminho. "Mary Poppins", que
estreou em Londres no ano passado, é co-produzida por Cameron
Mackintosh, que tentou um musical de "As Bruxas de Eastwick" em
Londres há dois anos.

Agora, outras empresas de cinema parecem estar seguindo a idéia da
Disney. Em 2003, a Warner Bros, parte da Time Warner, montou sua
própria divisão de produção teatral, a Warner Bros. Theatre Ventures,
que fará sua estréia na próxima primavera com "Lestat", com música e
letra de Elton John e Berine Taupin. O musical se baseia nos livros de
vampiros de Anne Rice, com o personagem do filme de 1994 "Entrevista
com o Vampiro".

O primeiro projeto da DreamWorks também está a caminho: "Shrek", para
o qual assinou com o diretor aclamado Sam Mendes.

Companhias menores também estão entrando no ramo. A Working Title
Filmes, subsidiária da Universal, está envolvida no desenvolvimento
de "Billy Elliott", versão musical do filme de um menino que dança
balé de 2000, um sucesso em Londres que deve chegar à Broadway. (A
Universal também é parceira em "Wicked", história que antecede "O Mago
de Oz", que está ganhando dinheiro em Broadway e na estrada). Harvey
Weinstein, senhor do cinema de Nova York, investiu em uma dezena de
espetáculos da Broadway nos últimos cinco anos; será que teremos uma
versão musical de "Cães de Aluguel"?

Os estúdios sem dúvida também tomaram nota quando "The Producers"
e "Hairspray", dois sucessos cult que estavam empoeirados nos
catálogos dos estúdios -se tornaram enormes sucesso. Por exemplo,
Margo Lion, produtora de "Hairspray", diz que a New Line Cinema, que
produziu o filme original e foi grande investidora da versão para a
Broadway, procurou-a no ano passado com quatro novos títulos que
achava que daria bons musicais. (Ela escolheu "Afinado no Amor",
sucesso de 1998 de Adam Sandler, que deve estrear nesta primavera.)

Algumas companhias decidiram produzir seus próprios espetáculos, mas a
maior parte ainda prefere entregar a quem tem grande experiência de
produção na Broadway. A MGM abriu a MGM On Stage em 2002, para ajudar
a promover seus títulos como potenciais musicais, uma estratégia que
já resultou em dois atuais espetáculos da Broadway -" Os Safados"
e "Chitty Chitty Bang Bang".

"Estamos satisfeitos", disse Darcie Denkert, presidente da MGM On
Stage. "Sempre achamos que o catálogo da MGM era uma arca de tesouros." A lista continua: de acordo com Denkert, a MGM está licenciando,
negociando ou desenvolvendo cerca de 30 títulos, a maior parte
musicais, inclusive dois filmes da Pantera Cor de Rosa; "O Nome do
Jogo", filme de 1995 de John Travolta; e o mais famoso filme de patrão
morto de todos os tempos. Isso mesmo, "Um Morto Muito Louco", o
musical.

Gregg Maday, vice-presidente executivo da Warner Bros. Theater
Ventures diz que deu preferência a agentes experientes da Broadway,
como Alan Wasser, gerente geral veterano, e SpotCo, uma das maiores
empresas de propaganda da Broadway.

"Eles têm tanta experiência que fico feliz em estar perto deles. Há
muito a aprender", disse Maday, que se mudou para Hollywood depois de
estudar teatro na faculdade.

Os produtores de teatro certamente não estão seguindo o modelo
financeiro de Hollywood -a indústria de cinema está tendo um terrível
verão, enquanto a Broadway está prosperando. No entanto, eles
certamente amam suas histórias, mesmo que pareçam pouco musicais. Por
exemplo, Marty Bell, produtor que gerenciou as adaptações para a
Broadway de "Os Safados" (que está indo bem) e "A Embriaguez do
Sucesso" (que não se saiu bem), quer fazer um musical de "Rede de
Intrigas", a sátira de 1976 de Paddy Chayefsky sobre o mundo da
televisão. "Dr. Jivago" está a caminho, assim como "Batman", que está
sendo musicado por Jim Steinman, que -sem brincadeira- escreveu o
sucesso do Meat Loaf "Bat Out of Hell". Até documentários estão
recebendo o tratamento de música e dança -"Grey Gardens" está no
Playwrights Horizons nesta temporada.

É claro que os musicais sempre se basearam em outra coisa -ficção,
peças, relatos históricos. "Os musicais tradicionalmente são adaptados
de alguma fonte material", disse Lion.

"Como disse Alan Jay Lerner, é difícil o suficiente escrever um
musical sem ter que também criar uma história", disse Lion,
parafraseando o autor de "My Fair Lady".

A lista de musicais inspirados em filmes inclui alguns títulos bem
conhecidos: "A Little Night Music" de Stephen Sondheim, por exemplo,
baseado em "Smiles of a Summer Night" de Ingmar Berman, ou "Sweet
Charity", baseado em "Noites de Cabiria" de Federico Fellini. Alguns
argumentam que hoje em dia os filmes são simplesmente o canal mais
confiável de histórias boas e testadas.

"Antigamente, havia mais peças na cultura", disse Lion. "Os autores
passaram para o cinema e televisão, e as histórias estão vindo de
Hollywood."

Alguns cínicos salientam que os filmes escolhidos muitas vezes têm
títulos conhecidos -e portanto, milhões de fãs. Os diretores, porém,
dizem que isso por si só não é suficiente para recuperar um
investimento de vários milhões de dólares.

"O título só me sustenta por três meses -seis, se tiver sorte. E isso
não é o suficiente", disse o produtor Hal Luftig, que espera
levar "Legalmente Loura", baseado no sucesso de Reese Witherspoon de
2001, para a Broadway em 2007.

Criativamente, não há diferença entre o trabalho para converter um
filme para o palco e o ato de criar uma nova idéia, dizem os artistas. "Honestamente, não entendo porque as pessoas ficam implicando com isso", disse Marc Shaiman, que conquistou um prêmio Tony
por "Hairspray", junto com seu sócio e letrista Scott Witthman. "Uma
grande história é uma grande história."

John Waters, cujo filme inspirou Shaiman e Wittman, concorda. "Acho
que filmes classe C dão ótimos musicais, porque são mais exagerados e
engraçados", disse Waters, cujo filme "Cry-Baby" está sendo
transformado em musical para a Broadway no próximo outono. "Os
musicais são sobre pessoas maiores que a vida."

Lion, de fato, disse que achava que "Desafinado no Amor", filme cujo
clímax envolve um ciclista, uma surra e Billy Idol, pode ser um
candidato perfeito para um musical porque não é nenhum ícone. "Você
não quer que digam que é pior que o original", disse ela.

Adam Epstein, que está trabalhando em uma versão de "Ever After", outro
romance de Drew Barrymore, assim como "Cry-Baby" concordou, dizendo
que procurava histórias que as pessoas tivessem alguma familiaridade,
mas que não fossem necessariamente casadas com elas.

Ser pior que o original foi o problema de muitas adaptações para
musicais, inclusive fracassos como "Cantando na Chuva" (1985), "Big"
(1996) e "Carrie" (1988). "Muitos desses grandes filmes não se
emprestam para musicais", disse Lion. "Você não pode fazer um musical
de 'Casablanca'."

Não que o governo chinês não esteja tentando. Junto com a Warner
Bros., proprietária dos direitos do clássico de 1942, uma companhia
estatal de arte chinesa produziu um Bogart que cantava e dançava na
última primavera (com grande sucesso, se pudermos confiar na imprensa
chinesa). Maday diz que é bem possível que o musical venha para o
Ocidente no início de 2006.

Apesar de os clássicos serem sempre mencionados como possibilidades de
adaptação, o desejo de colocar sucessos recentes no palco também
parece ter aumentado. Shaiman e Wittman, equipe que escreveu as
músicas de "Hairspray", recentemente foram contratados para escrever
um musical com base em "Pegue-me se Puder", filme de Steven Spielberg
de 2002. (Eles também estão trabalhando em "Dívida de Sangue", um
Western de 1965 com Jane Fonda.)

Apesar de tudo que se fala sobre a invasão dos filmes nos musicais,
muitos dos títulos escolhidos nunca passarão da fase de idéia. O
compositor Frank Wildhorn ("Jekyll & Hyde", "Drácula, o Musical")
disse que vem tentando adaptar "Blade Runner" há quase 10 anos, mas
não conseguiu os direitos.

Quando conseguir, porém, ele diz que a idéia certamente vai funcionar. "Uma das razões por ser tão conhecido foi sua inovação", disse Wildhorn. "Há muitos humanos e andróides complicados naquele filme.
Então não faltam oportunidades para compor músicas." Deborah Weinberg

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