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12/09/2005

Milhões planejavam um 11 de setembro mundano

The New York Times
Paul Vitello

em Nova York
Entre as poucas verdades certas de 11 de setembro de 2001 está uma que se aplica a quase todo dia que amanhece. A de que não há garantia de amanhã, ou dos próximos cinco minutos. Esta é a cláusula central de todos os contratos entre as pessoas e suas vidas. Nenhum plano, grande ou pequeno, está isento.

O impacto de 11 de setembro nos grandes planos do mundo já foi bem documentado. Seu impacto nos menores foi narrado principalmente e devidamente nas histórias daqueles que morreram ou testemunharam os ataques terroristas de perto, fisicamente e emocionalmente.

Mas e quanto ao restante dos muitos milhões cujos planos relativamente pequenos de uma terça-feira comum foram mudados ou arruinados completamente por aquele dia, como ondas de luz passando perto demais de um buraco negro?

O dia que nunca foi, para dar um nome, seria um dia que não existe na história, mas no armazém da memória que as pessoas mantêm para coisas que passam por elas. Há milhões de tais pessoas, ao mesmo tempo profundamente afetadas ou apenas tocadas levemente pelos ataques terroristas, que podem conjurar instintivamente os traços daquele dia perdido.

"Você nunca pode voltar e retomar de onde você parou", disse o reverendo Daniel Paul Matthews, o pároco aposentado da Igreja da Trindade-Capela de São Paulo, na baixa Manhattan. "Um evento tão enorme não apenas adia ou desvia coisas; ele interfere em tudo para sempre. É como se a vida recomeçasse."

A narrativa de tal deslocamento é na maior parte uma narrativa de elementos intangíveis, um exemplo sendo o próprio dia de Matthews. Ele tinha sido convidado por um grupo de membros ilustres do clero e eruditos à Trindade para um debate gravado com o reverendo Rowan Williams, que na época era arcebispo de Gales e em breve seria o arcebispo de Canterbury. Todos estavam presentes quando a primeira torre ruiu, cobrindo a igreja em escombros, e todos escaparam em segurança.

"Mas ali estavam todos aqueles homens de fé, reunidos para uma discussão de espiritualidade", ele disse, com um tom de piada de humor negro em sua voz enquanto descrevia o momento, apesar da piada nunca ter sido contada, "e eles acabaram fugindo para salvar suas vidas".

Ou pegue o exemplo mais literal e municipal destas perdas intangíveis. Oficiais da Autoridade de Transporte Metropolitano (MTA) realizariam reuniões naquele dia. Entre os grandes itens da agenda estava o há muito tempo parado metrô da Segunda Avenida. Quando a MTA retomou a reunião semanas depois, não é necessário dizer, o assunto do metrô tinha desaparecido. Ele não voltaria por anos.

Aquele dia perdido seria a soma de todos os encontros cancelados, todos os encontros casuais que não ocorreram, as comemorações e telefonemas planejados que poderiam ter conduzido milhões de pessoas em milhões de direções diferentes e que nunca ocorreram, ou que se transformaram em outra coisa.

É um dia que habita no imaginário, território florestal do poema "The Road Not Taken" (A estrada não tomada) de Robert Frost, onde o protagonista diz: "Mesmo sabendo onde leva a estrada, eu duvidei se retornaria algum dia", mas sobreposto em uma paisagem urbana do século 21, de tumulto, comércio, multitarefas, política e, finalmente, terror.

Naquele dia, Mark Green, um político de Nova York, tinha acabado de votar em si mesmo na eleição primária democrata e estava se preparando para a noite de dia de eleição, uma para a qual se preparou por dois anos, lembrando aos eleitores que "nós mudaremos esta cidade em 11 de setembro". Haveria mudanças em 11 de setembro, mas não haveria noite eleitoral.

Jack Welch, o presidente aposentado da General Electric, apareceu no programa "Today" para promover o que foi anunciado como o maior evento editorial do dia. Tal distinção iria para os jornais do país, que publicaram centenas de edições extras, com cópias chegando aos milhões.

Patrick Huang, um corretor de imóveis de Queens, estava reunindo forças para a 10ª marcha anual do Comitê para Admissão de Taiwan na ONU. Ela seguiria do consulado de Taiwan até a ONU, e começaria assim que os 50 membros do grupo, que ele fundou, chegassem pela via expressa Brooklyn-Queens com seus megafones, plataformas, bandeiras de Taiwan e banda marcial contratada para a ocasião. A marcha não ocorreu; e em meio à confusão na maré humana, várias autoridades que vieram de Taiwan para a ocasião ficaram perdidas até o dia seguinte. "Havia uma clima de pânico", disse Huang.

O sol se ergueu naquele dia no tipo de céu azul brilhante que as pessoas que amam Nova York mais amam em Nova York, um dia depois de uma noite de tempestade que adiou um jogo no Yankee Stadium. Roger Clemens, que estava a um jogo de um recorde -vá pesquisar, ele não importa muito neste contexto- escalado para jogar naquela noite, agora iria tentar o recorde em um jogo na terça-feira.

Quando ele estabeleceu seu recorde uma semana depois, Clemens parecia falar por muitos como ele, cujas vidas passaram mais ou menos inalteradas após 11 de setembro, mas cuja visão de mundo e relacionamentos mudaram sutilmente.

"Agora, não tem o mesmo sabor que teria alguns dias atrás", ele disse sobre seu recorde. "Depois desta última semana, você percebe: 'Isto é o que faço, é o que fazemos. Mas não é quem eu sou."

Mary Ellen Mannino tentou de todas formas que pôde, mas não conseguiu chegar a Manhattan para estar na missa de corpo presente de seu pai, Joseph Gambino, que tinha morrido aos 70 anos no domingo, 9 de setembro, após uma luta de nove meses contra um câncer de pulmão. A missa foi marcada para segunda-feira e terça-feira na Frank E. Campbell Funeral Home, em Manhattan. Ninguém da família dele em Bensonhurst, Brooklyn, pôde participar. "Eu sabia que ele estava morto, mas você se sente como se tivesse o abandonado lá", disse Mannino. "Era como se toda a cidade estivesse em choque, e meu pai estava sozinho, e não podíamos estar com ele. Nós estávamos em uma nuvem de pesar."

O presidente da Borough of Manhattan Community College, Antonio Perez, caminhou de seu escritório na Chambers Street naquela manhã até sua escola recém-reformada, um anexo de 15 andares, o Fiterman Hall, bem ao sul do World Trade Center. Ele agendou a terça-feira para a realização da inspeção final do prédio, que foi reformado ao custo de US$ 65 milhões ao longo de vários anos. A inauguração estava prevista para outubro.

No final do dia, Fiterman Hall estava enterrada até o terceiro andar em escombros do prédio vizinho de 47 andares, o World Trade Center 7. O prédio continua interditado até hoje. "Nós esperamos começar a demolição em janeiro", disse Perez.

Naquela manhã, Felicia Fields, uma mulher de 19 anos descrita por seu advogado como levemente retardada, estava fazendo os arranjos que podia diante do fato de que seria sentenciada à prisão pelo assassinato de um motorista de táxi chamado Saro Manuel Lopez, um pai de três filhos baleado após um assalto em East New York, Brooklyn. Para o sentenciamento marcado para aquela manhã, a viúva de Lopez estava a caminho do tribunal, assim como Fields, algemada em uma van da Ilha Riker, e seu pai, que estava apelando em entrevistas para os repórteres por misericórdia do tribunal; e o chefe do sindicato dos motoristas de táxi, que estava implorando por uma justiça severa.

No mundo de cabeça para baixo de crime e castigo, a suspensão de tudo naquele dia deu a Fields e sua família duas semanas extras de generosos privilégios de visita na Ilha Riker. Então ela foi sentenciada a uma pena de 25 anos em uma prisão no interior.

O deslocamento, é claro, não foi apenas local. Oitenta casais se casariam naquele dia na Viva Las Vegas Wedding Chapel, em Las Vegas. Quase todos os casamentos foram cancelados, e até onde sabe o proprietário, Ron DeCar, "como a maioria das pessoas vem aqui para fazer algo louco", muito poucas delas retornaram.

O prefeito de Los Angeles estava a caminho de Washington para pedir ajuda com o congestionamento de tráfego aéreo. John Ashcroft, o secretário de Justiça na época, estava a caminho de Milwaukee para discursar para alunos da quinta série da Doerfler Elementary School.

Uma garota chamada Dahlia Gruen deveria comemorar seu 10º aniversário naquela noite em Newton, Massachusetts, mas, como ela disse: "Não foi tão emocionante", e pior, "eu não entendi na época, mas aquilo iria mudar meu aniversário pelo resto da minha vida".

No site conhecido como Everything2, uma garota chamada Kaytay descreveu o encontro com um rapaz, enquanto aguardava pelo início de sua primeira aula no campus do centro da Universidade de Nova York, naquele dia. Eles planejaram se encontrar para um café depois da aula. Então tudo mudou e todos se dispersaram, incluindo o rapaz.

Quase todos os que compartilham uma história do dia perdido a acompanham com pedidos de desculpas. Não é nada, eles dizem, em comparação àqueles que perderam suas vidas, ou àqueles que perderam a família. "Eu tinha um amigo que perdeu entes queridos, e sofreu mais do que qualquer um que posso imaginar, de forma que nunca falei sobre o impacto de 11 de setembro em mim, porque parecia tão trivial", disse Green, o candidato democrata à prefeitura.

Mas antes do ataque ter mudado a dinâmica política da cidade, e do país, ele tinha uma grande chance de conquistar a prefeitura.

E se Matt Yates, um operador do porto do Brooklyn, tinha apenas expectativas modestas para aquele dia -ele esperava por 10 segundos de publicidade gratuita para o moribundo setor dos estivadores quando convidou a imprensa para assistir "dois guindastes gigantes, do tamanho de arranha-céus", serem instalados em um píer no fim da Atlantic Avenue- ele também perdeu tudo naquele dia, ele disse: um senso de propósito. O senso de ser capaz de influenciar a direção de sua cidade.

Seria o mesmo sentimento de perda entre os músicos e cantores da Ópera de Nova York, que iniciariam a temporada naquela noite com uma nova produção do "Holandês Voador" de Wagner. A ópera seria seguida por um jantar dançante de gala para os doadores, em homenagem ao prefeito Rudolph W. Giuliani.

"Foi tudo tão grande, e todos na companhia ficaram se perguntando sobre qual era o papel deles no mundo em um momento como aquele", disse Susan Woelzl, uma porta-voz da Ópera. Giuliani respondeu a pergunta para eles, pedindo para que a Ópera iniciasse sua temporada o mais breve possível, o que ocorreu no sábado.

Se você checar a programação de concertos, eventos esportivos e apresentações marcadas por todo o país em 11 de setembro de 2001, quase todos foram cancelados diante do choque nacional. Uma das poucas exceções foi um show de uma musicista da cantora, instrumentista e artista performática quintessencialmente nova-iorquina, Laurie Anderson, que subiu ao palco em Chicago como planejado.

"O promotor telefonou e disse: 'O que faremos?' As pessoas estavam telefonando para confirmar o cancelamento, mas eu achei que ter um evento público naquela noite seria uma boa idéia", disse Anderson, que mora em Greenwich Village.

Ela habitualmente deixa as luzes acesas durante seus shows, e lembra dos rostos do público naquela noite como parecendo "atônitos". Ela dedicou a apresentação àqueles que morreram, e encerrou o show com uma canção que escreveu em 1994, "Love Among the Sailors" (amor entre os marinheiros), que inclui a frase "There is no pure land now, no safe place" (não há terra pura agora, não há lugar seguro).

Não houve nenhuma declaração intencional em nada do que ela fez naquela noite, exceto "tocar música e estar com as pessoas", ela disse. Não foi um momento coerente em sua vida como artista, ela disse. "Eu só queria estar lá." O momento que nunca ocorreu para os nova-iorquinos em 2001 George El Khouri Andolfato

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