UOL Notícias Internacional
 

13/09/2005

Gaza celebra enquanto catadores limpam colônia

The New York Times
Steven Erlanger*

Em Neve Dekalim, Faixa de Gaza
A segunda-feira (12/09) foi de carnaval pelos assentamentos abandonados israelenses de Gaza. Houve comemorações, declarações políticas e aproveitamento de entulho pela população palestina. O exército israelense retirou seu último soldado de Gaza às 6h50. No entanto, horas antes de o comandante Aviv Kochavi tornar-se o último soldado israelense no território, milhares de palestinos já tinham entrado nos assentamentos proibidos que, juntos com infra-estrutura militar, consumiam cerca de 30% da Faixa de Gaza densamente habitada.

Ruth Fremson/The New York Times 
Jovem palestino tenta retirar peça de metal de um prédio construído por Israel em Gaza

As celebrações foram orquestradas em parte pelas facções rivais dentro da sociedade palestina --Jihad Islâmica, Hamas e Fatah, mola central da Autoridade Palestina. Suas bandeiras, verdes e amarelas eram mais numerosas que as bandeiras palestinas e mais proeminentes nos postos militares e prédios públicos israelenses abandonados.

O Hamas, que está fazendo campanha para as eleições legislativas de janeiro, marchou por vários assentamentos, com homens armados e mascarados em caminhões com alto-falantes. Cartazes e pichações do Hamas proclamavam a vitória da resistência. A Jihad Islâmica, que não está concorrendo, fez o mesmo, assim como membros armados da Brigada de Mártires Al Aqsa, contingente da Fatah.

Alguns palestinos vieram ver a terra em que trabalhavam antes da guerra de 1967, quando Israel tomou Gaza do Egito; outros homenageavam amigos que morreram em ataques aos colonos israelenses; outros vieram catar o que pudessem vender das grandes pilhas de destroços deixados pelos israelenses.

Charretes puxadas a burro levavam louças de banheiro, pedaços de metal, rolos de fios e longos pedaços de madeira para alimentar fogões à lenha. Homens, mulheres e crianças trabalhavam com uma seriedade de propósito, tentando levar para casa algum pequeno benefício das terras que muitos acham que de alguma forma, como sempre, acabará nas mãos dos ricos ou influentes.

Samir Abu Hattah batia em uma janela com um ferro e gritava: "Vão para o inferno, sionistas!" Depois, ele levou um grupo de jovens para tirar a rede elétrica, janelas de alumínio e portas de um armazém agrícola em Neve Dekalim.

"Tenho uma grande sensação de vitória hoje", disse Hattah, 40, que mora do outro lado do grande muro de concreto, no campo de refugiados de Khan Yunis, e que costumava trabalhar neste assentamento antes do início do segundo levante palestino, em 2000.

"Os sionistas construíram-no e depois o destruíram", disse com satisfação. "A lição que aprendi, e passarei aos meus filhos, é que não importa em quanto tempo, os ocupantes vão sair por causa de resistência."

Atrás dele, uma sinagoga construída no formato de uma imensa Estrela de Davi estava em chamas. Incêndios em seu interior enviavam fumaça pelas pontas da estrela. Em cima da construção, logo antes do sol nascer, havia uma enorme bandeira verde do Hamas, com uma bandeira palestina menor em baixo.

Poucos minutos depois, uma grande bandeira preta da Jihad Islâmica apareceu abaixo da do Hamas, acima da palestina.

Cinco minutos depois, a bandeira palestina tinha sumido de todo.

Em um acordo com os palestinos, Israel derrubou todas as construções dos assentamentos, mas no último minuto preferiu não destruir as sinagogas, porque alguns conservadores argumentaram que seria errado judeus destruírem sinagogas. Como resultado, as sinagogas dos assentamentos ficaram de pé, vulneráveis ao vandalismo quando os soldados se foram.

Com a luz do dia, mais palestinos apareceram nos antigos assentamentos, que ainda são cercados por fortificações gigantescas e cercas eletrônicas. Alguns estavam passeando, outros foram catar coisas ou nadar nas praias das quais tinham sido expulsos.

Centenas de crianças de uniforme escolar se uniram a eles, tirando o dia de folga. Três pessoas se afogaram.

Ahmad el-Kurd, o novo prefeito de Deir Al Balah, colado ao Kfar Darom, disse que sua alegria não era completa pois se lembrava de como amava, quando menino, das dunas intocadas, hoje cercadas por Kfar Darom.

"Se eles apenas pudessem me devolver as terras como eram há 38 anos", disse o prefeito do Hamas. "Agora, são apenas pilhas de entulho."

Violência

Em Kfar Darom, houve uma grande passeata de combatentes armados, mas a sinagoga permaneceu protegida por forças de segurança que dela fizeram seu quartel. Policiais palestinos disseram que esperavam derrubar as sinagogas restantes eles mesmos, e um trator iniciou a tarefa em Netzarim.

Ek-Kurd disse que estava feliz na segunda-feira, mas acrescentou que sua alegria também era temperada "pela ocupação de Jenin, Nablus e Jerusalém, que também fazem parte da Palestina".

Até que Israel resolva a questão de como permitir que os palestinos entrem e saiam livremente de Gaza, Egito e Cisjordânia, "Israel continua sendo um ocupador", disse ele, em uma opinião compartilhada pela Autoridade Palestina.

"Se não há liberdade de movimento, não considere os palestinos livres", disse El-Kurd. "Não vamos aceitar Gaza como uma grande prisão."

O governo israelense do primeiro-ministro Ariel Sharon diz que a vida em Gaza agora cabe aos palestinos e que considerações de segurança estão impedindo a resolução da questão do controle israelense sobre a fronteira com o Egito.

Os israelenses propuseram um procedimento provisório complicado, de seis meses, que os palestinos rejeitaram. De sua parte, os israelenses rejeitaram uma proposta do mediador ocidental, James D. Wolfensohn, de permitir que os palestinos passem por Rafah para o Egito com a supervisão de autoridades européias em nome de Israel.

Milhares de palestinos atravessaram por buracos no muro da fronteira na segunda-feira, cruzando de Gaza para o Egito em Rafah, em uma cena de caos e júbilo, com reuniões de famílias em choro e um homem morto.

Testemunhas disseram que um soldado egípcio atirou e matou um palestino que entrou em Rafah, mas o governo egípcio negou, insistindo que a vítima tinha morrido de uma bala perdida das celebrações pela retirada dos guardas israelenses da fronteira.

"Eu nego categoricamente essa informação, que é completamente sem base. É inconcebível que soldados egípcios abririam fogo contra palestinos depois de deixarem 3.000 cruzarem a fronteira para reunirem-se às suas famílias", disse Suleiman Awad, porta-voz do presidente Hosni Mubarak.

O líder da ala militar do Hamas no campo de Khan Yunis, Abu Moath, veio com sua comitiva armada a Neve Dekalim. Havia muito tempo que não visitava o lugar e reconheceu pouco entre as pilhas de destroços. Em cima delas, jovens catavam restos de metal, cadeiras de plástico e uma velha máquina de lavar.

Perguntado sobre a decisão de último minuto de Israel de não destruir as últimas 24 sinagogas em Gaza e pedir aos palestinos que as protegessem, ele riu. "Elas devem ser destruídas como símbolos de Israel e da ocupação", disse ele. "Eles prometeram destruí-los. Estamos apenas cumprindo a determinação de sua própria justiça". Enquanto ele falava, dois homens de sua comitiva mostravam aos colegas as baterias de carro que tinham encontrado.

Na parede de uma sinagoga lia-se: "Expulse-os como eles o expulsaram!" Ali perto, havia outra pichação: "Sim para a liberdade! Não para os judeus! - Hamas."

Fatma Abu Reziq, cuja grande e pobre família moradora de Khan Yunis foi descrita pelo The Times em junho, foi uma das primeiras palestinas a entrar em Neve Dekalim, chegando às 3h da manhã, antes mesmo do último tanque israelense rolar embora. "As pessoas estavam com medo no começo, depois viram pessoas como eu entrarem e tomaram coragem", disse ela.

Ela também levou alguns itens deste assentamento para alegrar sua casa, disse enrubescendo. Ela mora a centenas de metros do muro de cimento que ainda separa Khan Yunis de Neve Dekalim.

"Agora que os israelenses se foram, nossas vidas serão melhores e mais calmas", disse ela. "Não consigo descrever minha alegria em ver a bandeira palestina içada aqui."

*Colaborou Michael Slackman, do Cairo (Egito). Grupos radicais palestinos comemoram saída de militares de Israel Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,56
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h21

    1,28
    73.437,28
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host