UOL Notícias Internacional
 

13/09/2005

Uma terrível descoberta em um hospital levanta novas questões sobre o furacão Katrina

The New York Times
Kirk Johnson*

Em Nova Orleans
Os corpos de 45 pessoas foram encontrados em um hospital inundado no centro daqui, disseram as autoridades na segunda-feira (12/09), aumentando acentuadamente o número de mortos do furacão Katrina e provocando mais dúvidas sobre o colapso do sistema de evacuação à medida que o desastre se desdobrava. Diretores do hospital disseram que pelo menos algumas das vítimas morreram enquanto aguardavam para ser evacuadas nos quatro dias após a passagem do furacão, sem eletricidade e com as temperaturas passando de 38 graus.

Nicole Bengiveno/The New York Times 
Traileres do governo em Baton Rouge, enquanto milhares de vítimas seguem desabrigadas

Steven L. Campanini, um porta-voz da proprietária do hospital, a Tenet Healthcare, disse que entre os mortos estavam não apenas pacientes que morreram enquanto aguardavam a evacuação, mas também pessoas que morreram antes da passagem do furacão. Os mortos também podem incluir refugiados de outros hospitais e da vizinhança ao redor, que se reuniram no Memorial em busca de abrigo ou segurança para aguardar a evacuação da cidade.

As repercussões do Katrina também prosseguiam em Washington, onde o diretor da Agência Federal de Administração de Emergência, Michael D. Brown --um símbolo vivo para muitas pessoas daqui do fracasso do governo na crise-- pediu demissão. Brown tinha sido afastado do papel de comando das operações de ajuda na cidade três dias atrás.

Enquanto isso, o presidente Bush percorria as ruas fantasmas da cidade de pé na traseira de um caminhão, acompanhado pelo prefeito de Nova Orleans e da governadora da Louisiana, que foram altamente críticos da atuação do governo federal.

Em Baton Rouge, cerca de 1.000 pessoas da devastada Paróquia de Saint Bernard, nos arredores de Nova Orleans, se reuniram no Capitólio estadual, onde foram informadas que as lembranças de sua comunidade poderão ser tudo o que lhes restou. Os vôos seriam retomados no Aeroporto Louis Armstrong, e as autoridades da cidade disseram que estavam criando um novo centro de comando no centro, em um hotel fechado.

A aparição conjunta de Bush com o prefeito de Nova Orleans, C. Ray Nagin, e com a governadora da Louisiana, Kathleen Babineaux Blanco, ambos democratas, sugeriu que pelo menos parte do ressentimento pela resposta ao desastre passou. Na última visita de Bush à área atingida, em 5 de setembro, a governadora só soube da visita do presidente por meio dos noticiários.

O presidente, em uma breve sessão de perguntas e respostas com os repórteres após a visita, disse que a coordenação do governo da reconstrução da cidade e da região será prioritária e que a visão local determinará a direção da reconstrução.

"É muito importante que as pessoas de Nova Orleans saibam que, no que me diz respeito, esta grande cidade conta com amplo talento e ampla genialidade para estabelecer a estratégia e estabelecer a visão", disse Bush após sua visita de 40 minutos com a governadora e o prefeito. "Nosso papel no governo federal, vocês sabem, obviamente de acordo com a lei, é ajudá-los a realizar tal visão. E é isto o que quero garantir ao prefeito."

Mas a descoberta dos corpos na noite de domingo no Memorial Medical Center, um hospital com 317 leitos no centro da cidade, ofuscou a conversa otimista sobre o futuro.

Soldados da Guarda Nacional protegiam a entrada do hospital e não permitiam a entrada de ninguém. Todas as janelas da ala de emergência do hospital estavam quebradas, espalhadas perto das macas e cadeiras no interior. Pedaços de compensado de madeira cobriam as janelas quebradas até o último andar do hospital, de oito andares. Os carros no estacionamento estavam cobertos de sujeira das águas da inundação. Mas a área ao redor do hospital estava seca.

Nagin e Blanco disseram que a demora do governo federal para fornecer ajuda à cidade e região se somou aos estragos provocados pela tempestade, aumentando a anarquia em Nova Orleans nos dias que se seguiram à tempestade, quando dezenas de milhares de pessoas ficaram presas em locais como o Centro de Convenções e o estádio Superdome sem água ou comida.

Nagin disse em entrevistas de rádio, na segunda-feira, quando questionado sobre seu encontro com o presidente: "Ele me disse que apreciou o fato de ter sido franco e direto".

A notícia de que 45 corpos tinham sido encontrados no hospital também foi um lembrete de quanto mais, tanto na estrutura física da cidade quanto no número de mortos do furacão, ainda continua desconhecido.

Campanini, o porta-voz do hospital, disse que a Tenet Healthcare ainda não sabe quantos dos 45 mortos eram pacientes e quantos se reuniram lá em busca de abrigo ou segurança. O hospital tinha começado a estocar alimento e suprimentos, assim como transferir pacientes para outros hospitais, antes da chegada do furacão, ele disse. Mas ele ainda tinha 115 pacientes na terça-feira, quando as barragens romperam e a água começou a inundar a cidade.

Com helicópteros privados e a ajuda da Guarda Costeira e do Corpo de Bombeiros de Nova Orleans, o hospital evacuou 2 mil pessoas, incluindo pacientes na maioria, disse ele. Campanini chegou perto de culpar as autoridades, mas disse que a necessidade de evacuação era conhecida. "Havia relatos por toda a área de Nova Orleans e Biloxi de que havia pacientes idosos ou frágeis que não estavam sobrevivendo", disse ele.

Robert Johannessen, um porta-voz do Departamento de Saúde e Hospitais da Louisiana, confirmou na segunda-feira que foram encontrados 45 corpos dentro do Memorial Hospital, mas disse que não podia confirmar o relato de Campanini de como morreram. Ele disse que as circunstâncias das mortes ainda estavam sob investigação.

A descoberta dos corpos elevou rapidamente o número de mortes provocadas pelo furacão no Estado para 279; destas, 242 ocorreram na área metropolitana de Nova Orleans. Nos seis condados costeiros mais duramente atingidos no Mississippi, o número de mortes subiu em mais um na segunda-feira, para 162.

Em Baton Rouge, havia mais lembretes dos milhares que poderão não ter uma comunidade para onde voltar.

Mais de 1.000 moradores deslocados da Paróquia de Saint Bernard, ao leste de Nova Orleans, lotaram o Capitólio estadual para saber sobre o estado de seus lares devastados pelo furacão. Ninguém foi autorizado a voltar à paróquia para recuperar pertences ou examinar suas casas. A notícia da reunião foi passada de boca a boca e por sites na Internet, e as pessoas fizeram uma fila com quarteirões de comprimento do lado do prédio em estilo art déco, onde o governador Huey P. Long foi assassinado em 1935. Alguns vieram de tão longe quanto Houston.

As autoridades locais não tentaram esconder as más notícias.

"Vocês não reconhecerão a Paróquia de Saint Bernard", disse o presidente da paróquia, Henry J. Rodriguez Jr., para centenas de moradores reunidos no salão de entrada de mármore do Capitólio. "Tudo o que lhes restou da Paróquia de Saint Bernard são suas lembranças."

Bush também viu pessoalmente a devastação em sua visita a Nova Orleans.

A visita do presidente passou por carros amassados, árvores caídas, escombros espalhados e áreas ainda inundadas com cerca 15 centímetros de água na rua.

Durante grande parte do percurso, Blanco, Bush e Nagin ficaram em pé na traseira de um caminhão militar aberto e ocasionalmente precisavam se abaixar devido a cabos de força baixos e galhos de árvores. Em uma ocasião, o vice-almirante da Guarda Costeira, Thad Allen, que substituiu Brown na semana passada como chefe da ajuda humanitário ao furacão, removeu sua boina da Guarda Costeira para proteger Bush de um cabo.

As autoridades municipais de Nova Orleans disseram que transferiram grande parte do centro de comando improvisado de operações de emergência da Prefeitura para o castigado hotel Hyatt, do outro lado da rua, onde a energia elétrica tinha sido restaurada e o prefeito C. Ray Nagin mantém uma suíte.

No Salão E do terceiro andar do prédio, 100 estações de computador estavam sendo montadas em mesas circulares para atender 24 horas a vários grupos, da polícia de Nova Orleans e 82ª Divisão Aerotransportada do Exército até a Guarda Costeira, Guarda Nacional e autoridades de saúde pública.

"Nós temos toda uma nova estrutura de comando sendo instalada no Hyatt", disse o coronel Terry J. Ebbert, chefe de segurança interna de Nova Orleans. "As autoridades locais, estaduais e federais trabalharão juntas."

Edward Minyard, um funcionário da Unisys, a empresa contratada para estabelecer o centro, disse que a operação provavelmente aumentará para 500 estações, o que significa que até 1.500 pessoas trabalharão em turnos por 24 horas. Ele disse que o centro lidará com questões desde a procura de pessoas desaparecidas e identificação de canos de água partidos até o restabelecimento do fornecimento de eletricidade, "todas as coisas relacionadas à solução do incidente".

Em Harrison County, Mississippi, na castigada área de Gulfport/Biloxi, uma lista de cerca de 600 pessoas desaparecidas foi distribuída pela Justiça, apesar de as autoridades terem enfatizado que as pessoas na lista não estão necessariamente perdidas: são nomes procurados por familiares.

"Nós resgatamos todos que possivelmente podíamos resgatar", disse Joe Spraggins, chefe da administração de emergência de Harrison County, Mississippi.

O Aeroporto Internacional Gulfport-Biloxi, que retomou as atividades de vôos comerciais no final da semana passada, espera voltar ao normal em duas semanas, disse Spraggins. As companhias Delta, Northwest e Airtrain começarão a operar em capacidade limitada amanhã, ele disse. A Northwest Airlines disse que retomará o serviço aéreo comercial no Aeroporto Internacional Louis Armstrong de Nova Orleans na quarta-feira, com seu primeiro vôo ao aeroporto em dez dias previsto para pousar em Nova Orleans às 10h44 da manhã, vindo de Memphis.

O trabalho começou na segunda-feira na ponte Twin Span da Interestadual 20, danificada pelo furacão, que lida Nova Orleans e Slidell, Louisiana. "Restaurar este elo crucial com o leste acelerará a recuperação da cidade de Nova Orleans e de toda a região do Golfo", disse o secretário de Transporte federal, Norman Y. Mineta, em uma declaração.

Em 45 dias, o corredor para o leste estará reparado, fornecendo pelo menos uma via de tráfego em cada direção. A segunda fase da obra, que será concluída em janeiro, envolverá reparos no corredor oeste, segundo o Departamento de Transporte e Desenvolvimento da Louisiana. Eventualmente será construída uma ponte substituta com seis faixas.

Em Washington, os dois principais autores de leis tributárias do Senado propuseram uma série de mudanças visando reduzir a carga tributária sobre os indivíduos e empresas atingidos pela tempestade, assim como para encorajar maiores contribuições de caridade, de alimentos e livros até presentes de corporações.

O pacote de incentivos fiscais, com custo estimado em US$ 5 bilhões a US$ 7 bilhões ao longo de cinco anos, foi descrito como um plano de curto prazo que os autores gostariam de ver aprovado nesta semana, com mais mudanças significativas pela frente.

Entre as propostas estava o fim da penalização de 10% no saque antecipado dos fundos de aposentadoria para as pessoas da região e outra que permitiria uma maior isenção pessoal para aqueles que receberem refugiados.

*William Yardley e Michael Luo contribuíram com reportagem em Nova Orleans; Sewell Chan em Baton Rouge, Louisiana, e Campbell Robertson em Gulfport, Mississippi. Bush, governadora e prefeito vistam Nova Orleans em um caminhão George El Khouri Andolfato

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