UOL Notícias Internacional
 

15/09/2005

Ex-auxiliar de Bush culpa autoridades locais pela demora na ajuda às vítimas do Katrina

The New York Times
David Kirkpatrick e Scott Shane

Em Washington
Horas após a passagem do furacão Katrina por Nova Orleans, em 29 de agosto, à medida que a escala da catástrofe se tornava clara, lembrou Michael D. Brown, ele fez ligações frenéticas para seu chefe, Michael Chertoff, o secretário de Segurança Interna, e para o escritório do chefe de gabinete da Casa Branca, Andrew H. Card Jr.

Brown, o então diretor da Agência Federal de Administração de Emergência (FEMA), disse ter dito às autoridades em Washington que a governadora da Louisiana, a democrata Kathleen Babineaux Blanco, e seu gabinete estavam provando ser incapazes de organizar um esforço estadual coerente, e que seus agentes de campo na cidade estavam relatando uma situação "fora de controle".

"Eu estou tendo uma situação horrível", Brown disse ter dito a Chertoff e um funcionário da Casa Branca, ou Card ou seu vice, Joe Hagin --em um relatório naquela noite. "Eu não consigo que um comando unificado seja estabelecido."

Naquele momento, ele acrescentou, "eu já começava a perceber que a situação estava indo para o inferno" na Louisiana. Um dia depois, Brown disse que pediu à Casa Branca que assumisse o esforço de resposta. Ele disse que sentiu que a nomeação subseqüente do general de exército Russel L. Honore como comandante das forças do serviço ativo do Pentágono atendia a necessidade de maior ajuda federal.

Em sua primeira longa entrevista desde sua renúncia como diretor da FEMA, na segunda-feira, sob intensas críticas, Brown se recusou a culpar o presidente Bush ou a Casa Branca pelo seu afastamento ou pela falha na resposta. "Eu realmente acredito que a Casa Branca não foi a culpada aqui", disse ele.

Ele concentrou grande parte de suas críticas a Blanco, comparando o que descreveu como sua resposta confusa com as mobilizações mais ágeis no Mississippi e no Alabama, assim como na Flórida durante os furacões do ano passado [os três Estados têm governadores do Partido Republicano, o mesmo de Bush].

Mas seu relato, ao descrever a realização de "várias ligações" ao longo de toda a semana para Chertoff, Card e Hagin, o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, sugere que o presidente Bush, ou pelo menos seus principais assessores, foram informados desde cedo e repetidas vezes pelo principal representante federal no local que as autoridades locais e estaduais estavam sobrecarregadas e que a resposta geral ia de mal a pior.

Um alto funcionário do governo disse na noite de quarta-feira que os membros da Casa Branca lembram das conversas com Brown, mas não acreditam que elas apresentavam a urgência e o desespero descrito na entrevista.

"Há uma lembrança geral dele ter dito: 'Eles vão precisar de mais ajuda'", disse o funcionário, que pediu para que seu nome não fosse citado pela sensibilidade das discussões internas da Casa Branca.

A versão de Brown dos eventos gera dúvidas sobre se a Casa Branca e Chertoff agiram de forma agressiva o suficiente na mobilização da resposta. Nova Orleans estava em convulsão, com saques e violência após o furacão, e as tropas levaram cinco dias para chegar em peso para restaurar a ordem.

O relato também sugere que a responsabilidade pelo fracasso pode ir além de Brown, que foi amplamente ridicularizado como um administrador inexperiente que trabalhou anteriormente supervisionando juízes de exposições de cavalos.

Brown foi afastado por Chertoff na semana passada da direção do esforço de ajuda. Um advogado de 50 anos e ativista republicano que entrou para a FEMA como advogado geral em 2001, Brown disse que foi atrapalhado pelas limitações do poder da agência em comandar os recursos necessários. Com apenas 2.600 funcionários em todo o país, ele disse, a FEMA depende de funcionários estaduais, da Guarda Nacional, empreiteiros privados e outras agências federais para fornecer pessoal e equipamento.

Ele disse que seu maior erro foi ter esperado até o fim do dia na terça-feira, 30 de agosto, para pedir explicitamente à Casa Branca que assumisse a resposta da FEMA e das autoridades estaduais.

Sobre a renúncia, Brown disse: "Eu disse que estava saindo porque não queria ser uma distração. Eu quero que o foco se concentre no que aconteceu aqui e nas questões que isto gera".

Um porta-voz de Blanco negou a descrição de Brown de confusão na operação de resposta de emergência da Louisiana. "Isto é totalmente impreciso", disse Bob Mann, o diretor de comunicação dela em Baton Rouge. "Tudo o que o sr. Brown precisava em termos de recursos ou informação por parte do Estado, ele obteve."

Em Washington, o porta-voz de Chertoff, Russ Knocke, disse que não ocorreu atraso na resposta federal. "Nós empregamos absolutamente tudo o que podíamos -todo funcionário, todo ativo, todo esforço para salvar e manter vidas", disse ele. Segundo Brown recontou, no fim de semana que antecedeu o rompimento das barragens de Nova Orleans, a FEMA enviou uma equipe de resposta de emergência de 10 ou 20 pessoas até a Louisiana para revisar os planos de evacuação com as autoridades locais.

Na tarde de sábado, muitos moradores estavam partindo. Mas enquanto o furacão se aproximava na manhã de domingo, Brown disse ter ficado tão frustrado com o fracasso das autoridades locais em tornar a evacuação obrigatória que telefonou para o presidente Bush em busca de ajuda.

"O senhor poderia por favor telefonar ao prefeito e lhe dizer para pedir a evacuação das pessoas?" Brown disse ter perguntado a Bush.

"Mike, você quer que eu ligue para o prefeito?" o presidente teria respondido surpreso, segundo Brown. Momentos depois, aparentemente por iniciativa própria, o prefeito, C. Ray Nagin, realizou uma coletiva de imprensa para anunciar a evacuação obrigatória, mas já era tarde demais, disse Brown. Os planos diziam que seriam necessárias pelo menos 72 horas para a evacuação de todos.

Quando ele chegou em Baton Rouge na noite de domingo, ele disse, ele ficou imediatamente preocupado com a falta de resposta coordenada por parte de Blanco e do general Bennett C. Landreneau, o general adjunto da Guarda Nacional da Louisiana.

"O que vocês precisam? Me ajudem a ajudar vocês", Brown disse ter perguntado a eles. "A resposta foi tipo, 'nos deixe descobrir', e então eu nunca recebi pedidos específicos pelas coisas específicas que precisavam ser feitas."

A pessoa mais receptiva que ele conseguiu encontrar, disse Brown, foi o marido de Blanco, Raymond, cujo apelido era "treinador". "Ele tentava descobrir coisas para mim", disse Brown.

O diretor de comunicações de Blanco, Mann, disse que ela ficou frustrada com o fato de Brown e outros na FEMA quererem pedidos específicos antes de agir. "Era como entrar em um pronto-socorro, sangrando profusamente, e os médicos ficarem esperando que você os instrua sobre como tratá-lo", disse Mann.

Na noite de segunda-feira, disse Brown, ele relatou suas crescentes preocupações para Chertoff e a Casa Branca. Ele disse que não pediu o envio de tropas federais do serviço ativo porque presumiu que seus superiores em Washington estavam fazendo todo o possível. Em vez disso, ele repetiu uma dúzia de vezes, "eu não consigo que um comando unificado seja estabelecido", disse ele.

Na manhã seguinte, disse Brown, ele e Blanco decidiram tomar um helicóptero para Nova Orleans e ver o prefeito e avaliar a situação. Mas antes da decolagem do helicóptero, seu diretor de coordenação de campo telefonou da cidade com um telefone por satélite. "Está saindo de controle aqui. A barragem rompeu", ele disse que o diretor lhe disse.

"Eu sei disso", respondeu Brown.

"Mas está começando a inundar o centro", disse o coordenador de campo. "Nós conseguimos comida suficiente para 24 horas, mas a água está realmente começando a subir."

Quando eles embarcaram no helicóptero, disse Brown, ele ficou surpreso os dois senadores pela Louisiana e várias outras pessoas prontas para participar do vôo. O número de pessoas no estádio Superdome, o abrigo de último recurso da cidade, já estava mais lotado do que o esperado. Mas ele ficou aliviado ao ver que o prefeito tinha uma lista detalhada de prioridades, a começar pela ajuda na evacuação do Superdome.

Ele passou a lista para o centro de operações de emergência do Estado em Baton Rouge, mas quando ele voltou naquela noite, ele ficou surpreso ao descobrir que nada tinha sido feito.

"Eu estou gritando com meu diretor de campo, onde estão os helicópteros?" ele lembrou. "Onde está a Guarda Nacional? Onde está tudo aquilo que o prefeito queria?"

A FEMA, ele disse, não tinha helicópteros e apenas uns poucos caminhões de comunicações. A agência normalmente depende de recursos estaduais, um sistema que ele disse que funcionou bem nos outros Estados do Golfo e na Flórida no ano passado.

"Enquanto isso, sem que eu tivesse conhecimento", disse Brown, a certa altura na segunda-feira ou terça-feira, os hotéis começaram a enviar seus hóspedes remanescentes para o centro de convenções --algo que nem a FEMA e nem as autoridades locais tinham planejado. "Teria sido bom se tivéssemos sido informados sobre isto antecipadamente", disse ele. "Quando as portas se abriram, todas as pessoas começaram a sair do isolamento em Nova Orleans."

Ao mesmo tempo, o Superdome estava se degenerando em "tiroteios e anarquia", e na terça-feira o pessoal da FEMA e a equipe médica em Nova Orleans telefonaram para dizer que estavam partindo para garantir sua própria segurança. "Eles estavam em lágrimas", ele disse. "Eles estavam de coração partido. Era desolador."

Naquela noite, Brown disse, ele telefonou para Chertoff e para a Casa Branca novamente em desespero. "Pessoal, isto é maior do que somos capazes de lidar", ele lhes disse, segundo ele. "Isto está acima do que a FEMA pode fazer. Eu estou pedindo ajuda."

"Talvez eu devesse ter gritado 12 horas antes", disse Brown na entrevista. "Mas isto olhando para trás. Nós ainda estávamos tentando fazer as coisas funcionarem."

Na manhã de quarta-feira, disse Brown, ele soube que Honore estava a caminho. Apesar de Honore não ser responsável por todo o esforço de ajuda e pela Guarda Nacional, seu estilo de comando ajudou a mobilizar os esforços estaduais.

"Honore chega e eu e ele temos uma conversa por telefone", disse Brown. "Ele entende a mensagem e, pronto, as coisas começam a andar. Com Honore, eu consegui exatamente o que precisava."

Brown disse que na gafe muito divulgada --sua declaração repetida, ao vivo pela televisão na noite de quinta-feira, 1º de setembro, de que tinha acabado de saber que milhares de pessoas no centro de convenções de Nova Orleans estavam sem água e comida-- "eu simplesmente falei de forma errada".

Na verdade, ele disse, ele soube da presença de refugiados lá pelos primeiros relatos da mídia mais de 24 horas antes, ele disse, mas eles entraram em conflito com informações das autoridades locais, e ele só foi contar com pessoal no local na quinta-feira.

Brown reconheceu que tem sido criticado por não ter ordenado a evacuação total ou por não ter pedido a presença de tropas federais mais cedo. Mas ele disse: "Até você estar lá, você não percebe que está no meio de um furacão".

Funcionários da FEMA disseram que um fator complicador foi a tentativa de membros do Congresso de direcionar a ajuda a seus distritos. Alguns pediram para a FEMA posicionar pessoal em seus escritórios locais, pedidos que a agência carente de pessoal rejeitava. Brown e o senador Trent Lott, republicano do Mississippi, entraram em choque sobre o destino do navio hospital USNS Comfort da Marinha. Brown queria enviar o Comfort para a Louisiana, para atender às necessidade médicas; Lott exigia a presença do navio em seu Estado, e ele prevaleceu.

Lott reconheceu o conflito com Brown. "Houve um esforço para levá-lo diretamente para a Louisiana, e eu resisti agressivamente", disse Lott. "A Louisiana não ficará com tudo", disse ele. "Nós também tínhamos necessidades. O Comfort foi destinado a Pascagoula, Mississippi, e é lá onde ele está." Michael Brown diz que o governo da Louisiana foi desorganizado George El Khouri Andolfato

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