UOL Notícias Internacional
 

15/09/2005

Vaticano vasculha gays em seminários dos EUA

The New York Times
Laurie Goodstein

Em Nova York
Investigadores designados pelo Vaticano foram instruídos a vasculhar cada um dos 229 seminários católicos nos Estados Unidos, em busca de "evidências de homossexualidade" e de professores que discordem dos ensinamentos da Igreja, segundo um documento preparado para orientar o processo.

O documento do Vaticano, entregue ao The New York Times nesta quarta-feira (14/09) por um padre que pediu para não ser identificado por temer represálias, surge no momento em que os católicos aguardam uma manifestação do Vaticano que determinará se homossexuais devem ou não ser impedidos de exercer o sacerdócio.

Em uma possível indicação do conteúdo da determinação, o arcebispo norte-americano que está supervisionando a inspeção dos seminários disse na semana passada: "Qualquer um que estiver engajado em atividades homossexuais, ou que possuir fortes inclinações homossexuais, não deve ser admitido em um seminário".

Edwin O'Brien, arcebispo das forças armadas dos Estados Unidos, disse ao jornal "The National Catholic Register", que a restrição deveria ser aplicada até mesmo àqueles que não são sexualmente ativos há mais de uma década.

Os seminários norte-americanos estão sendo inspecionados pelo Vaticano como resultado de um escândalo de abusos sexuais que maculou a imagem do sacerdócio católico em 2002. Autoridades eclesiais nos Estados Unidos e em Roma concordam que querem examinar mais de perto como os candidatos a seminaristas são avaliados para admissão. Essas autoridades também querem saber se esses indivíduos estão sendo preparados para a castidade e o celibato.

Seminaristas e padres gays têm sido alvo de um escrutínio rigoroso porque um estudo encomendado pela Igreja revelou no ano passado que cerca de 80% dos jovens que foram vítimas de abusos sexuais por parte de padres eram garotos.

Especialistas em sexualidade humana advertem que a homossexualidade e a atração por crianças são dois fenômenos diferentes, e que uma percentagem desproporcional de garotos pode ter sido vítima de abusos porque os padres contam com mais possibilidade de acesso aos alvos masculinos --como coroinhas ou jovens seminaristas-- do que às garotas.

Mas algumas autoridades da Igreja nos Estados Unidos e em Roma, incluindo alguns bispos e vários sacerdotes conservadores, atribuem o abuso a padres gays, e pedem uma reformulação dos seminários. A antecipação quanto a uma medida dessa natureza aumentou neste ano com a eleição do papa Bento 16, que falou da necessidade de "purificar" a Igreja.

Não se sabe quantos padres católicos são gays. As estimativas variam de 10% a 60%. O catecismo da Igreja Católica afirma que pessoas com tendências homossexuais "profundas" devem viver em estado de castidade porque "os atos homossexuais são intrinsecamente doentes".

O reverendo Donald B. Cozzens, um ex-reitor de seminário que gerou uma polêmica cinco anos atrás ao lançar um livro afirmando que "o sacerdócio é, ou está se tornando, uma profissão gay", disse em uma entrevista na quarta-feira que várias igrejas acabaram aceitando a sua observação.

Mas ele disse estar preocupado com a possibilidade de a investigação dos seminários levar a Igreja a ordenar a expulsão de professores e seminaristas.

"Segundo a minha ótica, isso seria um grande erro", disse Cozzens, que leciona no departamento de estudos religiosos da Universidade John Carroll, em Cleveland. "Primeiramente, acho isso injusto para com professores e seminaristas gays que estejam levando vidas castas. E, em segundo lugar, não sei como se poderia colocar de fato tal determinação em vigor".

O reverendo Thomas J. Reese, um sociólogo que se demitiu em maio do cargo de editor da revista jesuíta "America", sob pressão do Vaticano, disse que, com a carência de padres, a Igreja não pode se dar ao luxo de expulsar os seminaristas gays.

"Pode haver alguém que tenha freqüentado o seminário por cinco ou seis anos e que esteja planejando ser ordenado, ainda que o reitor saiba que tal indivíduo seja homossexual", disse Reese, que atualmente leciona na Universidade Santa Clara, na Califórnia. "O que a Igreja vai fazer? Expulsar essa pessoa? Seria muito mais saudável se um seminarista pudesse falar sobre a sua sexualidade com um diretor espiritual, mas o tipo de política que está sendo implementada só empurrará o homossexualismo eclesiástico para a clandestinidade".

O'Brien, que está supervisionando a inspeção dos seminários, não respondeu aos pedidos de entrevistas feitas ao seu escritório em Washington. Em uma entrevista concedida à agência de notícias "The Associated Press", ele disse que o documento do Vaticano está sendo avaliado pelo papa e que poderá ser divulgado neste ano.

A inspeção dos seminários, chamada de "visita apostólica", consistirá no envio de equipes designadas pelo Vaticano aos 229 seminários, que possuem mais de 4.500 estudantes. A última inspeção desse tipo teve início há 25 anos, e demorou seis anos para ser concluída.

Em cada seminário os visitantes realizarão entrevistas confidenciais com cada membro do corpo docente e cada seminarista, assim como com todos os que se formaram nessas instituições nos últimos três anos.

Um documento de 12 páginas com instruções para a inspeção está sendo atualmente distribuído a professores e seminaristas. No documento é perguntado se a doutrina sobre o sacerdócio apresentada no seminário está "solidamente baseada no Magisterium (ensinamento) da Igreja", e se professores e seminaristas "aceitam esse ensinamento". Eis algumas das questões contidas no documento:

  • "Existe um processo claro para a remoção de membros do corpo docente dos seminários que discordem dos ensinamentos impositivos da Igreja, ou cujas condutas não proporcionem um bom exemplo aos futuros padres?".

  • O seminário está livre de influências de espiritualidade New Age e eclética?

  • "Os seminaristas ou membros do corpo docente se preocupam com a vida moral daqueles que vivem na instituição (a resposta a esta pergunta é obrigatória)?".

  • "Há evidências de homossexualidade no seminário (a resposta a esta pergunta é obrigatória)?".

    O questionário também pergunta se os professores "procuram detectar sinais de amizades peculiares".

    O reverendo Thomas Baima, reitor do maior seminário dos Estados Unidos, o Saint Mary of the Lake, em Chicago, para onde o Vaticano está enviando nove entrevistadores, disse que tais perguntas não surpreenderam.

    "O motivo pelo qual estamos recebendo uma visita apostólica neste momento está diretamente ligado ao escândalo de abusos sexuais cometidos por clérigos", explicou Baima. "Questões sobre a avaliação dos nossos candidatos, sobre a sua formação para o celibato, e sobre como ensinamos teologia moral chamarão mais atenção do que a forma como ensinamos História da Igreja".

    Mas um padre gay, que não quis revelar o seu nome porque foi instruído pela sua ordem para não falar em público, disse que a investigação nos seminários desmoralizará os sacerdotes homossexuais.

    "Isso é algo que diz aos padres gays --muitos dos quais são pessoas fiéis e que trabalham arduamente, e que vivem segundo os seus votos de celibato e de integridade-- que eles jamais deveriam ter sido ordenados", critica o padre. A Igreja quer banir a homossexualidade e as "amizades peculiares" Danilo Fonseca
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