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16/09/2005

Corrupção ameaça recuperação de Nova Orleans

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
Agora ele começa: o maior programa de ajuda e recuperação dos Estados Unidos desde o New Deal. E os augúrios não são bons.

É certo que o governo Bush, que tentou transformar o Iraque em um laboratório para políticas econômicas conservadoras, tentará a mesma coisa na Costa do Golfo.

A Fundação Heritage, que certamente tem ajudado Karl Rove a desenvolver o plano de recuperação do governo, já publicou um manifesto sobre a política pós-Katrina. Ele pede pela desregulamentação de leis ambientais, a eliminação dos impostos sobre ganhos de capital e pela privatização de prédios de escolas públicas nas áreas de desastre. E se qualquer uma das pessoas mortas pelo Katrina, a maioria delas pobre, tiver um patrimônio de mais de US$ 1,5 milhão, a Heritage quer que seus herdeiros fiquem isentos de imposto sobre imóveis.

Ainda assim, mesmo os conservadores admitem que a desregulamentação, cortes de impostos e privatização não serão suficientes. A recuperação exigirá muitos gastos federais. E além do efeito sobre o déficit --nós estamos prestes a ver um espetáculo de cortes de impostos diante tanto de uma guerra quanto de um enorme esforço de recuperação-- isto gera outra questão: como gastos arbitrários do governo poderão ocorrer em tamanha escala sem a criação de uma corrupção de escala igualmente grande?

É possível gastar altas somas honestamente, como o presidente democrata Franklin D. Roosevelt demonstrou nos anos 30, presidindo uma imensa expansão dos gastos federais, incluindo muitos gastos arbitrários por parte da Administração para o Progresso do Trabalho (WPA). Mas a imagem de ajuda pública, amplamente considerada corrupta antes do New Deal, na verdade melhorou acentuadamente.

Como foi que aconteceu? A resposta é que o New Deal transformou quase em fetiche o policiamento de seus próprios programas contra corrupção potencial. Em particular, Roosevelt criou uma poderosa "divisão de investigação de progresso" para analisar as queixas de malfeitorias na WPA. Tal divisão provou ser tão eficaz que uma investigação posterior do Congresso não conseguiu encontrar nenhuma irregularidade séria que tivesse deixado passar.

Este compromisso com o governo honesto não era um sinal da virtude pessoal de Roosevelt; ele refletia um imperativo político. Sua missão na presidência era mostrar que o ativismo do governo funciona. Para manter tal credibilidade da missão, ele precisava manter seu histórico de governo limpo.

Mas George W. Bush não é nenhum Roosevelt. De fato, em alguns aspectos cruciais ele é o anti-Roosevelt. Bush segue uma filosofia política que é contra o ativismo do governo. Este é o motivo para ele tentar diminuir e privatizar programas sempre que pode. (Ele ainda espera privatizar o Seguro Social, o maior legado de Franklin D. Roosevelt.) Assim, mesmo seus fracassos políticos não incomodam seus maiores simpatizantes: muitos conservadores vêem a resposta inepta ao Katrina como uma confirmação de sua falta de fé no governo, em vez de um motivo para reconsiderarem sua fé em Bush.

E até o momento, o governo Bush, que não tem interesse em mostrar que um bom governo é possível, tem sido contrário a investigar a si mesmo. Ao contrário, ele tem consistentemente obstruído investigações de corrupção e punido seus próprios investigadores caso tentem cumprir seu dever.

Este é o motivo para a promessa de Bush, na noite desta quinta-feira (15/09), de que terá "uma equipe de inspetores gerais analisando todos os gastos", soar vazia. Seja lá quem forem estes inspetores gerais, eles estarão cientes do destino de Bunnatine Greenhouse, uma auditora altamente respeitada do Corpo de Engenheiros do Exército, que repentinamente passou a receber avaliações de atuação ruins após ter questionado os contratos da Halliburton no Iraque. Ela foi rebaixada no final do mês passado.

Entregar os recursos para os governos estaduais e locais também não é a resposta. Roosevelt na verdade argumentou sobre tomar o controle dos políticos locais; naquela época como agora, os favores políticos tinham um grande papel na política local. E nossa solidariedade para com as populações do Mississippi e da Louisiana não devem nos cegar para as realidades da cultura política de seus Estados.

No ano passado, o boletim "Corporate Crime Reporter" (repórter de crime corporativo) classificou os Estados segundo o número de condenações federais de corrupção pública per capita. O Mississippi ficou em primeiro lugar; a Louisiana em terceiro.

Há alguma forma de Bush assegurar um programa honesto de recuperação?

Sim. Ele poderia isolar da política as decisões sobre gastos de reconstrução as colocando nas mãos de uma agência autônoma chefiada por uma pessoa politicamente independente, ou, se tal pessoa não pudesse ser encontrada, por um democrata (como um sinal de boa fé).

Ele não fez isso na noite de quinta-feira e provavelmente não fará. Há todos os motivos para acreditar que a reconstrução da Costa do Golfo, como a fracassada reconstrução do Iraque, será profundamente atrapalhada por corrupção e clientelismo. A reconstrução demonstra necessidade de Estado atuante e honesto George El Khouri Andolfato

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