UOL Notícias Internacional
 

16/09/2005

Democratas se unem para eleger Ferrer em NY

The New York Times
Diane Cardwell e Jim Rutenberg

Em Nova York
Demonstrando uma unidade pós-eleição primária que não era vista no Partido Democrata em Nova York havia mais de uma década, os pré-candidatos derrotados à vaga de candidato a prefeito pelo partido manifestaram, na quinta-feira (15/09), o seu apoio a Fernando Ferrer. Os democratas definiram o prefeito Michael R. Bloomberg como um verdadeiro republicano que tem governado uma cidade que provê os ricos, enquanto a classe média e os pobres lutam cada vez mais pela sobrevivência.

James Estrin/The New York Times 
Fernando Ferrer (ao centro) recebe o apoio dos pré-candidatos democratas que o enfrentaram nas primárias
Rodeado de centenas de autoridades democratas, Anthony D. Weiner, C. Virginia Fields, Gifford Miller e Ferrer subiram as escadarias da prefeitura, trocaram elogios e atacaram Bloomberg, dando, efetivamente, início à campanha ao exibir uma visão da cidade que contrasta gritantemente com o quadro róseo pintado por Bloomberg.

"Podemos fazer mais do que um prefeito que diz que não acredita que muita gente ganhe um salário mínimo. Podemos fazer mais do que um prefeito que diz que os pobres desta cidade contam com melhor assistência de saúde do que os ricos", afirmou Ferrer, perante uma multidão que o ovacionava sob um sol escaldante. "Acredito que esperança e oportunidade precisam estar presentes em igual medida em cada quarteirão, rua e bairro da nossa cidade".

De fato, o comício cristalizou aquilo que está emergindo como o tema dominante da campanha pela prefeitura, uma batalha que gira em torno das percepções de como é a vida em Nova York: uma dessas percepções é a de uma cidade próspera para todos os seus moradores, com uma economia em recuperação, escolas de qualidade e baixos índices de criminalidade, conforme sugere a campanha de Bloomberg.

A outra é a da cidade que Ferrer vê, na qual os pobres são deixados para trás, a classe média é esmagada e um número elevado de crianças deixa a escola e ruma para um futuro incerto.

Para o campo de Bloomberg, o espetáculo de unidade partidária foi um fenômeno preocupante, e o grupo do prefeito deu início a uma contra-ofensiva na quinta-feira, ao demonstrar o apoio ao republicano por parte de lideranças negras, expresso na aprovação manifestada pelo reverendo Calvin Butts, o pastor da Igreja Batista Abissínia, a igreja de maior influência política no Harlem.

Butts apoiou a candidatura de Fields à prefeitura, e a sua manifestação de apoio ao prefeito indicou como a campanha de Bloomberg está trabalhando no sentido de conquistar os eleitores negros --que podem se transformar em um eleitorado indeciso neste ano-- que desdenham Ferrer.

"Este é um prefeito forte, e não faz sentido que a cidade de Nova York o substitua neste momento", afirmou Butts, ao apoiar Bloomberg no Festival Internacional de Panquecas, no Harlem, na manhã da quinta-feira. "Estamos caminhando na direção certa".

Ferrer tem se empenhado pessoalmente em manter contato com os democratas que apóiam outros candidatos, pedindo-lhes apoio e agradecendo. A sua campanha está colecionando promessas de apoio e doações de figuras proeminentes do partido em âmbito nacional.

E outros democratas importantes estão aguardando para apoiá-lo publicamente: espera-se para esta sexta-feira o anúncio do apoio da senadora Hillary Clinton. O encontro na prefeitura na quinta-feira foi uma rara demonstração de unanimidade em se tratando de um partido que se viu fraturado após quase todas as primárias para eleições a prefeituras desde 1989.

Desta vez, foi uma decisão de Weiner, na terça-feira, não participar de um potencial segundo turno articulado por líderes partidários e políticos eleitos, e se alinhar a Ferrer, o ex-líder comunitário do Bronx.

Mas, apesar de toda a exibição de união, continuam pendentes questões graves sobre até que ponto os democratas trabalharão pela candidatura de Ferrer, especialmente no que diz respeito a pedir apoio para ele nos bairros em que o candidato é fraco.

Bloomberg conseguiu o apoio de figuras fundamentais do seu partido, de doadores democratas famosos, e de sindicados de construção, de funcionários municipais e de trabalhadores do setor hoteleiro.

E a campanha de Bloomberg parece estar a ponto de obter o apoio do Partido das Famílias Trabalhadoras, uma crescente força de esquerda na cidade e na política estadual, que se mostrou incapaz de concordar quanto a quem apoiar antes da eleição primária. Os líderes do partido planejam se reunir no sábado para discutirem um possível apoio a Bloomberg.

Autoridades partidárias disseram na quinta-feira que, no dia anterior à primária democrata, receberam um fax da campanha de Bloomberg, com o resultado de uma pesquisa feita com 251 membros do Partido das Famílias Trabalhadoras, revelando que o prefeito e Ferrer estão "estatisticamente empatados" entre esses eleitores.

Líderes partidários afirmam que a pesquisa pareceu ter sido encomendada pela campanha de Bloomberg. Stu Loeser, porta-voz da campanha, disse que nem confirmaria nem negaria a existência da pesquisa.

E alguns democratas ainda manifestam má-vontade para com Ferrer pelo fato de o candidato ter negado a Mark Green a mesma demonstração de unidade, agora solicitada, após um disputado segundo turno entre os dois em 2001, que foi vencido por Green. Green disse não ter sido convidado para o evento da quinta-feira, mas acrescentou que apóia Ferrer.

Além disso, os correligionários presentes no comício disseram que o fato de contar com o apoio da liderança do partido só ajuda Ferrer até certo ponto, e que daqui para frente ele precisará trabalhar muito para modificar a suposta dinâmica da campanha: com todos os principais indicadores na cidade apontando para cima, e armado como está com um grande arsenal de campanha, será praticamente impossível vencer Bloomberg.

O parlamentar Jose Rivera, líder do Condado Democrata do Bronx e aliado próximo de Ferrer, reconhece que cabe agora a Ferrer tentar reduzir a popularidade de Bloomberg, que atingiu um patamar recorde nas pesquisas. Mas Rivera disse acreditar que os índices de aprovação do prefeito são o resultado da campanha publicitária multimilionária para a promoção da sua imagem. Essa campanha teve início no segundo trimestre deste ano e continuou em andamento até o segundo semestre sem sofrer nenhuma contestação. Ele acredita que os índices de Bloomberg nas pesquisas encolherão quando Ferrer começar a defender de forma mais veemente a sua plataforma nas próximas semanas.

"Estamos falando de um prefeito que, há apenas um ano, todos estavam vaiando", disse ele, referindo-se a Bloomberg.

Mesmo assim, o tesoureiro Alan Hevesi, que administrou a primária democrata de 2001, ressaltou o grau de dificuldade da tarefa que Ferrer tem pela frente quando disse em uma entrevista, na quinta-feira: "Tudo está indo bem na cidade, e a economia está em expansão".

No entanto, ele acrescentou: "Esta é uma grande cidade, e onde um tipo de serviço está indo bem, outro está fracassando. E há outras vulnerabilidades".

Ferrer vem lutando neste ano para definir a sua mensagem, mas já atacava na quinta-feira a idéia de que Bloomberg é invencível, acusando-o de ser alguém "que não parece entender a luta dos nova-iorquinos".

"Esta disputa está apenas no início. E nós só ficaremos mais fortes", garantiu Ferrer. "Já estamos presenciando uma vigorosa e crescente coalizão de democratas na cidade e no país".

Herman D. Farrel Jr., presidente estadual do Partido Democrata, definiu o comício como "o pior pesadelo para o atual prefeito".

A equipe da campanha de Bloomberg não parece concordar com tal visão. Mas os assessores do prefeito estão se preparando para aquilo que eles esperam que seja uma mudança no rumo da campanha.

À medida que Ferrer tiver os holofotes sobre si, a exposição com a qual contará poderá facilmente se transformar em um aumento das intenções de votos e, possivelmente, no ingrediente chave da eleição: o ímpeto eleitoral.

E, em nítida inferioridade financeira em relação aos bilhões de dólares de Bloomberg, Ferrer provavelmente contará com uma injeção de dinheiro, graças às novas e generosas doações de campanha. Isso permitirá que ele consiga pelo menos uma aparência de paridade com Bloomberg na televisão e nas propagandas enviadas pelo correio.

Apesar de todas as atuais conversas a respeito de uma vitória certa de Bloomberg, o próprio prefeito disse que uma gafe súbita ou um único incidente que fuja ao seu controle poderia mudar toda a situação. Afinal, ele estava 22 pontos atrás de Green no início da eleição geral de 2001.

Agora é Bloomberg que parece contar com uma formidável liderança sobre Ferrer, e nenhum dos lados espera que tal situação se sustente nos próximos dias ou semanas.

"Essas diferenças diminuem", afirma Edward I. Koch, o ex-prefeito. É claro que a questão-chave é saber o que Bloomberg fará a esse respeito.

O seu discurso de abertura para esta eleição geral foi bem mais discreto do que em 2001, quando ele criticou duramente Mark Green, tão logo este emergiu como candidato democrata. Pelo segundo dia seguido, Bloomberg continuou promovendo o seu histórico e evitando mencionar o nome de Ferrer.

Ao lhe perguntarem, na quinta-feira, como ele visualiza a sua campanha, Bloomberg disse: "Esta eleição diz respeito àquilo que fizemos nos últimos quatro anos: melhorar as escolas, reduzir o índice de criminalidade, construir moradias acessíveis, criar empregos e melhorar o sistema de saúde. Fizemos muita coisa".

Mas, em uma resposta sutil às acusações de Ferrer de que Bloomberg pinta um quadro excessivamente róseo da cidade, o prefeito acrescentou: "Certamente há mais o que se fazer. Há mais coisas a serem feitas nas nossas escolas, e com certeza precisaremos de mais moradias acessíveis e de mais empregos".

A equipe de Bloomberg passou os últimos meses formulando estratégias de ataque contra Ferrer e coletando informações a serem usadas contra o candidato democrata. Mas, com a liderança ainda confortável do prefeito, conforme demonstrado pelas pesquisas, os estrategistas republicanos ainda não parecem enxergar a necessidade de partirem para a ofensiva. Eles aguardam aquilo que acreditam que será um ataque inevitável por parte de Ferrer.

"Com base em tudo o que estamos vendo, a campanha que os democratas estão formulando pintará um quadro distorcido e negativo da cidade de Nova York", disse William T. Cunningham, um dos principais assessores do prefeito. "Nós defenderemos a cidade de Nova York e o histórico do prefeito". O partido espera reverter a vantagem de Bloomberg nas pesquisas Danilo Fonseca

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