UOL Notícias Internacional
 

17/09/2005

Socorro federal continua falhando três semanas depois da passagem do furacão Katrina

The New York Times
Jennifer Steinhauer e Eric Lipton

Em Baton Rouge, Louisiana
Quase três semanas depois da passagem devastadora do furacão Katrina, a FEMA --a mesma agência federal responsável pela má operação de resgate-- está falhando em seu esforço para ajudar centenas de milhares de vítimas da tempestade, disseram autoridades locais, refugiados e importantes autoridades federais de ajuda.

O número de telefone para ajuda federal mencionado pelo presidente Bush em seu discurso ao país, na quinta-feira, não tem conseguido lidar com o volume de ligações, deixando diariamente milhares de pessoas incapazes de pedir ajuda. As autoridades federais freqüentemente são incapazes de autorizar os governos locais a prosseguirem com tarefas fundamentais para colocarem suas cidades novamente em funcionamento.

A maioria das áreas da região ainda carece de centros de ajuda federais, e paradas de compras para moradores à procura de ajuda para suas casas ou famílias. As autoridades disseram não saber ao certo se poderão cumprir a meta do presidente de fornecer moradia para 100 mil pessoas, que atualmente estão em abrigos, até meados do próximo mês.

Apesar de a agência ter redobrado seus esforços para obter comida, dinheiro e abrigo temporário para as vítimas da tempestade, sérios problemas persistem por toda a região afetada. Visitas a várias cidades na Louisiana e Mississippi, assim como entrevistas com dezenas de autoridades locais e federais, forneceram um retrato de um sistema fragmentado e disfuncional.

As duas principais autoridades federais de ajuda encarregadas do esforço reconheceram, em entrevistas no final desta semana, que também escutaram as vozes frustradas das autoridades locais e cidadãos e que consideram suas queixas válidas.

"Não está andando rápido o bastante, de forma eficaz o suficiente e não está sendo sentido pelas pessoas mais necessitadas tão rapidamente quanto deveria", disse o vice-almirante Thad Allen, em Nova Orleans na sexta-feira. "Eu ouvi as manifestações de frustração."

Allen, que na semana passada foi colocado no comando das operações de emergência do governo federal na Costa do Golfo, disse que a burocracia tem atrapalhado as tentativas de acelerar suas maiores prioridades: ajuda aos moradores, fornecimento de habitação e limpeza de vastas áreas de escombros de casas e árvores atingidas pela tempestade.

Trabalhando em Baton Rouge, William Lokey, o diretor de coordenação da FEMA para a região de três Estados, repetiu as críticas de Allen. "Não está andando tão rapidamente quanto eu gostaria e, sim, eu não disponho dos recursos que gostaria", ele disse na quinta-feira. "Eu estou agindo o mais rapidamente que posso para obtê-los."

Os problemas claramente derivam principalmente da simples enormidade do desastre. Mas a falta de investimento em preparação para emergência, a má coordenação por toda a ampla burocracia federal e o enorme colapso dos sistemas de comunicação locais --fatores que prejudicaram os esforços iniciais de resgate-- agora também estão atrapalhando a recuperação.

A FEMA, disse Lokey, é uma agência com recursos federais limitados que deve expandir rapidamente sua capacidade operacional apenas após a ocorrência de um grande desastre. Ela não recebeu uma grande parcela dos dólares federais para segurança interna, que foram destinados à prevenção do terrorismo.

"Se os bilhões de dólares que foram gastos em resposta química, nuclear e biológica, se parte deles tivesse vindo para cá nós estaríamos melhor", disse ele. "Mas depois de 11 de setembro, a prioridade passou a ser o terrorismo."

Os problemas do Katrina colocam em dúvida a capacidade do governo americano de lidar com desastres semelhantes no futuro.

"Eu não acho que a burocracia federal está capacitada a lidar com o próximo desastre", disse Toye Taylor, presidente da paróquia de Washington, uma das áreas mais duramente atingidas na Louisiana, que se encontrou com Bush nesta semana.

"Eu expressei ao presidente a necessidade de uma nova parceria entre as forças armadas e o setor privado", disse Taylor. "Porque haverá outro e eu não acho que o governo federal será capaz de ajudar." De fato, Bush disse em seu discurso à nação em Nova Orleans, na noite de quinta-feira, que as forças armadas terão um novo papel na ajuda federal a desastres.

A luta para devolver para paróquias, cidades e indivíduos uma certa ordem funcional é visível por toda a região.

O presidente da paróquia de Saint Tammany, Kevin Davis, está rezando para que não chova em seu quente canto da Louisiana, porque três semanas depois do Katrina ter danificado seriamente seu sistema de drenagem, a FEMA ainda precisa lhe dar aprovação para começar os reparos.

No norte, na paróquia pobre de Washington, seus habitantes estão dormindo em casas que foram cortadas ao meio pela queda de carvalhos. A onda prometida de inspetores do governo ainda não apareceu para ajudá-los.

James McGehee, o prefeito de Bogalusa, uma pequena cidade na Louisiana perto da divisa com o Mississippi, mal podia conter sua raiva em uma entrevista na quinta-feira.

"Já são 18 dias desde a passagem da tempestade e a FEMA ainda nem mesmo estabeleceu um local para as pessoas que estão desabrigadas", disse ele. "Elas estão caminhando pelas ruas. O sistema está falido."

Alguns aspectos críticos da resposta federal ao Katrina estão se movendo de forma significativamente mais rápida do que o esperado. O Corpo de Engenheiros do Exército, que inicialmente previu que a drenagem de Nova Orleans levaria até três meses, agora prevê que a enorme tarefa estará concluída em 2 de outubro.

A FEMA e seus parceiros entregaram até a manhã de sexta-feira mais de 177 toneladas de gelo, 63 milhões de litros de água e 26 milhões de refeições prontas por toda a Louisiana, Mississippi e Alabama. Mais de US$ 1,25 bilhão em ajuda federal ao desastre também foram distribuídos diretamente para muitas das mais de 1 milhão de vítimas na região dos três Estados que se registraram em busca de ajuda. Apenas na Louisiana, outros US$ 100 milhões em vales-refeição foram distribuídos.

"O compromisso é agressivo", disse Ann Silverberg Williamson, secretária do Departamento de Serviços Sociais da Louisiana, que está trabalhando com as autoridades federais em vários destes esforços.

Em muitas áreas afetadas, os americanos continuam vivendo em condições impensáveis em grande parte do mundo industrializado, como nas áreas rurais não corporativas do condado de Washington e nas paróquias vizinhas, onde troncos derrubados de árvores de 20 toneladas deixaram rachaduras do tamanho de pegadas de dinossauro nas estradas, e as casas ainda estão cercadas por um labirinto de galhos retorcidos.

Na paróquia de Tangipahoa, o presidente da paróquia, Gordon Burgess, disse que tem telefonado diariamente para a FEMA para saber quando virão para ajudar os cidadãos com moradias. Burgess disse que os funcionários federais dizem: "'Eu lhe darei um retorno na próxima semana', e na semana seguinte você não tem nenhuma notícia deles".

De fato, quase todo líder local entrevistado --mesmo aqueles que entendem a situação difícil da FEMA-- se queixou de não ter conseguido aprovação da agência para seus contratos de obras, informação sobre quando abririam os centros de ajuda ou obtido alguma resposta para perguntas básicas. Freqüentemente, eles disseram, o funcionário da FEMA no local, ansioso para ajudar, precisa escalar a cadeia de comando antes de poder agir, o que leva dias.

"As pessoas no local são maravilhosas, mas o problema é obter o 'sim'", disse Davis, da paróquia de Saint Tammany, que tem uma empreiteira pronta para limpar seus sistema de drenagem das mesmas árvores que a FEMA o autorizou a retirar de suas ruas, e reparar partes do sistema de esgoto.

"Eu digo: 'Espera aí, é permitido retirar escombro das ruas mas não do sistema de drenagem?' Se chover, eu vou ter sérios problemas. Eu só preciso que alguém me autorize a fazer a licitação pública para que eu possa reconstruir nossa paróquia imediatamente."

Talvez a maior frustração expressada pelas autoridades locais e estaduais --assim como por algumas autoridades federais-- é o ritmo para encontrar ou estabelecer moradia temporária para retirar algumas pessoas dos abrigos de emergência e a lenta abertura de centros especializados em recuperação.

O governo Bush estabeleceu 1º de outubro como prazo para a transferência de 100 mil pessoas que estão em abrigos, em locais freqüentemente lotados e desconfortáveis, para moradias temporárias. A meta é instalar dezenas de milhares de lares móveis e trailers, de forma que as pessoas não apenas deixem os abrigos, mas que possam se mudar para o mais próximo de seus lares. Mas o progresso na instalação destas novas casas está vagaroso.

"Não vai dar", disse Lokey na tarde de quinta-feira sobre a meta de 1º de outubro. "É simplesmente grande demais." Na noite de quinta-feira, em seu discurso à nação, Bush alterou o prazo para 15 de outubro, que Lokey disse que ainda assim será difícil de cumprir.

Os ânimos estavam exaltados entre muitos dos milhares de refugiados da tempestade que tentaram contatar a FEMA por telefone ou encontrar centros onde representantes da FEMA pudessem responder perguntas sobre vários programas federais de assistência. Apenas oito dos 40 locais prometidos foram abertos na Louisiana.

"Eu ainda não tenho uma data certa para quando montarão o centro", disse Taylor, da paróquia de Washington. Baton Rouge, que recebeu um imenso afluxo de refugiados, só conseguiu um centro nesta quinta-feira.

Refugiados e autoridades locais também se queixaram de que o pedido da FEMA para que se registrem online ou por telefone é inviável, dado que 310 mil lares na Louisiana ainda estão sem serviço de telefone e 283.231 ainda estão esperando pelo restabelecimento da energia elétrica. E, de qualquer forma, as linhas telefônicas estão quase sempre congestionadas. Assim, aqueles que têm carro dirigem quilômetros até centros de ajuda em outros condados, onde as filas estão aumentando. A confusão é desenfreada.

"A FEMA não se comunica muito bem com você", disse Tommy Nelson, enquanto limpava a casa da mãe de sua namorada em Waveland, uma cidade da Costa do Golfo que atualmente é mais uma lembrança do que um local.

"Você acaba sabendo das coisas por intermédio de outras pessoas. Nós estávamos na fila da agência dos correios e por acaso soubemos que era preciso se registrar aqui para receber um trailer. Ontem eu estava conversando com uma representante da FEMA sobre trailers e ela não sabia de nada."

A melhor hora para falar com a FEMA é às 2 horas da madrugada. Enquanto isso, caminhoneiros transportando dezenas de milhares de toneladas de gelo e água têm ziguezagueado pelo país, passando de cidade em cidade, apenas para serem informados para aguardarem por até uma semana em um estacionamento em Memphis, com seus motores funcionando, assim como seus custos correndo.

"É uma experiência triste", disse Frank Lynn, que foi enviado ao Missouri, depois ao Mississippi, depois ao Alabama e então ao Tennessee -tudo com a mesma carga de 18.860 quilos de gelo que foram carregados em Chicago. "Eu fui até lá para ajudar. Tudo o que consegui foi ser ordenado pela FEMA a ficar dando voltas."

Mas o desastre também expôs várias falhas sérias que atrapalharam a resposta da FEMA. Os sistemas de comunicação, especialmente nas áreas rurais, foram derrubados e ainda não voltaram a funcionar, tornando impossível tanto para os cidadãos quanto para as autoridades locais entrarem em contato com o governo federal.

Além disso, muitos dos moradores atingidos contavam com poucos recursos e energia limitada desde o início. O isolamento provou ser um risco. Aqueles que tinham líderes com acesso à câmeras de televisão e um pouco de força política se saíram melhor do que aqueles que não tinham. Serviço da FEMA continua ineficaz, apesar das promessas de Bush George El Khouri Andolfato

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