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18/09/2005

Alemães votam no domingo, mas parecem divididos

The New York Times
Richard Bernstein
Em Berlim
Após uma campanha arduamente travada e acrimoniosa, a Alemanha irá às urnas no domingo diante daquela que, na superfície, parece ser uma escolha histórica entre a política de costume de um lado e uma mudança ousada de outro.

A continuidade é representada pelo chanceler Gerhard Schroeder, uma figura clássica da esquerda moderada alemã, que tem feito campanha com este tema: as coisas estão melhorando na Alemanha graças às mudanças que ele implementou durante os últimos anos, mudanças que preservaram o sistema de bem-estar social e proteções aos trabalhadores na Alemanha.

A mudança é representada pela rival de Schroeder, Angela Merkel, que, apesar de ser líder da União Democrata Cristã, o partido clássico de centro-direita da Alemanha, vem de fora do mainstream político alemão. Ela é uma mulher; é uma ex-física da antiga Alemanha Oriental; ela é uma forasteira até mesmo para outras figuras influentes em seu partido.

Ainda mais incomum, Merkel diz que as coisas não estão melhorando na Alemanha, que conta com uma taxa de desemprego de quase 12%, um déficit recorde e crescimento econômico praticamente nulo por cinco anos consecutivos. Além disso, ela argumenta, o tempo está se esgotando. Ela é a primeira candidata importante em décadas na Alemanha a basear sua campanha na noção de que as coisas não melhorarão a menos que seja feito muito mais para conduzir o país a um genuíno livre mercado, com menos proteções sociais caras do que a Alemanha está acostumada.

"Nós precisamos urgentemente de uma mudança política na Alemanha", diz Merkel em seus discursos de palanque. Em um momento bastante divulgado da campanha, durante um debate na televisão, ela se voltou para Schroeder e declarou: "Você fracassou".

Mas a verdade é que poucos analistas na Alemanha estão olhando para a atual disputa como sendo histórica, e o motivo é simples: é verdade, Schroeder e Merkel representam filosofias muito diferentes, com Merkel representando algo novo em cena -uma genuína figura anglo-americana de livre mercado que de fato tem uma boa chance de ser chanceler. Mas muitos analistas argumentam que o eleitorado está tão dividido, tão incerto e nervoso, que salvo uma guinada decisiva de última hora, seja lá quem for eleito estará em uma posição fraca, emaranhado em complicadas coalizões políticas que deixarão pouco espaço para iniciativas ousadas.

"Esta eleição seria uma votação por uma mudança completa de direção política se houvesse alternativas diferentes de coalizão", disse Juergen Falter, um professor de ciência política da Universidade de Mainz.

"Merkel representa uma grande diferença ideológica", continuou Falter, "mas ela não será uma ditadora por um certo período, como Maggie Thatcher costumava ser, porque ela precisará de uma coalizão. O partido dela já é uma espécie de coalizão, incluindo os social-cristãos de um lado e os empreendedores neoliberais de outro, de forma que sempre haverá um compromisso".

Há apenas poucas semanas, Merkel e seu provável parceiro de coalizão, o Partido Democrático Livre pró-negócios, pareciam quase certos de obter a maioria absoluta no Parlamento. Mesmo tal maioria poderia não assegurar a Merkel a capacidade de promover um forte programa de mudanças porque, como Falter disse, muitas das figuras poderosas em seu próprio partido não compartilham da filosofia dela. Analistas políticos alemães têm pontos de vista diferentes sobre esta questão, com alguns argumentando que Merkel será impedida pela resistência de rivais em seu próprio campo mesmo se obtiver a maioria absoluta, e outros argumentando que ela é uma líder capaz, astuta, que encontrará formas de superar a resistência.

"Merkel é constantemente subestimada", disse Wolfgang Nowak, um ex-conselheiro de Schroeder que agora apóia Merkel. "Todos os adversários dela a subestimaram, mas onde estão eles agora? Se ela fosse a líder fraca que todos descrevem, então ela nunca teria chegado aonde está hoje."

De qualquer forma, nas últimas duas semanas, com Schroeder retratando Merkel como sendo uma radical que destruirá o sistema de bem-estar social da Alemanha, a disputa se tornou mais acirrada e, com até 30% do eleitorado listado como indeciso, qualquer coisa é possível, incluindo a volta de Schroeder ao poder.

O mais provável, pelo menos segundo as pesquisas, é que a União Democrata Cristã de Merkel, combinada com seu parceiro de coalizão de costume, o Partido Democrático Livre, conseguirá a maioria das cadeiras no Parlamento, o que a tornará chanceler, mas ela não conseguirá obter a maioria absoluta.

Se ela não conseguir controlar a maioria no Parlamento, a única opção dela como chanceler será buscar o que é chamado de "grande coalizão", na qual a CDU de Merkel tentará governar juntamente com seus rivais ideológicos no campo de Schroeder, apesar de que provavelmente sem incluir Schroeder.

Poucos analistas do cenário político deste país são da opinião de que a grande coalizão não é do interesse da Alemanha.

"Se os dois maiores partidos sempre tiverem que chegar a um acordo sobre os principais assuntos, não acontecerá nada", disse Reinhardt Schlinkert, líder do Dimap, um dos maiores grupos de pesquisa de opinião pública da Alemanha. "Seria a pior solução possível para a Alemanha."

Schroeder convocou a eleição um ano antes do exigido pela lei alemã depois que seu partido sofreu várias derrotas nas eleições estaduais. Schroeder passou grande parte dos últimos três anos obrigando seu partido freqüentemente recalcitrante a aceitar um modesto programa de mudanças econômicas conhecido como Agenda 2010, que cortaria alguns benefícios do bem-estar social e reduziria os impostos corporativos em um esforço para animar a economia alemã.

Como Schroeder fracassou em mostrar qualquer melhoria nos números do desemprego da Alemanha durante seus sete anos como chanceler, ele parecia estar preparando sua própria aposentadoria precoce ao convocar as eleições antecipadamente.

Mas ele tem atuado de forma árdua e eficaz na campanha e, segundo alguns de seus críticos, de forma desonesta, argumentando que o programa de Merkel seria injusto. Enquanto isso, Merkel tem conduzido uma campanha, segundo a maioria dos relatos, sem brilho, carente de comentários envolventes ou até mesmo do que poderia ser chamado de visão articulada.

Há cerca de três semanas, por exemplo, ela disse que nomearia Paul Kirchhoff, um economista que defende uma mudança tributária radical na Alemanha, como seu ministro das Finanças. Quando Kirchhoff foi retratado pelo Partido Social Democrata como um risco para o alemão comum, Merkel começou a recuar publicamente, tentando assegurar aos eleitores de que as idéias de Kirchhoff sobre impostos não representavam a política oficial da União Democrata Cristã.

Ainda assim, na visão de muitas pessoas aqui, Merkel continua sendo uma candidata de estatura potencialmente histórica devido à situação difícil da Alemanha, a crença compartilhada por muitos especialistas em economia alemã de que a manutenção de altos gastos sociais sem uma mudança mais radical assegurará um declínio lento e doloroso.

"Nós nos acostumamos a estes 5 milhões de desempregados, a um déficit público que representa 4% do PIB, e ao crescimento econômico zero", disse Thomas Straubhaar, presidente do Instituto de Economia Internacional em Hamburgo. "A Alemanha ainda é rica o suficiente para manter um padrão de vida europeu pelos próximos cinco a dez anos, mas isto é como dizer que quando você envelhecer não vai poder correr rápido. Seu desejo é apenas se manter."

"Um dia", prosseguiu Straubhaar, "o desaceleração se torna irreversível, como aconteceu na América Latina, como aconteceu na Argentina".

Para pessoas como Straubhaar, Merkel representa a melhor esperança de que o processo não se torne irreversível, mas ele também diz que ela é algo como um cavaleiro solitário, cavalgando não apenas contra grande parte do sentimento popular, mas contra os reflexos de muitas figuras poderosas dentro de seu próprio partido.

"Em comparação aos Estados Unidos, não há uma mensagem clara da CDU sobre uma política econômica voltada ao mercado, individualista", disse ele. "É um programa picado. Não é uma visão. É uma espécie de mistura." George El Khouri Andolfato

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