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19/09/2005

Onde há fumaça, há um artista

The New York Times
Mireya Navarro
LOS ANGELES - Qualquer um que venha acompanhando Mary-Kate Olsen pelas revistas semanais sabe que ela tem 19 anos, freqüenta a Universidade de Nova York, que teve anorexia e que agora namora um grego, herdeiro da navegação.

Reuters - 02.mai.05 
As gêmeas Ashley (esq.) e Mary-Kate Olsen
Também é sabido que ela fuma, pois só em setembro ela apareceu em ao menos três revistas de celebridades procurando um cigarro ou segurando um maço de Malboro em uma mão e um cigarro na outra, enquanto fazia compras em Los Angeles.

Tais imagens de artistas fumando fora da tela eram relativamente raras há cinco anos, mas com a proliferação de revistas de celebridades e a competição por imagens cândidas, estão sendo publicadas cada vez mais fotografias de celebridades fumando, dizem editores de revistas, fotógrafos e agentes. Como as proibições que empurram os fumantes para fora dos ambientes fechados, "se você fumar, vai ser pego", disse Gary Morgan, fundadora da agência de fotografia Splash News.

É cedo demais para documentar se esse tipo de exposição pode influenciar os jovens leitores, mas alguns grupos anti-tabagistas expressaram preocupação. Apesar dos índices estarem baixos desde meados dos anos 90, pesquisas mostraram uma correlação direta entre o fumo na tela e adolescentes adotando o hábito. Os especialistas dizem que imagens de celebridades fumando fora da tela podem ter o mesmo efeito. Um estudo, por pesquisadores de Dartmouth College, revelou que adolescentes que assistem mais cenas com cigarro nos filmes têm quase três vezes mais chance de se viciarem.

Grupos anti-tabagismo que acompanham a indústria de entretenimento dizem que a incidência de cenas de pessoas fumando nos filmes, inclusive em títulos produzidos para o público jovem, foi maior no ano que terminou em abril do que vinha sendo desde 1994. Eles também dizem que o aumento das imagens dos artistas de cinema fumando na vida real só pode tornar as coisas piores.

As imagens transmitem a mensagem "que gente legal fuma", disse John P. Pierce, diretor do programa de prevenção ao câncer da Universidade da Califórnia em San Diego.

Fotografias das celebridades fumando ainda são exceção à regra, mas estão se tornando tão comuns quanto as de atores caminhando com xícaras de café ou abraçando cachorros de brinquedo. Além das fotos de Olsen (nas revistas Star, In Touch, Us Weekly), recentemente foram publicadas imagens de Leonardo DiCaprio tragando (People), Kate Hudson contemplativamente segurando um cigarro em um dos shows de seu marido (Us Weekly) e Kevin Federline fumando de mão dada com sua mulher grávida, Britney Spears (In Touch), que deu a luz na semana passada.

Os cigarros são uma parte indelével da cultura de Hollywood, dentro e fora da tela. Em cena, os atores usam cigarros para formar um personagem, fora da tela, se fumam, às vezes estão trabalhando na própria imagem.

"Se isso ajuda ou prejudica, depende de sua persona cinematográfica", disse Steven Ross, professor de história da Universidade da Califórnia do Sul que escreveu livros sobre Hollywood e sua influência na sociedade.

"Se Clint Eastwood aparece fumando, todo mundo acha ele macho", disse ele. "Se for uma mulher fatal, como Sharon Stone, as pessoas acham que é sexy. Mas se você tem uma imagem de pureza e integridade, fumar deixa você menos puro."

Muitas celebridades mantêm seu vício para si mesmas. Quando são pegas com um cigarro, imploram ao fotógrafo para que não use a imagem, algumas vezes oferecendo outras em troca. Morgan, da Splash, disse que artistas adolescentes em geral se preocupam em ter problemas com o estúdio ou com o canal de televisão.

"Algumas vezes as pessoas dizem: 'Por favor, não use uma foto minha fumando' porque seus fãs são adolescentes", disse ele. "Meninas supostamente não fumam."

No entanto, os representantes das celebridades parecem resignados que seus clientes vão aparecer fumando, por causa da perseguição incansável dos fotógrafos.

"É parte dessa paixão insana pela celebridade", disse o publicitário Ken Sunshine, cujos clientes incluem DiCaprio e Ben Affleck, alvo favorito dos paparazzi. Recentemente, a Us Weekly descreveu sua foto como "fumando dois cigarros enquanto sua mulher grávida ia no banheiro" no Wendy's.

Sunshine, porém, acrescentou: "Ninguém que eu represento finge ser o papa ou modelo para os jovens. As pessoas têm de viver suas vidas. Eles têm o direito de fumar, se quiserem."

Michael Pagnotta, porta-voz de Olsen com sua irmã gêmea, Ashley, disse que fumar era uma escolha privada e é preciso "respeitar isso".

Stanton A. Glantz, diretor do Centro de Pesquisa e Educação de Controle de Tabaco da Universidade da Califórnia em San Francisco disse que as celebridades deveriam ter consciência da influência negativa que podem exercer sobre os jovens fãs, acrescentando que as revistas também são culpadas. "Há uma decisão editorial de mostrar as pessoas fumando", disse ele. "Todos estão desempenhando um papel."

Editores e fotógrafos, entretanto, disseram que não tentam captar ou mostrar os famosos fumando. Alguns sugeriram que uma razão pela valorização dos cigarros é que muitos na mídia -Lindsay Lohan, por exemplo- pertencem a uma Hollywood jovem e festiva, que estava na universidade em uma época de altas proporções de fumantes (24%).

Joe Dolce, editor da Star, disse que 70% das fotos da revista são feitas nas ruas e apenas mostram as pessoas "fazendo o que fazem".

Quanto a sua responsabilidade com os leitores, ele disse: "não sou árbitro moral". Seu público, segundo ele, tende a ser de mulheres com 20 e muitos anos ou trinta e poucos. "Os leitores são inteligentes. Se escolhem fumar, compreendem as conseqüências."

Mas Larry Hackett, vice-editor da People, disse que sua publicação só mostrou três fotos com cigarro neste ano porque tenta "evitar a todo custo".

"Somos sensíveis à noção de que isso pode estimular os jovens a fazê-lo", disse ele.

Brittain Stone, editor de fotografia da Us Weekly, disse que tenta evitá-las porque fumar "não deixa as pessoas atraentes, especialmente as mulheres".

Mas ele disse que não recebe reclamações quando publica uma foto com cigarro e disse que muitas celebridades parecem relaxadas a respeito disso.

"Ninguém parece estar pensando que isso é uma coisa horrorosa", disse ele, "porque é sua vida particular".

Mas quer queiram quer não, os artistas influenciam os jovens, dizem os ativistas contra o cigarro. Autoridades do Centro de Controle de Doenças dos EUA dizem que a prevalência de cigarros entre estudantes não mudou muito de 2002 a 2004, depois de quedas anteriores dramáticas. Atualmente, está em 8% para alunos do ensino fundamental e 22% do ensino médio. Entre outros fatores para a manutenção desses números, as autoridades citam a freqüência do cigarro no cinema.

A maior freqüência de fumantes famosos é uma de várias tendências perturbadoras, dizem grupos que combatem o tabagismo. Um projeto da Associação Americana de Pulmão, em Sacramento, observou que 65% das cenas em que alguém fuma, quem fuma é o ator principal, e que as cenas com cigarro agora estão em mais de dois terços dos filmes para maiores de 13 anos.

Vários esforços estão em curso para combater o fumo no cinema. Glantz, da Universidade da Califórnia em San Francisco, liderou um projeto, Smoke Free Movies, que conquistou o apoio da Associação Médica Americana e de defensores da saúde pública. Ele propõe fazer com que qualquer filme com cenas de fumo receba automaticamente indicação para maiores de 18 anos e mostre anúncios contra o cigarro. O grupo também quer impedir as empresas de cigarro de se beneficiarem da identificação do produto, proibindo que se mostre a marca dos cigarros nos filmes. (Desde 1998 que um acordo limita como as empresas de tabaco podem anunciar seus produtos e não permite que as marcas de cigarro usem filmes como veículos de propaganda.)

Até agora os esforços não tiveram força em Hollywood por causa de preocupações com a censura. "Os artistas precisam ser capazes de criar imagens que representam a vida real", disse Kori Bernards, porta-voz da Associação de Cinema dos EUA. Ela acrescentou que uma pesquisa revelou que o fumo no cinema tende a ser associado aos vilões.

Diretores e autores disseram que fumar, em geral, se encaixa com a necessidade do personagem e do filme. Mas no documentário da Associação Americana do Pulmão "Scene Smoking: Cigarettes, Cinema & the Myth of Cool", de 2001, sobre o fumo no cinema e na televisão, Rob Reiner, diretor e ator, observou que grande parte do fumo na tela vem do fato dos atores no filme fumarem. "Em geral, o que acontece, é que o ator fuma na vida real, então ele encontra uma forma de utilizar seu vício", disse ele.

No documentário, Jack Klugman, que fez o papel do fumante de charuto Oscar Madison em "The Odd Couple" e fumava até sofrer de câncer oral, falou dos poderes não intencionados da fama.

Ele disse que começou a fumar depois de ver seu ídolo, o ator John Garfield, fumar. Ele o imitava a tal ponto que "tragava como ele, jogava o cigarro fora como ele, segurava-o como ele".

"Ele não só me influenciou", disse Klugman com uma voz rouca, quase inaudível. "Eu fumava como ele." Deborah Weinberg

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