UOL Notícias Internacional
 

20/09/2005

Nova tempestade suspende plano do prefeito de retorno das pessoas a Nova Orleans

The New York Times
William Yardley*

Em Nova Orleans, Louisiana
Sob pressão do presidente Bush e com uma nova tempestade ameaçando o Golfo do México, o prefeito C. Ray Nagin suspendeu na segunda-feira (19/09) seu plano de autorizar a volta das pessoas a esta cidade vulnerável. Em vez disso, ele pediu imediatamente a evacuação obrigatória dos moradores que voltaram ou nunca partiram.

Doug Mills/The New York Times 
Patrulha manda motoristas que voltavam a Nova Orleans a dar meia-volta, após decretada a evacuação da cidade
"Este é um tipo diferente de evento", disse o prefeito sobre a tempestade tropical Rita.

"Nosso sistema de barragens ainda está muito fraco. Nossas estações de bombeamento ainda não estão em plena capacidade de funcionamento e qualquer tipo de tempestade que vier nesta direção e nos atingir colocará a margem leste da Paróquia de Orleans em alto risco. Então estou encorajando todos a partirem."

O prefeito mudou de posição horas depois de Bush ter questionado se era seguro para os moradores voltarem à cidade, reiterando os alertas de Thad W. Allen, o vice-almirante da Guarda Costeira que está chefiando o esforço federal de recuperação, de que o sistema de barragens da cidade está enfraquecido, seu sistema de emergência não está operacional, seus hospitais estão fechados e seu ar e água ainda estão contaminados por poluentes.

"O almirante Allen fala pelo governo", disse Bush em Washington na segunda-feira, acrescentando: "Nós deixamos nossa posição bem clara".

"O prefeito precisa ouvir o nosso objetivo, assim como a população de Nova Orleans", disse o presidente. "Escutem, eu estive lá, estive na Jackson Square para dizer que queremos o ressurgimento da cidade. Como eu disse, não posso imaginar uma América sem uma Nova Orleans vibrante. É apenas uma questão de momento, e há problemas que precisam ser resolvidos."

"Se chover demais, há a preocupação do Corpo de Engenheiros do Exército de que as barragens poderão romper. Assim, estamos cautelosos em encorajar as pessoas a voltarem neste momento."

A disputa em torno do acesso à cidade refletiu novamente três semanas de tensão, apesar das reconciliações públicas, entre as autoridades federais e locais em torno da resposta ao furacão Katrina, que atingiu a cidade em 29 de agosto.

Ao ser questionado em sua coletiva de imprensa em Nova Orleans, na segunda-feira, sobre se a pressão política o tinha forçado a mudar de posição, Nagin disse que a aproximação da tempestade tropical, assim como os problemas no sistema de esgoto, levaram à mudança.

"É compreensível que o governo federal estivesse um pouco, hã, agitado com o plano", disse ele. "Ele não sentia que as condições eram boas. Mas minha idéia sempre foi de que se tivermos muitos recursos na cidade trabalhando de forma cooperativa, então poderemos corrigir quase todas as situações existentes lá."

Os meteorologistas disseram que a tempestade tropical Rita, que passou pelas Bahamas na segunda-feira, deve ganhar força e se tornar um furacão no Golfo do México nesta semana, com possibilidade de atingir o Texas, perto da costa da Louisiana. O prefeito pediu para que as pessoas remanescentes na cidade partam agora ou que pelo menos "fiquem preparadas" para evacuar até quarta-feira, dependendo do trajeto da tempestade.

Os termos da evacuação não ficaram plenamente claros. O prefeito disse que a margem leste da cidade, que inclui bairros históricos com o Bairro Francês assim como a maioria daqueles destruídos pela inundação, ainda estavam sob a ordem de evacuação obrigatória que ele emitiu antes do furacão Katrina. Mas ele disse que as pessoas que ainda permanecem naquelas áreas ainda não seriam forçadas a partir.

O prefeito, assim como a governadora Kathleen Babineaux Blanco, disseram que ônibus estarão preparados para a evacuação daqueles que precisarem de transporte. A governadora disse que mais detalhes do plano de evacuação estarão disponíveis nesta terça-feira.

Em Algiers, uma área do outro lado do Rio Mississippi que não foi inundada, ele pediu aos moradores que "fiquem preparados para evacuar até a manhã de quarta-feira". O pedido de evacuação foi emitido apenas horas depois de a cidade ter oficialmente começado a autorizar a volta dos moradores para a área. Ele foi o primeiro grande bairro da região de Nova Orleans, com cerca de 60 mil habitantes antes da tempestade, a ser reaberto para os moradores.

A notícia de uma nova evacuação potencial foi recebida com alguma aceitação, alguma resistência e muita frustração em Algiers.

Após uma longa viagem de carro de Pensacola, Flórida, Roy McGinnis estacionou sua Dodge Caravan na Magellan Street, finalmente em casa.

"Eu não agüento outra evacuação", disse Magellan, 59 anos. "Eu tenho meus netos comigo. Toda minha família está comigo. Nós ainda nem superamos a primeira tempestade. Nós estivemos na estrada. Não podemos voltar para a estrada."

Outros se mostravam menos desafiantes. Diane Craik, uma corretora de imóveis que ficou em San Diego durante o furacão Katrina, brincou de forma um tanto séria sobre se mudar de vez para a Califórnia.

"Se eles mandarem evacuar, nós partiremos", disse Craik. "É loucura. São apenas coisas. Eu não vou permanecer aqui apenas por um amontoado de coisas."

O número de mortes provocadas pelo furacão Katrina na Louisiana subiu de 646 para 737 na segunda-feira.

Barragens derrubadas

Na tarde de segunda-feira, um policial de Nova Orleans, na Interestadual 10, estava ordenando a todos os moradores que voltavam a Nova Orleans que dessem meia-volta, devido à ameaça de tempestade. Apenas empreiteiros e membros da mídia eram autorizados a entrar, disse o policial, Gus James.

Algumas áreas mais baixas da cidade, próximas do Lago Pontchartrain, continuam debaixo d'água. "Se passar de sete centímetros haverá inundação", disse o coronel Terry J. Ebbert, chefe de segurança interna da cidade, se referindo às precipitações da tempestade.

"O verdadeiro problema", ele disse, citando a debilidade das barragens, "são as ondas da tempestade".

O Corpo de Engenheiros do Exército alertou há vários dias que o sistema reparado de barragens que cerca a cidade, grande parte dela abaixo do nível do mar, não a protegerá de outro furacão, ou mesmo de uma forte tempestade.

"Inicialmente, quando a tempestade as atingiu, nós achávamos que elas poderiam estar em condições melhores", disse Eugene A. Pawlik, um porta-voz do Corpo. "Nós não tivemos a oportunidade de realizar uma inspeção plena das barragens." Agora, ele disse, está claro que a cidade "não pode suportar um golpe mais forte".

O Corpo constatou que muitas áreas de barragens que foram "superadas" são significativamente mais baixas do que suas alturas projetadas. E alguns trechos de barragens, incluindo aquelas ao longo do canal do Golfo do Rio Mississippi, ruíram inteiramente, de alturas originais de 5 metros para "quase a altura do chão", disse Pawlik.

Nos próximos meses, o Corpo planeja trabalhar em três fases: o fechamento das aberturas nas barragens, a reconstrução das barragens na mesma altura que tinham antes, e a devolução das barragens à força estrutural que tinham antes de serem atingidas pela tempestade. O Corpo planeja concluir a terceira fase até junho, quando terá início a temporada de furacões de 2006.

O prefeito, ao ser indagado se a prefeitura poderia trazer os moradores de volta em segurança em algum ponto do futuro próximo, ciente de que a temporada de furacões não termina até 30 de novembro, disse que a prefeitura retomará de alguma forma seu programa de retorno gradual após a fim da ameaça da nova tempestade.

Ele enfatizou que o programa não era destinado a todos, já que a cidade ainda não dispõe de escolas abertas e transporte público.

"Eu acho que podemos, já que não estamos encorajando a volta de crianças e idosos e desde que os que voltem sejam moradores com mobilidade", disse ele. "Eu acho que é possível. Nós precisamos do retorno de um cidadão bastante flexível. E eu acho que nossos cidadãos são inteligentes o suficiente para entender a diferença."

Mark Smith, um porta-voz do Escritório de Segurança Interna e Preparação para Emergência da Louisiana, disse que o pessoal de emergência também terá que ser evacuado se a nova tempestade vier na direção de Nova Orleans.

Ele disse que cerca de 16 mil soldados do Exército e da Guarda Nacional estão em Nova Orleans, assim como milhares de operários que trabalham para a Agência Federal de Administração de Emergência, seus funcionários e outros agentes de ajuda humanitária.

Nagin disse que a presença federal na cidade prova o quão segura está Nova Orleans após os saques e violência que marcaram os primeiros dias após a passagem do furacão Katrina. Mas ele também tem resistido a uma intervenção federal.

Notando que Allen, da Guarda Costeira, pediu aos moradores da cidade que não voltassem, disse o prefeito. "O almirante é um bom homem. Eu o respeito. Mas quando ele começa a se dirigir aos cidadãos de Nova Orleans, isto está fora da alçada dele. Só há um prefeito de Nova Orleans e sou eu."

*Com a colaboração de Michael Brick, em Nova Orleans; Tim Williams, em Baton Rouge, e John Schwartz. Moradores que haviam voltado a suas casas terão de partir de novo George El Khouri Andolfato

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