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21/09/2005

Computador substitui lápis e faz Disney renascer

The New York Times
Laura M. Holson

Em Burbank, Califórnia
No dia 4 de abril de 2003, Glen Keane, um dos realizadores de desenhos animados mais respeitados da companhia Walt Disney, convidou cerca de cinqüenta dos seus colegas a comparecer a uma sala de conferência no terceiro andar da sede da empresa, aqui em Burbank, para discutir a guerra interna que vinha se alastrando nos estúdios. Os desenhistas de animação da Disney estavam separados em dois campos opostos que estavam se enfrentando: de um lado, os que tinham habilidade na elaboração de animação computadorizada, e de outro, aqueles que se recusavam a abrir mão dos seus lápis.

Disney Enterprises/The New York Times 
Wilbur Robinson é Lewis, menino gênio do futuro em "Meet the Robinsons", lançamento previsto para 2006
Keane, um veterano de 31 anos que criou a fera de "A Bela e a Fera" e Ariel de "A Pequena Sereia", era um tradicionalista da Disney. Mas, após ter realizado uma série de experiências para verificar se ele conseguiria criar uma bailarina animada por meio da computação gráfica, ele suavizou suas reticências.

Então, ele convidou os cinqüenta desenhistas de animação da companhia para discutir os prós e os contras de ambas as formas de arte, e intitulou o seu seminário de: "O melhor dos dois mundos".

Durante uma hora, Keane analisou meticulosamente as vantagens e os inconvenientes de cada técnica enquanto os outros desenhistas ouviam em silêncio. Depois disso, alguns deles arriscaram perguntas, mas uma discussão ríspida logo tomou conta da platéia.

Os desenhistas começaram a gritar uns contra os outros. Alguns defendiam a idéia de que os computadores não deveriam substituir as pessoas, enquanto outros diziam estar com medo de se verem forçados a voltar a desenhar manualmente.

Numa recente entrevista, Keane recordou-se de que Kevin Geiger, um diretor de animação computadorizada, certa vez o enfrentou, exigindo sua resposta à seguinte pergunta: "Sabemos que você pode muito bem realizar todas essas coisas legais às quais você se refere --que você quer ver adquirir vida por meio da animação-- mas, se para tanto você tivesse que aceitar desistir dos seus lápis, você o faria?". Keane hesitou antes de responder: "Estou nessa".

Três semanas depois, os desenhistas de animação da companhia foram informados de que a Disney passaria a concentrar suas atividades na realização de filmes de animação computadorizada, abandonando assim a tradição antiga de 70 anos do desenho feito a mão em favor de um estilo mais atual que havia sido popularizado por rivais mais novos e bem-sucedidos tais como os estúdios de animação Pixar e a DreamWorks Animation.

Disso resultou uma autêntica revolução cultural no estúdio que construíra a sua fama com os clássicos desenhos animados a mão encampados pelo seu fundador Walt Disney, tais como "Branca de Neve e os Sete Anões" e "Peter Pan".

No próximo dia 4 de novembro, cerca de dois anos e meio depois daquela decisão, a Disney vai lançar "Chicken Little" (no Brasil, "O Galinho Chicken Little"), o primeiro de uma seqüência de quatro filmes de animação computadorizada que vêm sendo desenvolvidos no estúdio desde a sua recente reorganização.

A companhia espera que este filme, junto com alguns outros tais como "Meet the Robinsons" (que pode ser traduzido como "Conheçam os Robinsons"), "American Dog" ("Cão Americano") e "Rapunzel Unbraided" ("Rapunzel Desentrançada"), este último sendo dirigido pelo próprio Glen Keane, conduzirão uma Disney revigorada de volta à sua glória passada.

Entretanto, o que está de fato em jogo na sua busca pelo sucesso é muito mais do que o orgulho. Numa certa época, a animação era o coração da Disney, um salva-vidas lucrativo que alimentou as divisões de parques temáticos, de livros e de vídeos da companhia. E reanimar os seus lucros é tão essencial para a Disney nos dias atuais quanto recuperar a sua reputação histórica.

Na semana passada, a companhia anunciou uma previsão de perdas para o seu estúdio no montante de US$ 300 milhões (R$ 688,11 milhões) no quarto trimestre, que ela atribuiu ao desempenho pífio de sua divisão de filmes de ação (Touchstone Pictures).

No balanço geral, a Disney Co. obteve um lucro líquido de US$ 2,27 bilhões (cerca de R$ 5,2 bilhões) nos três primeiros trimestres do ano fiscal de 2005 graças ao bom desempenho de sua rede de televisão, a ABC, e da ESPN, o seu canal de esportes por assinatura.

"De um ponto de vista psicológico, `O Galinho Chicken Little' é muito importante para a Disney", explica Hal Vogel, um jornalista especializado em análise financeira que cobriu a Disney durante anos. "Tudo nesta companhia está ligado aos desenhos animados e se eles não se atualizarem, é o conjunto da atividade que acaba definhando".

Os números do "box office" (bilheteria) dão uma idéia precisa da gravidade da derrocada financeira. O estúdio Disney alcançou o ápice da sua mais recente popularidade com o lançamento em 1994 de "O Rei Leão", que lhe proporcionou uma receita de US$ 764,8 milhões (R$ 1.752,38 bilhão), somados os ingressos vendidos no mundo inteiro.

Em contrapartida, os nove últimos longas-metragens de animação que a Disney ora produziu, ora adquiriu renderam apenas US$ 758.3 milhões (R$ 1.738,62 bilhão), todos eles somados. Por sua vez, "Os Incríveis", um filme de 2004, criado pela Pixar, rendeu uma receita de US$ 630 milhões (R$ 1,445 bilhão), ou seja, praticamente a mesma quantia que os oito últimos filmes de animação da Disney somados.

Portanto, não foi nenhuma surpresa quando Keane resolveu tomar uma atitude e pronunciou o seu discurso inflamado em 2003, uma vez que a Disney se encontrava no auge de uma grave crise de identidade. A companhia precisava então reinventar a si própria --ou definhar de uma vez por todas.

"Todos nós aqui nos sentimos particularmente satisfeitos com o que acabamos de realizar; é como se o champanhe estivesse jorrando de uma fonte d´água: ao que tudo indica, nós vamos botar para quebrar", disse Mark Dindal, o diretor de "O Galinho Chicken Little", durante uma entrevista realizada em agosto passado, que também incluiu os diretores de três outros projetos de longas de animação que a Disney está produzindo atualmente.

Mas a competição no campo dos filmes de animação está hoje mais acirrada do que nunca. Ela está também carregada com doses de rivalidade fratricida suficientes para fazer enrubescer as cunhadas malvadas em "Cinderela".

Em primeiro lugar, há o caso de Jeffrey Katzenberg, que deixou a Disney em 1994 depois de uma briga com o diretor geral, Michael D. Eisner, para se tornar um dos fundadores da DreamWorks SKG. A principal filial desta produtora, o estúdio de animação DreamWorks, é hoje um dos rivais os mais ferozes da Disney.

Além dele, há Steven P. Jobs, o fundador da Apple Computer e diretor geral da Pixar que deu uma "espinafrada" na Disney no ano passado, chamando suas continuações de longas de animação de "embaraçosas".

Jobs também teve uma briga com Michael Eisner, apesar do fato de as duas companhias terem sido parceiras desde 1991 (o acordo havia sido intermediado por Katzenberg). Foi apenas recentemente que Steven Jobs consentiu retomar as negociações com a Disney visando a filmar um novo contrato de distribuição que teria início em 2007.

Com tal cenário em pano de fundo, está praticamente certo que "O Galinho Chicken Little" será um dos filmes mais dissecados da sua categoria, não apenas pelo público das salas escuras, mas também pelos investidores, os concorrentes e os demais colegas desenhistas de animação.

Tentativa de adivinhação

Aquela não foi a primeira vez que a Disney falhou. Quando Walt Disney morreu de um câncer no pulmão, em 1966, o estúdio foi tomado por uma espécie de paralisia, os desenhistas de animação tentaram adivinhar quais seriam os tipos de filmes que Disney teria realizado se ele estivesse vivo.

O estúdio lançou então uma série de filmes medíocres no decorrer dos anos 70 e no início dos 80, o que acabou frustrando jovens desenhistas de animação, tais como o diretor Tim Burton e John Lasseter --que criou "Toy Story" para a Pixar, onde ele é hoje o diretor de criação-- que deixaram a Disney.

Com isso, por volta de 1984, quando Jeffrey Katzenberg foi contratado pela Disney para supervisionar suas atividades com filmes e desenhos animados, o estúdio estava praticamente paralisado.

Graças a ele, a companhia operou uma verdadeira reviravolta, lançando desenhos animados que se tornaram importantes campeões de bilheteria, tais como "A Pequena Sereia", "A Bela e a Fera", "Aladdin" e, o mais famoso dentre eles, "O Rei Leão".

Mas, em 1994, no auge da ressurreição da Disney, Katzenberg demitiu-se porque Michael Eisner não quis nomeá-lo presidente da Disney. Naquele ano, ele contribuiu para a fundação da DreamWorks SKG, na qual ele implantou um estúdio de animação de sua propriedade.

Esta mudança colocou a Disney na defensiva. Os executivos da Disney afirmam que Katzenberg recorreu a muitos dos seus funcionários quando fez seu recrutamento, puxando os salários para cima. Além disso, o estúdio perdeu parte da sua centelha criativa depois da sua saída.

A Disney estava também enfrentando uma competição cada vez mais acirrada: em 1995, a Pixar lançou seu primeiro longa-metragem de animação inteiramente realizado por meio de computação gráfica, o estrondoso sucesso "Toy Story".

Em 1998, a divisão de filmes de animação da Disney havia inflado além do normal, chegando a 2.200 empregados, muito mais do que a companhia poderia suportar em termos financeiros, considerando que ela estava produzindo sucessos de bilheteria em quantidade muito menor.

Em 2001, a Disney começou a demitir desenhistas de animação e a fechar alguns dos seus estúdios. No final deste processo, dois empregados em cada três desta divisão perderam seu emprego, enquanto a Disney fechou seus escritórios em Paris, Orlando, na Flórida, e em Tóquio.

David Stainton parecia ser um candidato improvável para tornar-se o presidente da divisão de longas-metragens de animação da Walt Disney em 2003. No início dos anos 90, ele havia atuado na área do desenvolvimento de criação e, mais tarde, havia dirigido o estúdio da companhia em Paris.

Stainton, dono de um diploma de mestrado em administração de empresas (MBA) da Universidade Harvard, era mais conhecido por ter dirigido a divisão de filmes de animação para a televisão da Disney e por supervisionar os negócios da companhia com produtos "direct-to-video" (filmes destinados apenas ao mercado do vídeo, que não passam pelo cinema nem pela televisão) e com as continuações de filmes, ambos os quais eram lucrativos, mas careciam do apelo sexual dos filmes teatrais originais.

Stainton, que se tornou o terceiro diretor da divisão de animação da Disney em tantos anos de existência da companhia, não estava preparado para a confusão com a qual ele teria de lidar logo na sua primeira semana no cargo.

Ele contou ter sido alertado então de que o filme "My Peoples", uma história de amantes malditos que combina ação de cinema tradicional com animação gráfica, precisava ser revisto. Em contrapartida, disseram-lhe que o longa-metragem de animação gráfica "O Galinho Chicken Little" tinha tudo para emplacar.

"Eu estava sentado ali, na sala de projeção, assistindo a este último e pensei: `Oh, meu Deus! O que vou fazer agora?"', recordou Stainton, que tem 43 anos, numa entrevista no seu escritório, no mês passado. "Então é este, o filme que vai dar certo? Sinceramente, naquela hora eu quase comecei a chorar".

Stainton cancelou o projeto "My Peoples". Já para "Chicken Little", Stainton contou ter dito a Dindal, o diretor que vinha trabalhando no projeto desde 2001, que o roteiro jamais funcionaria: era sobre uma jovem garota que decidiu partir para uma colônia de féria de verão, com o objetivo de consolidar sua confiança nela mesma, de modo a não reagir de maneira excessiva.

"Ele foi direto à ferida e simplesmente arrancou o esparadrapo", disse Dindal, descrevendo a conversa que ele tivera com o seu novo patrão. "Esse é o estilo dele".

Dindal afastou-se durante três meses e revisou o script, transformando o roteiro de "Chicken Little" na história de um menino que tenta salvar sua cidade de uma invasão de alienígenas vindos do espaço.

No mesmo momento, Stainton estava analisando o que fazer com a situação de conflito entre os dois campos de desenhistas de animação da Disney: os "tecnológicos" e os tradicionalistas. Ao ser contratado, contou Stainton, tanto Eisner como Richard Cook, o presidente dos estúdios Walt Disney, lhe disseram que eles queriam que os filmes da Disney fossem mais mordazes e argutos, que eles sejam comédias contemporâneas produzidas com computação gráfica, dotadas de um elemento dramático (em outras palavras, explicou um executivo da Disney, mais na linha de "Shrek", a produção dos estúdios DreamWorks).

Mas Stainton contou estar ciente de que ele precisava de um desenhista de animação influente ao seu lado se ele quisesse ter sucesso na sua empreitada. "Eu tive uma espécie de intuição de que seria preciso contar com artistas para convencer outros artistas de que aquilo era algo viável", contou.

Então, em fevereiro de 2003, um mês após ter sido contratado, ele reagiu de maneira entusiasmada quando Keane se reuniu com ele e Eisner para apresentar seis cenas desenhadas à mão para "Rapunzel Unbraided", uma história de amor reconfortante baseada num conto de fadas. Stainton e Eisner explicaram a Keane que eles aprovariam o filme, mas com uma única condição: o desenho animado teria que ser feito com computação gráfica. Então, Keane empacou.

Stainton contou que ele lhe respondeu: "Glen, eu não estou lhe pedindo para fazer um filme com humanos que se pareçam com os personagens de 'Final Fantasy'", referindo-se às figuras rígidas e estranhas que povoam o malogrado filme de computação gráfica de 2001. "Estou lhe pedindo --e sei que não existe nada parecido por aí-- estou lhe pedindo para criá-lo do nada. Você precisa criar algo novo".

"Eu adorei `Shrek'", respondeu Keane. Mas os personagens, em particular o da princesa Fiona, lhe pareciam ser de plástico. "Cada quadro daquele filme havia sido mal desenhado, em minha opinião", disse.

Aproximação dos tradicionalistas

Quando a notícia desta reunião se espalhou, os artistas tradicionais se aproximaram de Keane. "Toda vez que eu passava pelo saguão da entrada, esbarrava numa dezena de pessoas diferentes que me diziam: `Nós estamos rezando por você'", contou Keane.

Mas, quer "Rapunzel Unbraided" fosse ou não realizado, ele oferecia uma forma politicamente vantajosa para Stainton de forçar a instauração de um diálogo. Então, em 4 de abril, Keane deu início ao seu seminário intitulado "O Melhor de Dois Mundos".

Mais tarde, no final daquele mês, foi a vez de David Stainton arremessar outra granada. Este explicou para 525 empregados reunidos numa sala da prefeitura que os estúdios Disney iriam parar de produzir desenhos animados feitos manualmente num futuro próximo. Todos aqueles interessados em animação computadorizada poderiam assinar um contrato de reciclagem profissional cujo estágio teria duração de seis meses.

"O que eu estava lhes dizendo era: `Ou vocês abraçam este oportunidade, ou em breve não haverá mais lugar para vocês neste empresa'", contou Stainton.

Este anúncio em nada contribuiu para apaziguar os dois campos em guerra. Alguns tradicionalistas se recusaram a sentar diante de um computador na hora do almoço, contaram executivos da Disney. Eles foram expor suas queixas a Roy E. Disney, que era então o diretor da divisão de animação do estúdio e um membro do conselho da Disney, mas este estava envolvido na sua própria batalha com Eisner, pois ele havia jurado desalojá-lo do seu cargo de diretor da companhia.

"A tensão e a frustração eram tão intensas e palpáveis que parecia ser impossível falar sobre o assunto de maneira civilizada, sem que as pessoas ficassem zangadas", contou Keane. Então, no outono daquele ano, os desenhistas de animação da Disney se reuniram novamente para tentar resolver suas divergências, desta vez num território neutro, na biblioteca Huntington em San Marino, Califórnia.

Stainton ainda tinha filmes por fazer. Foi assim que ele deu o sinal verde para a realização de "American Dog" e de um outro filme, "Meet the Robinsons", a história de um menino adotado que inventou uma máquina do tempo; este seria dirigido por Steve Anderson. É claro, "O Galinho Chicken Little" ainda precisava ser concluído.

Mark Dindal contou ter descartado 25 cenas. Além de contar com os três roteiristas do filme oficialmente creditados, ele recorreu a seis outros criadores que o ajudaram a desenvolver os personagens. O diretor organizou nove projeções com crianças e pais de família. Além disso, ele contou ter recebido o que parecia ser "milhares e milhares" de notas enviadas por Stainton, visando a tornar o filme mais engraçado.

Dindal recorda-se de uma projeção na qual ele realizou uma apresentação visando a destacar os principais pontos do filme, para um grupo de 125 desenhistas de animação. "Eu disse a todos eles: 'vocês podem emitir todos os comentários que quiserem, mas peço-lhes que esses comentários digam respeito efetivamente a este filme e ao que nós estamos tentando fazer. São esses comentários que esperamos de vocês e que serão realmente úteis", contou.

Agitação do lado de fora

Mas, a mesma agitação que havia tomado do estúdio também era palpável do lado de fora. Em novembro de 2003, Roy Disney se demite do conselho após ser informado de que ele seria convidado a se retirar na próxima eleição deste mesmo conselho. Embora Disney não tivesse passado muito tempo na sede da companhia, ele era a imagem pública do estúdio de animação da Disney e criticava Eisner pelas falhas do estúdio.

Stainton contou que Eisner apoiava as mudanças que ele vinha introduzindo. "Aquele rolo todo entre Roy e Michael chamava muito a atenção", acrescentou Stainton, "e diante disso, a nossa capacidade de nos concentrar nos problemas e simplesmente fazer nosso trabalho sem nos envolver nessa briga, foi realmente útil".

O estúdio de animação da Disney sofreu outro golpe em 29 de janeiro de 2004, quando Steven Jobs anunciou que a Pixar encerraria as negociações com a Disney que visavam a dar continuidade à sua parceria de 14 anos, e que ela estava procurando um concorrente para distribuir seus filmes depois do lançamento do próximo filme da Pixar, "Cars".

Seis dias mais tarde, Jobs criticou os desenhistas de animação da Disney, declarando perante analistas de Wall Street que os filmes da Disney, "Planeta do Tesouro" e "Irmão Urso" eram bombas e chamando as continuações de filmes que o estúdio havia produzido de "embaraçosas".

"Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido conosco", disse Richard Cook, o presidente dos Estúdios Walt Disney. Semanas mais tarde, Cook reuniu-se com os desenhistas de animação e lhes disse que estava na hora de tomar as providências necessárias para fazer grandes filmes.

"Nós precisávamos voltar para os trilhos e tornar a ser competitivos", contou. "Eles sabiam disso. Todos estavam fartos de ver os concorrentes baterem na Disney; não agüentavam mais isso. A única maneira de pôr fim em tudo isso era vencer. E nós começamos a nos concentrar exclusivamente nessa meta".

Para quem tiver qualquer dúvida quanto ao fato de a Disney ter sobrevivido à ruptura com a Pixar, os eventos subseqüentes viriam desfazer esta impressão: Em junho passado, a Disney provocou um tumulto durante o maior congresso da indústria da animação computadorizada em Los Angeles, quando ela exibiu um grande cartaz na fachada do seu estande, que dava de frente com o da Pixar --anunciando a pré-produção de "Toy Story 3". Jobs havia tentado fazer este filme, mas Eisner disse não quando Jobs quis incluí-lo entre os cinco que a Pixar devia à Disney como parte do seu contrato de parceria.

Para todos os observadores, aquele era um gesto de provocação que mostrava que a Disney estava preparada para seguir em frente sozinha ("O fato de este cartaz estar bem na frente do estande da Pixar não era intencional, eu juro", garantiu Stainton, deixando escapar um sorriso maroto de menino que acaba de aprontar uma).

Mas aquele anúncio era também parte de uma campanha institucional de maior vulto que visava a mostrar que a Disney ainda era uma companhia viável. A Disney estava entrevistando novos recrutas, exibindo uma nova tecnologia e organizou até mesmo uma festa, da qual participaram 200 pessoas, na cobertura do Standard, um hotel em Hollywood.

"Nós precisamos mostrar para as pessoas que estamos de volta à luta, que nós estamos na linha de frente, realizando coisas extremamente avançadas, coisas que são interessantes e que todo mundo vai achar lindas", disse Stainton.

"No ano passado, algumas pessoas nos disseram: `Eu não tinha idéia de que vocês estavam mesmo trabalhando em projetos'... Eu juro por Deus. As pessoas realmente achavam que a Disney havia fechado suas portas".

Tanto Steven Jobs quanto Robert A. Iger, o novo presidente da Disney, que se tornará o seu diretor executivo em 1º de outubro têm mostrado um otimismo cauteloso em relação à perspectiva de ver um novo acordo de parceria entre a Pixar e a Disney ser firmado, o qual irá consolidar aquilo que tem sido um relacionamento duradouro e lucrativo. Mas isso não resolverá todos os problemas da Disney.

Em 1995, seis filmes de animação apenas foram lançados, metade dos quais foi produzida pela Disney, segundo a companhia. Em contrapartida, cerca de vinte novos filmes de animação têm previsão de lançamento no decorrer dos dois próximos anos, três dos quais serão da Disney. Isso levou alguns analistas de Wall Street a sugerir que, à medida que os filmes de animação se tornarem produções cada vez mais correntes, eles não mais proporcionarão os enormes lucros que os estúdios haviam obtido deles no passado.

Já neste ano, tanto a DreamWorks quanto a Pixar registraram lucros maiores do que o esperado das vendas de DVDs no varejo, o que sugere que a demanda dos consumidores havia diminuído. Neste contexto, a pirataria se tornou uma preocupação importante, mas as produtoras de filmes ainda não encontraram uma forma de combatê-la.

Além disso, os estúdios podem acabar entrando em rota de colisão com os proprietários de salas de cinema caso eles continuarem insistindo em distribuir seus filmes simultaneamente em DVD e no circuito de salas.

Mas o principal desafio que a Disney vai precisar superar é a noção de que, no que diz respeito ao campo da animação, muitos espectadores podem ter perdido sua confiança na Disney. É claro que hoje, os desenhistas de animação da companhia têm mais elementos em comum com os seus predecessores do que os seus concorrentes da Pixar e da DreamWorks.

Quando os desenhistas de animação criaram "Branca de Neve e os Sete Anões", o primeiro filme para o cinema criado pelo estúdio, em 1937, as pessoas se referiam a ele como sendo a "a loucura da Disney" antes mesmo do seu lançamento.

"Qual era o tamanho da sua fome?", pergunta Dindal, referindo-se aos desenhistas que criaram "Branca de Neve". "É muito mais interessante estar trabalhando num lugar onde todos estão com fome, motivados com alguma coisa; em oposição a estarem bem nutridos". Estúdio precisou se reinventar para enfrentar concorrência acirrada Jean-Yves de Neufville

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