UOL Notícias Internacional
 

22/09/2005

Ajuda internacional pode derrubar preço de produtos agrícolas e ampliar fome no Níger

The New York Times
Natasha C. Burley

Em Niamey, Níger
As imagens que chegam desta paupérrima nação do oeste da África têm sido constantemente cruéis: crianças famintas com braços finos como varetas e barrigas inchadas, e mães carregando bebês por centenas de quilômetros em busca de comida, depois que colheitas fracas e altos preços tornaram impossível a aquisição de alimentos. Poucos meses atrás, essas imagens motivaram uma enxurrada de ajuda alimentar de doadores do Ocidente.

Mas agora, após uma boa temporada de chuvas, os agricultores do Níger estão produzindo uma ótima safra de painço, o alimento básico nacional do país. Isto deveria ser motivo para regozijo, mas em uma das distorções que fazem com que a vida nos países mais pobres do mundo seja peculiar, a ajuda cujo objetivo é salvar vidas poderá arruinar a colheita para vários agricultores do Níger, ao empurrar os preços para baixo.

O painço recém-colhido e os alimentos doados chegarão às prateleiras simultaneamente, e, devido aos preços irrisórios, as famílias pobres de agricultores poderão ser obrigadas a vender estoques geralmente reservados para o seu próprio consumo, a fim de pagarem as dívidas.

O médico Edward Clay, pesquisador do Instituto de Desenvolvimento no Exterior, uma organização independente de pesquisa com sede em Londres, disse em uma mensagem enviada por e-mail: "Devido ao atraso no recebimento da comida doada, existe o risco real de que, quando esses alimentos chegarem, isto atrapalhe a recuperação do Níger e distorça o comércio agrícola na África Ocidental".

O painço é cultivado por quase todos os agricultores do país, mas a cultura se tornou um dos principais fatores que conspiram contra o povo do Níger, e que favorecem a desnutrição e a fome. Um parente distante do milho, o painço é uma cultura resistente, mas praticamente não contém proteínas ou outros nutrientes essenciais às crianças, e precisa ser pilado durante horas para que se torne comestível. A maior parte das famílias que dependem do painço mal consegue sobreviver de ano para ano.

Amadou Hassane, um plantador de painço de uma região ao norte de Niamey, começou a colher no seu terreno um pouco do produto para o consumo da família. "É maravilhoso poder entregar painço a minha mulher para que ela possa pilá-lo", diz ele com orgulho. "Este promete ser um ano de abundância, e estamos agradecidos".

Hassane planeja vender grande parte da sua colheita para o pagamento de dívidas contraídas com a compra de sementes, depois que a seca do ano passado devastou os pés de painço, não deixando nada que ele pudesse comercializar. "Ficarei apenas com a metade da minha produção para o meu consumo, e venderei o resto para pagar as minhas dívidas", explica Hassane. "Preciso demais de dinheiro".

Como ele, a maior parte dos outros agricultores da vila lamacenta de Fala tomou dinheiro emprestado e terá que vender grande parte da sua colheita caso os preços caiam.

Para sobreviver ao período da entressafra, Hassane se envolveu com uma espécie de mercado futuro, tomando dinheiro emprestado e dando, como garantia, a sua próxima colheita, de forma que pudesse adquirir sementes.

Sani Laoualy, pesquisador do governo, diz que o painço começou a chegar aos mercados de todo o país em quantidades notáveis nas duas primeiras semanas de setembro, e que os preços começaram a baixar.

"Em média, os preços caíram 14% entre sete e 14 de setembro", afirma. "E eles despencarão rapidamente nas próximas seis semanas".

O escritório Programa Mundial de Alimentos em Niamey concluiu a sua primeira operação de distribuição de alimentos em 15 de setembro e agora se concentra na "distribuição focada nas zonas mais afetadas, que será concluída até 15 de outubro", de acordo com Marcus Prior, porta-voz do programa na África Ocidental. Mas essas zonas, no sudeste úmido do Níger, são as áreas nas quais as colheitas são as mais promissoras, e onde centenas de hectares de plantações de painço estão agora na fase da colheita.

As tensões estão aumentando entre os doadores no Níger, à medida que as autoridades e organizações pedem a interrupção da distribuição de alimentos, por temerem que o auxílio derrube os preços da produção dos agricultores locais. Trinta toneladas de alimentos, que serão trazidos de caminhão dos vizinhos Benin e Togo, ainda estão por chegar ao Níger, mas Gian Carlo Cirri, representante do Programa Mundial de Alimentos no Níger, insiste em dizer que essa distribuição pode ser feita antes de 15 de outubro.

"O processo de colheita não ocorre em um só dia, e temos tempo", afirma Cirri. Se a rede de distribuição se mostrar incapaz de colocar os alimentos à disposição do povo até aquela data, o governo nigerino e a Organização das Nações Unidas implementarão planos para repor a reserva nacional de cereais.

A maior parte das organizações internacionais de auxílio resiste à idéia do Programa Mundial de Alimentos no sentido de continuar distribuindo as doações até meados de outubro, devido ao impacto que tal iniciativa teria sobre os mercados locais, embora os Médicos sem Fronteiras queiram que a distribuição continue, já que ainda há muita gente precisando de comida.

"As pessoas encarregadas da distribuição têm a responsabilidade de monitorar os preços e precisam estar preparadas para interromper as doações caso os preços dos alimentos caiam demais", insiste Jeremy Lester, representante da União Européia no Níger.

"Esta é uma resposta emergencial a um problema crônico", afirma Lester, referindo-se à distribuição dos alimentos doados. "E, à medida que respostas como esta prosseguem, elas freqüentemente criam tantos problemas quanto aqueles que são resolvidos: os mais pobres terão que continuar vendendo barato e comprando caro". As doações concorreriam com a produção de pequenos agricultores Danilo Fonseca

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