UOL Notícias Internacional
 

22/09/2005

Nova regra do Vaticano proíbe gay de ser padre

The New York Times
Ian Fisher, em Roma, e

Laurie Goodstein em Nova York
Os homossexuais, mesmo aqueles que praticam o celibato, serão impedidos de se tornarem padres da Igreja Católica Romana, disse uma autoridade da Igreja na quarta-feira (21/09), segundo regras mais rígidas que serão anunciadas sobre uma das questões mais sensíveis enfrentadas pela Igreja.

A autoridade disse que a questão não é sobre se será publicada, mas sim quando, se referindo à nova regra sobre homossexualidade nos seminários católicos, um assunto que tem provocado muito rumor e preocupação recentemente na Igreja. A autoridade, que tem conhecimento das novas regras, falou sob a condição de anonimato devido à política da Igreja de não comentar sobre assuntos não publicados.

Ele disse que apesar do papa Bento 16 ainda não ter assinado o documento, ele provavelmente será anunciado nas próximas seis semanas.

Além do novo documento, que se aplicará à Igreja em todo mundo, os investigadores do Vaticano foram instruídos a visitar cada um dos 229 seminários nos Estados Unidos.

Apesar do trabalho no documento ter começado anos atrás, sob o papa João Paulo 2º, que morreu em abril, seu anúncio será um ato definidor no jovem papado de Bento 16, um conservador que disse na última primavera que havia a necessidade de "purificar" a Igreja após os escândalos sexuais profundamente danosos dos últimos anos.

A autoridade da Igreja disse que a proibição se restringirá apenas aos candidatos ao sacerdócio, não àqueles já ordenados. Ele também disse que o documento não representa nenhuma mudança ideológica da Igreja, cujo catecismo considera a homossexualidade "objetivamente desordenada".

Apesar do documento ainda não ter sido divulgado, indícios do que dirá já estão ganhando elogios por parte de alguns católicos, que argumentam que tal medida é necessária para restaurar a credibilidade da Igreja e que notam que os ensinamentos da Igreja proíbem o sacerdócio a homossexuais, ativos ou não.

Mas outros católicos dizem que o teste deve ser o celibato, não a sexualidade congênita, e prevêem renúncias no sacerdócio que podem agravar a profunda escassez de padres na Igreja.

"Eu ouvi que alguns homens optarão por partir, porque se não o fizerem, seria como se estivessem vivendo uma mentira", disse o padre Robert Silva, presidente da Federação Nacional dos Conselhos de Padres Americanos, que é contra a proibição porque seria "extremamente prejudicial" para padres gays castos que estão servindo à Igreja.

Mas a autoridade da Igreja que discutiu as novas regras disse que o documento pede para o afastamento até mesmo de homens celibatários que se consideram homossexuais, pelo que argumentou serem as tentações específicas dos seminários.

"A diferença está na atmosfera especial do seminário", disse ele. "No seminário, você está cercado por homens, não mulheres."

A questão da homossexualidade no sacerdócio e nos seminários há muito tempo tem sido difícil, e o Vaticano parece a estar abordando, particularmente nos Estados Unidos, em duas frentes aparentemente ligadas.

As visitas aos seminários americanos cobrem um amplo espectro de preocupações, mas entre aquelas que os investigadores estarão avaliando está a "evidência de homossexualidade" e se os seminaristas estão devidamente preparados para viver de forma celibatária. Tanto o documento quanto a investigação estão sob autoridade da Congregação para a Ensino Católico do Vaticano.

Juntos, o documento e as visitas parecem visar impor um padrão mais rígido tanto sobre a atmosfera dos seminários quanto sobre quem aceitarão como candidatos ao sacerdócio.

O arcebispo J. Michael Miller, o secretário da congregação, notou em uma reunião em Baltimore, na semana passada, com mais de 100 bispos, padres e leigos que as novas regras não são uma surpresa, devido à existência de um documento do Vaticano proibindo o sacerdócio aos homossexuais, segundo duas autoridades da Igreja que falaram sob a condição de anonimato porque sentiam que poderia haver repercussões se falassem oficialmente.

O arcebispo Miller parecia estar se referindo a um documento de 1961 que recomendava a não ordenação de qualquer um que tenha "inclinações perversas à homossexualidade ou pederastia".

Mas tal documento vinha sendo ignorado pelos seminários nos Estados Unidos há muitos anos. Apesar das práticas variarem, nos últimos anos a maioria dos seminários americanos não tem rejeitado candidatos com orientação homossexual, disseram autoridades de seminários.

Em vez disso, elas tentam avaliar caso a caso se o candidato é capaz de viver de forma casta e celibatária, freqüentemente rejeitando candidatos que foram sexualmente ativos nos anos que antecederam a decisão de buscar o sacerdócio.

Mas muitos gays entraram no sacerdócio e eles são cada vez mais francos com seus colegas, seus bispos e, em alguns casos, mesmo com seus fiéis sobre sua orientação sexual. O padre Donald Cozzens, um ex-reitor de seminário americano, argumentou há cinco anos em seu livro "A Face Mutante do Sacerdócio" que "o sacerdócio é ou está se tornando uma profissão gay".

James Hitchcock, um católico conservador e professor de história na Universidade de Saint Louis, disse que alguns seminários chegaram ao ponto de serem "abertamente receptivos a homossexuais" e "nem mesmo considerarem a castidade necessária".

"Em tal ambiente --e então você acrescenta a isto os escândalos de pedofilia-- provavelmente o Vaticano acha que um remédio mais forte é necessário para uma desordem séria", disse Hitchcock, que disse que mesmo assim prefere um sistema que permita que casos raros sejam decididos individualmente.

De fato, o grau de exceção que as novas regras permitirão parece ser a principal questão. Parece claro que as regras serão bem mais restritivas do que a prática atual.

No que muitos especialistas consideraram como indício das novas regras, o arcebispo que liderará as visitas aos seminários foi citado na semana passada pelo "The National Catholic Register" como tendo dito que mesmo homossexuais não ativos sexualmente por uma década ou mais não devem ser aceitos nos seminários.

Mas a autoridade da Igreja disse que as regras não são absolutas. A própria definição de homossexualidade, ele disse, não é determinada. E pode haver alguns casos raros em que o candidato a seminarista que está confuso sobre sua sexualidade poderá ser aceito, se a Igreja decidir que ele poderá se tornar um padre celibatário, adequado.

"Há espaço para isto", disse ele.

Ainda assim, o padre Silva da Federação dos Conselhos de Padres e três outras autoridades da Igreja, que falaram sob a condição de anonimato por temerem a possibilidade de serem afastadas de seus cargos por revelarem a dissensão dentro das fileiras da Igreja, disseram que vários líderes influentes da Igreja americana tentaram persuadir as autoridades do Vaticano a não anunciarem o documento sobre os seminaristas gays, pois poderia criar mais problemas no sacerdócio do que soluções.

"As pessoas farão o que costumavam fazer, que era não serem honestas", disse um padre americano gay e professor de uma faculdade católica, que não quis ser identificado por temer a possibilidade de perder sua posição na Igreja caso sua orientação sexual seja conhecida.

"A ironia é, se você olhar para as idades exatas e turmas de formandos dos padres que foram condenados por abuso sexual nos últimos anos, eles não fazem parte do grupo de pessoas que entrou nos seminários nos anos 80, quando começou a haver uma maior abertura sobre a homossexualidade", disse ele. "Aquelas eram pessoas dos tempos antigos enrustidos."

"Assim, o que a Igreja está fazendo é repetir, de uma forma bizarra, as condições anteriores que deram origem à crise de abuso."

Mas qualquer medida para proibição ou limitação de gays serem ordenados como padres provavelmente será popular entre os católicos conservadores. Alguns deles argumentam que os heterossexuais hesitam em entrar no sacerdócio por ouvirem que é predominantemente gay.

Mike Sullivan, da Católicos Unidos pela Fé, um grupo de defesa conservador, disse que seu grupo aprova a proibição porque a colocação de um homossexual em um ambiente de seminário totalmente masculino sujeita tal pessoa a tentação demais, e aumenta sua probabilidade de fracasso.

"Também não é apropriado colocar um alcoólatra em um bar", disse ele.

Na questão geral da homossexualidade, o ensinamento oficial católico, como explicado no catecismo, diz que apesar de algumas pessoas parecerem ter predileção pelo mesmo sexo, os atos homossexuais são ilícitos e os homossexuais devem permanecer castos.

Mas a Igreja também recomenda a compreensão, e em 1986, a Congregação pela Doutrina da Fé, chefiada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, o atual papa Bento 16, condenou a "suposição infundada e degradante" de que os homossexuais não podem controlar seu comportamento sexual.

Mas a autoridade da Igreja disse que esta tem o poder de tomar suas próprias decisões, com base na teologia, sobre quem é autorizado a ser padre, comparando a questão à das mulheres, às quais também é vetado o sacerdócio.

"Ser um padre não é um direito", disse ele. "A Igreja Católica nunca ordena alguém com base em direitos humanos." Homossexual em seminário é como alcoólatra em bar, diz religioso George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h29

    -0,20
    3,121
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,37
    64.938,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host