UOL Notícias Internacional
 

23/09/2005

Imenso congestionamento nas estradas atrapalha os esforços de evacuação no Texas

The New York Times
Ralph Blumenthal*

Em Houston, Texas
Atendendo a dias de alertas calamitosos sobre o furacão Rita, até 2,5 milhões de pessoas congestionaram as rotas de evacuação na quinta-feira (22/03), criando congestionamentos colossais de 160 quilômetros de extensão que deixaram muitas pessoas presas e sem gasolina à medida que a imensa tempestade se aproxima da costa do Texas.

Reconhecendo que "estar na estrada é uma armadilha", o prefeito Bill White pediu por ajuda militar para levar rapidamente combustível para os motoristas em dificuldades.

White e a mais alta autoridade de Harris County, o juiz Robert Eckels, reconheceram que seus planos não previam o volume de tráfego. Eles dizem que não pediram por tal evacuação em massa, apesar de um dia antes terem invocado o fantasma do furacão Katrina, dizendo aos habitantes que "o tempo de espera acabou".

As autoridades também pioraram as coisas para si mesmas ao anunciar a certa altura que usariam as faixas do sentido inverso de uma estrada para aliviar o fluxo de saída, apenas para depois abortar o plano, dizendo que não era viável.

As filas intermináveis de veículos partindo de Houston eram apenas um indício de quão seriamente as pessoas ao longo da Costa do Golfo estavam levando a ameaça do furacão Rita, particularmente após a devastação e morte causada há menos de um mês pelo furacão Katrina.

Em Baton Rouge, Louisiana, a governadora Kathleen Babineaux Blanco pediu pela evacuação de quase meio milhão de pessoas na região sudoeste de seu Estado.

"Sigam para o norte, sigam para o norte", disse ela. "Vocês não podem ir para o leste, não podem ir para o oeste, sigam para o norte. Se vocês conhecem as estradas locais que seguem para o norte, tomem estas."

Notando a dificuldade que os legistas estão tendo para identificar os mortos do furacão Katrina, Blanco deu um conselho mórbido para as pessoas que se recusam a evacuar. "Talvez elas devam escrever seus números do Seguro Social em seus braços com tinta indelével", disse ela.

Ao longo do dia a tempestade perdeu ligeiramente sua força, passando de categoria 5 para categoria 4, à medida que a velocidade máxima do vento caía de 280 km/h para cerca de 225 km/h. O furacão também mudou seu curso para o norte, com sua entrada no continente prevista para um ponto entre Galveston e Port Arthur, Texas, na madrugada de sábado. A mudança ofereceu um lampejo de esperança para a área em pânico de Houston, mas ameaça inundar ainda mais Nova Orleans e outras áreas devastadas pelo furacão Katrina.

Mas as autoridades disseram que a tempestade ainda tem o potencial de causar enormes danos em Houston, e após testemunharem o que aconteceu em Nova Orleans, poucas pessoas aqui estavam dispostas a arriscar.

As duas principais saídas aéreas da região de Houston, os aeroportos Hobby e Bush Intercontinental, sofreram grandes atrasos quando mais de 150 funcionários da Administração de Segurança do Transporte, diante de suas próprias preocupações de evacuação, não compareceram para trabalhar.

A agência se apressou para conseguir substitutos, disse uma porta-voz, mas os passageiros, já sobrecarregando o sistema com bagagem adicional para suas viagens rumo a um local seguro, aguardaram por horas para passar pela segurança.

Após avançarem apenas 15 ou 30 quilômetros em nove horas, alguns motoristas deram meia-volta para se arriscarem em casa, em vez de correrem o risco de serem pegos em um espaço aberto na passagem do furacão.

Desde a noite de quarta-feira e ao longo de toda a quinta-feira, as principais rotas de evacuação --a Interestadual 45 ao norte, rumo a Dallas; a Interestadual 10 ao oeste, rumo a San Antonio; a Rota 290 para College Station e Austin; e a 59 para Lufkin-- se transformaram em estacionamentos de 160 quilômetros de extensão.

Os motoristas que atenderam ao pedido de evacuação da ilha de Galveston e outras áreas baixas, levaram de quatro a cinco horas para cobrir a distância de 80 quilômetros até Houston. E lá a grande lentidão rumo norte se agravou.

A lentidão foi suficiente para um vendedor de sorvete na Interestadual 45 fazer muitos negócios na estrada, enquanto os motoristas deixavam seus carros parados para comprar refrescos. Carros superaqueceram e quebraram, enquanto outros ficaram sem gasolina, agravando a lentidão.

"A questão é quantas pessoas ficarão gravemente doentes e morrerão sentadas no acostamento da estrada", disse o deputado estadual Garnet Coleman. "Vítimas não da tempestade, mas da evacuação."

A própria família de Coleman tentou deixar a cidade na quinta-feira à pedido dele --ele está viajando pela Costa Oeste-- mas ela finalmente desistiu após 12 horas de trânsito parado, sem mesmo atravessar o anel viário externo da cidade.

"Se você não consegue sair da cidade de Houston em 12 horas, então ninguém sairá", disse Coleman. "É isto. Porque mesmo se você tentar sair agora, você não conseguirá se mover rápido o bastante para escapar da área de risco da tempestade."

A situação levantou sérias preocupações sobre como a cidade lidaria com algo como um ataque terrorista, disse ele.

Timothy Adcock, 48 anos, um paisagista de Houston que disse que trabalhou na casa do ex-presidente Bush e que estava se arrastando há 15 horas na direção de Tyler, em uma picape que o acompanhava após seu carro ter quebrado diante das condições austeras, disse: "Eu nunca vi algo tão desorganizado."

"Nós fizemos tudo o que devíamos fazer", disse ele, "protegemos nossas casas, partimos cedo, checamos as rotas, checamos nossos vizinhos". Mas, ele disse, "quando partimos, estávamos totalmente por nossa própria conta".

Uma faixa exclusiva para veículos com muitos passageiros não estava sendo utilizada, disse ele. Ele não viu nenhum policial. A certa altura, disse Adcock, ele telefonou para o Departamento de Transportes do Texas em busca de uma rota alternativa, mas a mulher que atendeu o telefone não conseguia encontrar um mapa.

Muitos motoristas em dificuldades disseram que atenderam aos apelos oficiais de evacuação feitos por White e Eckles, que invocaram com freqüência o fantasma do furação Katrina.

"Não esperem, o tempo de espera acabou", disse White na quarta-feira. "Não sigam o exemplo de Nova Orleans e pensem que alguém virá buscar vocês."

Mas na quinta-feira, à medida que o caos do trânsito piorava, ele e Eckels pareceram recuar de seus alertas calamitosos, dizendo que a única ordem de evacuação obrigatória envolvia as pessoas em áreas propensas a inundação ao longo da costa.

"Se você não está na zona de evacuação, acompanhe o noticiário", disse o prefeito. "A tempestade está oscilando. Nós poderemos estar em uma posição melhor." E manteve que "nós nunca ordenamos a evacuação de Houston. Nós pedimos para as pessoas usarem seu bom senso."

Mas Eckels reconheceu quando questionado que o imenso congestionamento "não estava nos planos".

Do tamanho da Geórgia

Apesar da expectativa de que a tempestade atingirá a costa com a mesma força que o Katrina, os meteorologistas acrescentaram uma preocupação adicional na quinta-feira, dizendo que é provável que ela fique estacionada em terra por vários dias e despeje quantidades enormes de chuva.

O furacão Katrina, apesar de semelhante em intensidade e tamanho, não causou inundações no interior após atingir a Costa do Golfo porque foi varrido do Sul por uma corrente de altitude elevada, disse Timothy J. Schott, um meteorologista do Serviço Nacional de Meteorologia.

Mas tal corrente em altitude elevada, na direção leste, se desviou para próxima dos Grandes Lagos, disse Schott, e não é possível contar com ela para minar a massa rodopiante de umidade e nuvens de chuva do tamanho da Geórgia, que ficará para trás neste fim de semana, enquanto o furacão Rita se mover pelo Leste do Texas, Oklahoma e partes de Arkansas.

"Isto representa um grande problema", disse Schott. "A tempestade poderá passar três dias estacionada lá" e poderá possivelmente produzir 25 centímetros ou mais de chuva, o suficiente para causar grandes inundações.

Os meteorologistas disseram que faixas de temporal que se estendem por um raio de várias centenas de quilômetros do olho do furacão poderão produzir até 12 centímetros de chuva em Nova Orleans, perto do limite estabelecido pelos oficiais do Corpo de Engenheiros do Exército para a capacidade que as bombas da cidade são capazes de lidar.

Blanco, a governadora da Louisiana, apelou pela presença de mais 30 mil soldados da Guarda Nacional e do Exército para a resposta ao furacão Rita. O vice-almirante Thad W. Allen, diretor da resposta federal ao furacão Katrina, disse que submeteria o pedido ao secretário do Departamento de Segurança Interna, Michael Chertoff.

Frank Gutierrez, diretor do planejamento de emergência de Harris County, disse que os modelos de evacuação de emergência previam entre 800 mil e 1,2 milhão de pessoas, mas "bem mais de 2,5 milhões" tomaram a estrada para fugir do Rita.

As autoridades de Houston disseram na noite de quinta-feira que já tinha passado o tempo para os moradores de Houston deixarem a cidade devido à aproximação do furacão Rita. Exceto aqueles que vivem em áreas mais baixas, que estão sob ordem de evacuação obrigatória, todos aqueles que ainda estão na cidade devem procurar pelo local mais seguro possível e permanecer na cidade para enfrentar a tempestade.

Esta nova posição, disse o prefeito, foi causada pela avaliação das autoridades das condições nas estradas e das mudanças na ameaça da tempestade, já que o trajeto previsto do Rita mudou, reduzindo o impacto potencial que poderia ter em grande parte da área metropolitana de Houston.

Os moradores que ainda não tomaram seus carros para evacuar, e que não vivem nas zonas de evacuação obrigatória, não devem tomar seus carros agora, disse White.

Eckels colocou de forma mais sucinta: "O momento para partir de sua casa já passou".

As autoridades também disseram que reconheceram que uma situação séria surgiu com a evacuação, com muitas pessoas em dificuldades em estradas congestionadas, sem gasolina e sem água. O Estado prometeu enviar caminhões de gasolina para aliviar o problema, disse White, mas ele não soube dizer quanto tempo levaria para a chegada dos caminhões.

Enquanto isso, ele disse, a prefeitura pretende enviar algumas vans e ônibus cheios de água para pegar as pessoas em dificuldades, e evacuar algumas nos ônibus, de acordo com a necessidade. Para isto, Eckels convocou voluntários para ajudarem a carregar estas vans e ônibus com água, e disse que sua ajuda era imediatamente necessária.

White evitou as perguntas dos repórteres que lhe pediam para avaliar de quem era a culpa pelo que aconteceu na quinta-feira, especificamente a falta de gasolina quando necessária.

"Esta não é a hora para determinar quem deveria ter feito o que em uma emergência", disse o prefeito. "Esta não é a hora para determinar quem deveria ter feito o quê."

Ajuda federal

Mais cedo, à medida que o congestionamento se agravava, as autoridades estaduais de transporte anunciaram que as faixas do sentido inverso seriam invertidas primeiro na I-45, depois na 290 e finalmente na I-10.

Mas no meio da tarde, com o trânsito parado na 290, o plano de faixas adicionais foi descartado, prendendo muitos e levando outros a darem meia-volta. "Nós precisamos daquela rota para que os recursos ainda possam chegar à cidade", disse uma porta-voz do departamento de transporte, Janelle Gbur.

Em outros lugares, com a mudança no trajeto previsto da tempestade, evacuações obrigatórias foram ordenadas na área de Beaumont, se estendendo a três condados ao norte do golfo onde muitos refugiados da Louisiana encontraram abrigo.

Policiais do Texas bloquearam estradas para muitas cidades e deixavam as pessoas saírem, mas não entrarem. Pacientes de hospital em Port Arthur, no Canal Intracosteiro, foram evacuados para Beaumont, mais ao norte, mas com o ampliação da área sob ordem de evacuação, o destino deles não ficou imediatamente claro.

Por todo o espectro, do governo federal aos Estados envolvidos, a resposta ao Rita foi fundamentalmente diferente dos preparativos de menos de um mês atrás, à medida que o Katrina cruzava o Golfo do México na direção da costa.

À pedido do governador do Texas, a Agência Federal de Administração de Emergência (FEMA) buscava enviar combustível adicional para o Texas, já que sua falta aparentemente está atrasando, ou pelo menos ameaçando atrasar, a evacuação.

"Eu acabei de falar com o governador nesta manhã e este foi seu principal pedido, assegurar o envio de combustível para lá, para garantir que os veículos tenham combustível, para garantir que a primeira linha de resposta tenha combustível, e estamos trabalhando nisto no momento", disse R. David Paulison, um diretor da FEMA.

O Departamento de Segurança Interna enviou na quarta-feira uma foto de um encontro de Chertoff com Paulison em Washington, enquanto discutiam a operação de recuperação do Katrina e os preparativos para o Rita. A mensagem foi simples: o governo federal está levando este furacão a sério.

Mesmo assim, Paulison enfatizou repetidas vezes durante sua coletiva de imprensa que o Rita é uma força tremenda e que provavelmente provocará danos extremos quando chegar.

"Esta é uma tempestade grande e perigosa. É uma tempestade imensa. Ela cobre metade do Golfo do México", disse ele. "Eu peço a todos os moradores do Golfo, não apenas para aqueles no Texas e na divisa da Louisiana, para prestarem atenção à direção da tempestade, prestarem atenção no seu trajeto. Ela ainda é muito imprevisível."

Para as pessoas presas no trânsito na tentativa de evacuar, ele as aconselhou a não darem meia-volta e retornarem para casa.

"Eu sei que estão frustradas, que há muito congestionamento lá", disse ele. "Novamente, este é o motivo para tentarmos evacuar com antecedência. Se permanecerem na estrada agora, elas terão tempo suficiente para escapar da área de risco."

*Rick Lyman, Maureen Balleza e Christie Taylor, em Houston; William Yardley, em Baton Rouge, Louisiana; Andrew C. Revkin, em Nova York; e Eric Lipton, em Washington, contribuíram com reportagem. Furacão Rita deve chegar ao litoral do Estado entre sexta e sábado George El Khouri Andolfato

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