UOL Notícias Internacional
 

23/09/2005

Padres e seminaristas gays criticam o Vaticano

The New York Times
Laurie Goodstein*

Em Nova York
Um boato de que o Vaticano emitirá instruções em breve proibindo homossexuais de virarem padres gerou uma onda de revolta e tristeza entre padres e seminaristas gays que dizem que, em breve, talvez tenham que decidir se devem ficar ou sair, continuar em silêncio ou falar.

"Eu penso em sair", disse um seminarista franciscano de 30 anos. "É difícil viver uma vida dupla, e para mim é difícil não falar contra a injustiça. E isso é uma injustiça."

Em entrevistas telefônicas na quinta-feira (22/09), com padres e seminaristas homossexuais em diferentes partes do país, todos insistiram que seus nomes não fossem revelados, pois temiam repercussões de seus bispos ou superiores.

"Estou ficando cada vez mais encolerizado", disse um padre de 40 anos na Costa Oeste, que falou sob condição de anonimato porque não decidiu se vai revelar sua homossexualidade publicamente. "Essa é a igreja à qual eu dei minha vida e na qual acredito. Vejo todos como pessoas criadas à imagem de Deus e espero isso da igreja da qual faço parte. Mas sempre sinto que sou 'menos'".

Os temores dos padres e seminaristas gays intensificaram-se nesta semana, depois da chegada de notícias de que o Vaticano está preparando um documento, há muito esperado pela igreja, para proibir que homossexuais, até os que celibatários, tornem-se padres católicos romanos. Por anos, a maior parte dos seminários e ordens religiosas não proibia candidatos gays, mas tentava discernir em cada caso se seria capaz de manter o celibato. A proibição seria relativa apenas aos candidatos à carreira monástica, não aos já ordenados.

A igreja também está iniciando uma revista neste mês a seminários americanos, nas quais professores e alunos serão entrevistados sobre suas políticas de admissão, adesão à doutrina moral católica, preparação adequada para uma vida de celibato e se há "evidências de homossexualidade no seminário". Suas análises vão demorar anos.

Membros da igreja dizem que essas medidas ajudarão a entender as condições que levaram aos escândalos de abuso sexual que ressurgiram em Boston em 2002 e se espalharam para a maior parte das dioceses. Um estudo contratado pelos bispos americanos revelou no ano passado que quase 80% das vítimas eram meninos.

Alguns padres conservadores saudaram as mudanças. O reverendo John Trigilio Jr., presidente da Confraternidade do Clero Católico, grupo conservador de 300 membros com sede em Harrisburg, Pensilvânia, disse que o fechamento dos seminários para os homossexuais era "para seu próprio bem", assim como a proibição de epiléticos na igreja.

"É quase a mesma coisa. "O trabalho e a pregação exigem demais e os estressará. Eles vão ter que passar de cinco a oito anos em um seminário onde estarão apenas com homens."

Um seminarista gay de 30 e poucos anos respondeu que tal raciocínio era "ridículo" e que tinha vivido em harmonia por quatro anos no grupo de seminaristas.

"Homossexuais se socializam de forma diferente", disse ele. "Passamos a vida toda com outros homens. Participamos dos mesmos times na escola, compartilhamos os mesmos vestiários, dormimos nos mesmos alojamentos universitários --estamos acostumados a ficar em torno de pessoas pelas quais nos sentimos atraídos. Sugerir que a pessoa é incapaz de controlar seus impulsos sexuais por ter determinada orientação homossexual é, francamente, um insulto."

Ele disse que "seria difícil imaginar" continuar no seminário, porque leva "a sério igreja e a autoridade do episcopado."

Padres gays dizem que estão servindo de bodes expiatórios para crimes cometidos por pedófilos e encobertos por bispos que nunca foram disciplinados. Nas entrevistas, ficou claro que estão se sentindo perseguidos em sua própria igreja.

"Sinto-me como um judeu em Berlin nos anos 30", disse um padre gay de 48 anos, que passou 18 anos na ordem religiosa. Ele disse que estava pensando em usar um triângulo cor de rosa --símbolo que os nazistas forçavam os gays a usarem nos campos de concentração-- e inspirar padres e leigos a também usarem os triângulos como protesto.

Muitos padres gays disseram que a política do Vaticano e as visitas aos seminários só servirão para empurrar para a clandestinidade os padres homossexuais, criando o mesmo tipo de clima sexualmente reprimido e pouco saudável que prevalecia nos seminários antes das reformas dos anos 80 e 90.

Os paroquianos de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Sunset Park, Brooklyn, um bairro operário nova-iorquino, estavam divididos sobre a medida, sugeriram os entrevistados depois da missa de meio dia na quinta-feira.

Helen Dunn, professora aposentada, disse que era importante tirar os homossexuais dos seminários "porque é aí onde começa o problema. Estão procurando algo que não conseguem ter".

Bruno Basedy, 55, imigrante colombiano, disse simplesmente que a homossexualidade "era ruim" e demonstrou a conduta aceitável cantando a melodia de casamento de Wagner.

No entanto, Max Gonzalez, 52, aposentado de uma empresa telefônica que chegou à igreja pouco depois da missa, disse que os padres gays não eram um problema, desde que não incomodassem as crianças. Patrick Murphy, 37, desempregado que foi à missa, disse que, apesar de considerar a homossexualidade "uma anormalidade da alma", não achava incompatível com a vocação de servir a Deus, nem achava certo a igreja tentar purgar os homossexuais do seminário.

"Uma pessoa que escolhe o celibato está fazendo um ato nobre", disse Murphy. "Está escolhendo se tornar um mártir sexual, então sua sexualidade não deve ser explorada."

Diversos padres católicos em Nova York disseram que estavam preocupados com a direção que o Vaticano parece estar tomando. Monsenhor Denis Herron, pastor da Igreja de Santa Tereza, no Queens, disse que o compromisso com o celibato era mais importante do que a orientação sexual do seminarista. "Algumas pessoas não conseguem manter esse voto, e podem ser homossexuais ou heterossexuais", disse Herron. "Tenho medo disso se tornar uma caça às bruxas."

*Colaboraram Ann Farmer e Andy Newman em Nova York. Nova lei que pode banir os homossexuais é comparada ao nazismo Deborah Weinberg

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