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25/09/2005

Arte na Web: uma canção de protesto, reloaded

The New York Times
Sarah Boxer

Em Nova York
Algumas canções têm muita sorte. Elas possuem duas, até mesmo três vidas, significando tudo para todos e ainda por cima de forma passional.

No mês passado, "Wake Me Up When September Ends" do Green Day estava servindo tanto como canção de protesto contra a guerra no Iraque quanto balada patriótica. Ela foi (e ainda é) um dos videoclipes mais requisitados na MTV. Agora, graças à Internet, é uma canção sobre a devastação provocada pelo Katrina.

O videoclipe original da canção, dirigido por Samuel Bayer (responsável também pelo videoclipe da clássica "Smells Like Teen Spirit" do Nirvana), é cheio de patos e simploriedade. Ele mostra um jovem casal apaixonado, depois brigando e finalmente separados pela guerra. Enquanto o jovem luta no Iraque, pensando em dias mais felizes, a jovem fica sentada em casa aguardando e atormentada.

Apesar da banda ter tido a intenção de transformar o videoclipe em um protesto antiguerra, Kelefa Sanneh, um crítico de música pop de The New York Times, notou que ele também "funciona muito bem como uma declaração de apoio às nossas tropas". Um blogger postou recentemente o vídeo do Green Day com o rótulo "Grande Vídeo de Recrutamento". Talvez estivesse sendo zombeteiro, talvez não.

Hoje, a história se repete com um significado diferente. Duas semanas atrás, Karmagrrrl, uma blogger também conhecida como Zadi, casou a balada do Green Day com o noticiário da televisão do Katrina e postou em seu site, smashface.com/vlog. O vídeo dela se encaixa perfeitamente com a letra.

O vídeo de Karmagrrrl começa com a visão de árvores verdejantes pela janela de um ônibus. "O verão veio e passou, a inocência nunca dura", prossegue a canção. "Me acorde quando setembro terminar." No chão do ônibus você vê um par de tênis vermelhos tocando com a ponta a manchete "Nos Ajudem", de uma cópia dobrada do jornal "The New York Post" de 1º de setembro. A foto no jornal mostra um par de pés em sandálias de papelão.

Deste ponto em diante, "Wake Me Up" acompanha imagens vistas na MSNBC, CNN e "The Oprah Winfrey Show". Enquanto a chuvas castigam na MSNBC, a canção cresce: "Aí vem a chuva de novo, caindo das estrelas". Um semáforo cai na rua molhada: "Encharcado de novo na minha dor, nos tornando quem somos". As imagens de cadáveres carregados em macas são acompanhadas pela letra: "Enquanto minha memória repousa, mas sem esquecer o que perdi". É quase perfeito demais.

No vídeo, a letra da canção parece absurdamente presciente, apesar de partes da canção não fazer nenhum sentido. "Como aconteceu com meu pai, 20 anos passaram rápido demais." O que isto poderia significar? Talvez tal toque de incoerência seja a chave para a universalidade da canção.

E quanto aos interlúdios instrumentais? Eles foram preenchidos com trechos dos comentários que o presidente Bush fez às vítimas do furacão a centenas de quilômetros dali. Naquilo que é um golpe de sorte notável, ou arte do vlogger, a cadência do "eu estou nisto com vocês" do presidente se encaixa perfeitamente no ritmo folk e sentimento da música.

"Eu quero que as pessoas da Costa do Golfo saibam que o governo federal está preparado para ajudar vocês." É como se o presidente estivesse no palco com a banda. "Agora os dias parecem terrivelmente sombrios para os afetados, mas estou confiante de que, com o tempo, vocês terão suas vidas de volta à ordem."

É possível que Karmagrrrl tenha empatia com Bush? É possível que este seja um vídeo romântico sobre o pesar do país? Algumas poucas imagens desfazem tal sugestão. A certa altura no videoclipe, você não apenas vê famílias acenando por ajuda, crianças chorando nos braços de suas mães e crianças em carrinhos improvisados. Você vê mulheres gritando obscenidades para a câmera.

Diferente do videoclipe original do Green Day, que poderia ser tanto pró-guerra quanto antiguerra, este aqui passa uma mensagem clara. Mas o que faz o vídeo do Katrina funcionar é que ele não é totalmente óbvio desde o início.

Ele plana para um fim com uma longa tomada panorâmica de pessoas desabrigadas sentadas no meio-fio, aguardando por ajuda. A canção prossegue, "Me acorde quando setembro acabar, me acorde quando setembro acabar, me acorde quando setembro acabar". Gratuitamente, após o término da música, a mãe do presidente, falando em Houston, dá a última gafe: "Tantas pessoas presentes aqui na arena já eram carentes mesmo, e isto está funcionando muito bem para elas". E termina.

A propósito, Karmagrrrl não é a única. Quase ao mesmo tempo em que ela casava a canção do Green Day com as imagens do Katrina, dois rappers de Houston que coletivamente se chamam The Legendary K.O., Damien Randle e Micah Nickerson (que moram perto do estádio Astrodome de Houston), fizeram seu próprio mash-up. Ele casaram o sucesso "Gold Digger" de Kanye West com alguns comentários improvisados feitos por West durante o teleton da NBC para ajuda às vítimas do furacão, inseriram mais algumas palavras, chamaram de "George Bush Doesn't Like Black People" (George Bush não gosta de negros) e postaram na Internet.

Agora é um sucesso no rádio e na Internet, e seu download pode ser feito em vários sites, incluindo o do próprio rapper, www.k-otix.com. Alguém na Internet chamado Black Lantern acrescentou um vídeo. E não há dúvida sobre o sentimento. Do Iraque ao furacão Katrina, as músicas servem como trilha sonora George El Khouri Andolfato

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