UOL Notícias Internacional
 

27/09/2005

Após a tempestade, Texas e Louisiana começam a recuperação

The New York Times
Por Peter Applebome, Rick Lyman e William Yardley

em Nova Orleans
Dezenas de milhares de cidadão evacuados começaram a voltar para Houston no domingo, enquanto trabalhadores reparavam suficientemente as barragens rompidas para impedir o afluxo de água à duas vezes inundada Nova Orleans, enquanto os vestígios do furacão Rita se espalhavam pelo Vale do Mississippi e o Meio-Oeste.

Após receberem o golpe mais duro do Rita, o litoral norte do Texas e as áreas cajun, no sudoeste da Louisiana, atingidas de forma particularmente severa, começaram a secar no domingo. A tempestade, que fez com que 3 milhões de pessoas fugissem em busca de lugar seguro, deixou para trás um trecho destruído e inundado do Leste do Texas e do sul da Louisiana. Muitos no Texas estavam maravilhados pelos danos terem sido mais leves do que o temido -o governador Rick Perry chamou o resultado de "milagroso".

E em um desdobramento positivo, os preços do petróleo despencaram no domingo, já que os danos nas refinarias e complexos petrolíferos do Texas foram menores do que o esperado.

Em Houston, onde 2,5 milhões de habitantes fugiram da aproximação do Rita, dezenas de milhares conseguiram voltar no domingo. Em Nova Orleans, a lenta recuperação, que foi interrompida pela entrada do furacão Rita na Costa do Golfo, foi retomada no domingo, enquanto o prefeito C. Ray Nagin reiterava sua intenção de reabrir partes da cidade nesta semana.

As autoridades disseram que a água nas partes de Nova Orleans que foram novamente inundadas pelo Rita poderão ser bombeadas em uma semana. Este é um prazo bem menor do que foi originalmente previsto, e as boas notícias vieram depois que helicópteros despejaram imensos sacos de areia na ruptura no Canal Industrial da cidade, que permitiu que a água inundasse novamente o pobre 9º Distrito, no leste de Nova Orleans.

Nagin disse ter esperança de renovar os esforços para permitir o retorno de alguns cidadãos para as partes secas da cidade, onde os serviços públicos já foram restabelecidos. Os distritos secos eventualmente suportarão uma população entre 250 mil e 300 mil, disse ele.

Mas no coração do território cajun, já castigado pelos fortes ventos do furacão Katrina um mês atrás, os moradores das terras pantanosas das paróquias Terrebonne até Vermilion foram alagados por ondas de 4,5 metros que inundaram cidades, arruinaram casas e deixaram milhares de pessoas tentando lidar com tudo, de negócios alagados até cobras nervosas em busca de terra seca.

O presidente Bush fez outra visita à região, menos de um mês depois de seu governo ter sofrido duras críticas por sua resposta ao furacão Katrina. Após monitorar o Rita no quartel-general do Comando do Norte, em Colorado Springs, Colorado, o presidente participou no domingo de briefings sobre a resposta do governo em San Antonio, Austin, Texas, e Baton Rouge, Louisiana. Ele novamente passou a sensação de quanto as tempestades afetaram o planejamento federal para desastres ao reiterar que os oficiais militares, pela primeira vez, poderiam assumir um papel importante no planejamento para desastres em futuras tempestades catastróficas.

Na paróquia de Cameron, próxima da divisa do Texas, que recebeu o impacto pleno da tempestade, pequenas cidades e vilarejos de pesca foram praticamente destruídos.

A cidade de Cameron, que tem cerca de 2 mil habitantes, permanecia debaixo d 'água em vários locais no domingo, e outras cidades, como Holly Beach, que tem menos de 200 habitantes, parecem ter desaparecido.

Um dia depois da parede do olho do furacão Rita ter passado diretamente sobre a paróquia costeira no sudoeste da Louisiana, provocando uma onda prevista com até 6 metros em alguns lugares, marcos familiares -os campos de pesca, o comércio, a intersecção da Rodovia 82 com a Rodovia 27, no Golfo do
México- tinham desaparecido.

"Em Cameron, praticamente não restou nada. Tudo foi simplesmente destruído", disse a governadora da Louisiana, Kathleen Babineaux Blanco.

Blanco disse no domingo que pedirá ao governo federal US$ 31,7 bilhões para ajudar a reconstruir a infra-estrutura danificada do Estado.

Enquanto a tempestade seguia para o norte, ela foi responsável por apenas duas mortes confirmadas, um homem cuja residência móvel foi erguida por um tornado no Delta do Mississippi e um homem que foi atingido pela queda de uma árvore em Angelina County, Texas. As autoridades disseram que a evacuação em massa antes da tempestade sem dúvida impediu um maior número de mortes.

Mas 23 idosos frágeis de um asilo de Houston morreram na sexta-feira durante a evacuação, quando o ônibus deles pegou fogo no sul de Dallas, após mais de 14 horas na estrada. As autoridades inicialmente disseram que 24 tinham morrido, mas reduziram o número no domingo depois de um exame mais cuidadoso dos restos mortais.

No domingo, Bush ouviu algumas fortes críticas à resposta do governo ao Katrina juntamente com elogios pela resposta ao Rita, e prometeu levar o que ouviu para Washington.

Em San Antonio, o general de divisão John White do Exército disse ao presidente que, durante o Katrina, havia caos no ar, como quando cinco ou mais helicópteros atendiam uma mesma chamada para salvar uma única pessoa.

"Foi um verdadeiro descarrilamento o que vimos em Nova Orleans", disse White.

Parecendo cansado e veemente, Bush disse que parte do motivo para ter participado dos briefings foi determinar como o governo pode melhorar no futuro. "E eu aprecio muito o seu briefing, general, porque é precisamente este tipo de informação que levarei para Washington para nos ajudar a entender como poderemos fazer um trabalho melhor", disse Bush.

Na resposta a casos de ataques terroristas, disse o presidente, o Departamento de Defesa assume o comando. Talvez, em caso de desastres naturais "de certo porte", as forças armadas também devam assumir o comando, em vez do Departamento de Segurança Interna e sua Agência Federal de Administração de Emergência.

Scott McClellan, o porta-voz da Casa Branca, disse aos repórteres que, após os briefings de domingo, o presidente acredita "fortemente" que o Congresso deveria considerar colocar o Pentágono encarregado da resposta a desastres naturais "extraordinários". Outra lição aprendida, disse McClellan, é a necessidade de uma linha clara de comando após tais desastres, a necessidade de evacuação antecipada, melhor coordenação dos esforços de resgate e mais atenção aos casos de "necessidades especiais", como os idosos.

A volta à normalidade era um conceito relativo, mas foram dados passos nesta direção tanto nos locais atingidos mais duramente pelos dois furacões quanto naqueles onde os danos foram menores do que o temido.

Em Houston, no domingo o tráfego estava pesado em muitas estradas que levavam de volta à cidade, mas não ocorreu uma repetição do torturante êxodo em massa da quinta-feira, que deixou milhares parados no trânsito por 12 horas ou mais e deixou centenas com veículos quebrados ou sem combustível.

"O retorno parece estar transcorrendo de forma relativamente tranqüila", disse o juiz Robert Eckels, de Harris County, a principal autoridade eleita do condado. "Nós estamos vendo um tráfego intenso de retorno nas estradas, mas ele continua fluindo."

Alguns adiaram o retorno na esperança de evitar uma repetição do pesadelo de trânsito pré-tempestade.

Jorge Andrade, que mora perto do Centro Espacial da Nasa nos arredores de Houston, passou 38 horas na estrada para chegar a Dallas na tarde de sexta-feira, e não está com pressa de repetir uma viagem como aquela.

"Talvez eu parta amanhã, talvez no dia seguinte", disse Andrade, 57 anos, no domingo. "Ainda há trânsito demais, está quente demais e não há gasolina suficiente."

Dentro de Houston, que foi apenas arranhada pela tempestade, as pessoas já estavam praticando corrida sob céus resplandecentes e parte do comércio já tinha reaberto, assim como os aeroportos. A coleta de lixo deverá ser retomada na segunda-feira e as escolas reabrirão na quarta-feira. Apenas uns poucos galhos nas ruas, fachadas cobertas com placas de madeira e alguns bairros sem eletricidade forneciam evidência de que a quarta maior cidade do país correu risco de ser destruída.

"Que Rita?" dizia uma placa do lado de fora do Kenneally's Irish Pub na Shepherd Drive.

Mas havia bem menos frivolidade no nordeste do Texas e no sudoeste da Louisiana.

Nos arredores da cidade de Jasper, que foi seriamente atingida pela tempestade, Willie Newman, 31 anos, e vários amigos saíram após a passagem da tempestade com trator, escavadora e várias motosserras para retirar 200 árvores caídas na estrada 777, para que caminhões pudessem passar.

Grandes carvalhos caíram em ambos os lados da casa de sua avó, ele disse, dois deles de mais de 4 metros de diâmetro. Um grande problema na região continuava sendo a falta de gasolina, energia elétrica e ar condicionado.

"Nós temos muita sorte, mas não acho que poderei suportar este calor", disse a avó dele, Verna Newman, de 73 anos.

Na minúscula comunidade de Mouton Cove, Louisiana, uma comunidade operária com criadores de gado, uns poucos pescadores comerciais e um pequeno grupo de operários de campo de petróleo, o furacão Rita produziu uma onda que cobriu quase tudo sob 1 a 1,5 metro de água.

Quando as águas inundaram casas e negócios no início da manhã de sábado, um pedido por voluntários e barcos foi transmitido pela rádio e televisão locais, pedindo aos moradores para que se reunissem no tribunal de Abbeville.

No meio de uma praça central normalmente sonolenta, dezenas de esportistas e donos de barcos faziam fila nas ruas onde passaram o dia resgatando vizinhos ilhados.

"Eu acho que demorará algum tempo para a volta à normalidade", disse Brennan Billeaud, 23 anos. "Mas conseguiremos, espero."

Mesmo na castigada Nova Orleans, havia pequenos sinais de vida e desentendimento sobre quão rapidamente a cidade deveria começar a se recuperar. Kelly M. Gibson, um golfista profissional que tem atuado como membro de equipe de resgate desde a passagem da tempestade, entrou no Royal Sonesta Hotel por volta do meio-dia para entregar cerca de 2 mil refeições que ele e ajudantes estavam trazendo diariamente para oficiais e equipes de resgate. Ele disse que é importante manter fortes as pessoas que estão trabalhando para recuperar a cidade, mas que seria um erro permitir a volta dos moradores, comerciantes e empresários cedo demais.

"As ruas não são seguras, há cabos de força expostos por toda parte e se apressarmos a volta será um desastre total", disse ele.

Mike Motwani também disse o mesmo enquanto assistia operários colocarem compensado para substituir o vidro quebrado pelos saqueadores em seu minimercado House of Voodoo, na Canal Street, uma das 30 lojas de conveniência que ele possui em Nova Orleans. Ele disse que não espera reabrir suas lojas, mesmo no centro seco, por 60 a 90 dias.

"Os funcionários estão espalhados por toda parte", ele disse. "Quem trabalharia? E esta é uma cidade de convenções. Não haverá atividade até a volta das convenções, e isto não vai acontecer tão cedo."

E a maioria dos moradores parece saber que um retorno não pode ser apressado.

"Não há energia elétrica, não há água, não há sentido em voltar", disse Sam Khalaf, que salvava algumas lembranças da casa de seu pai, no centro. "Eu acho que as pessoas mais ansiosas para voltar para casa são idosos como meu pai, que têm dificuldade para aceitar a idéia de que não restou nada para onde voltar."

Saint Jones estava um pouco mais otimista sobre a reabertura.

"Esta cidade está cheia de policiais, militares, bombeiros e todos eles estão fazendo um bocado de hora extra", disse Jones enquanto aplicava uma nova camada de tinta branca na porta da frente do Unisexxx Club, na Bourbon Street, onde outro clube de dança exótica já estava funcionando. "Nós temos algo que eles realmente querem." George El Khouri Andolfato

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