UOL Notícias Internacional
 

27/09/2005

Características comuns entre os mississipianos que morreram

The New York Times
Sewell Chan

em Gulfport, Mississippi
A maioria das vítimas tinha 60 anos ou mais. Quase todas se afogaram. Seus corpos foram encontrados dentro ou do lado de fora de suas casas destruídas.

Nos dias e horas que antecederam a chegada do furacão Katrina, elas falaram com parentes e amigos que imploraram para que partissem com eles, e muitas tinham meios para fazê-lo. Mas após terem sobrevivido ao furacão Camille, que matou pelo menos 131 mississipianos em 1969, elas aparentemente não acreditavam que esta nova tempestade poderia ser pior.

Três semanas após o furacão Katrina ter passado pelo Golfo do México, o Estado do Mississippi confirmou 220 mortes e identificou publicamente cerca de metade das vítimas, permitindo o primeiro vislumbre detalhado das vidas que foram perdidas no furacão, principalmente por causa de uma onda que chegou a 9 metros de altura e varreu quilômetros pelo interior, arrastando grande parte do que encontrou em seu caminho.

A tempestade provocou mortes em praticamente todas as cidades costeiras do Mississippi, de Pascagoula ao leste até Pearlington no oeste. Muitos se afogaram com a elevação das águas que os prenderam em seus sótãos. Outros foram arrastados pela onda que engolfou e destruiu suas casas.

Um punhado de vítimas que foi atingida pela queda de escombros teve forte traumatismo listado como causa que contribuiu para a morte.

À medida que os corpos são identificados, o retrato pleno das vítimas poderá mudar, mas vários temas despontaram das entrevistas com mais de 40 parentes, legistas, autoridades e diretores de casas funerárias.

Entre os identificados até o momento, muitos eram operários aposentados que investiram décadas de trabalho e estavam em um ponto da vida onde desfrutavam da companhia e familiaridade de suas casas.

Diferente daqueles que não puderam deixar Nova Orleans, muitos tinham veículos para partir, mas não o fizeram por causa da saúde frágil de seus cônjuges, por não conseguirem deixar seus animais de estimação para trás ou porque parentes mais jovens concordaram em ficar com eles.

Alguns passaram suas vidas na Costa do Golfo e nunca tinham viajado além de Nova Orleans. Outros foram atraídos pelo clima mais quente e pelas areias brancas da costa.

Horace J. Necaise Jr., 78 anos, era um metalúrgico sindicalizado cujos ancestrais se estabeleceram em De Lisle e Pass Christian em meados do século 19. Necaise serviu na Marinha na Segunda Guerra Mundial, foi bombeiro voluntário e criou sete filhos.

Eugene Garcia, 72 anos, era um carpinteiro que teve nove filhos com três esposas. Garcia se aposentou por invalidez, sofria de problemas cardíacos e diabete e usava cadeira de rodas para circular pela sua casa, em Lake Shore.

Lando Bishop, 75 anos, era um operário que pagava US$ 150 por mês por uma casa de três cômodos em Biloxi, que ele dividia com seu sobrinho. Magro, careca e com um sorriso desdentado, Bishop passava seus dias sentado na varanda acompanhando o trânsito.

Algumas vítimas realizaram feitos diversos e incomuns.

O dr. Louis T. Maxey Sr., 92 anos, nascido em Indianápolis, tinha diplomas de ciências farmacêuticas, odontologia e medicina, e foi um dos primeiros afro-americanos a exercer a função de médico residente em cirurgia plástica e maxilofacial no Cook County Hospital em Chicago. A esposa de Maxey, Harneitha, 75 anos, nasceu em Seneca, Carolina do Sul, e ajudava a administrar a prática de seu marido e posteriormente se tornou ativa na política local do Partido Democrata.

O casal se mudou de Milwaukee para Gulfport há cerca de 25 anos e permaneceu após a aposentadoria de Maxey, em 1993.

Marie L. Knoblock, 64 anos, era uma enfermeira formada. Nascida em Nova Orleans, ela gostava de pescar truta, linguado e piraúna, e preparar gumbo e assado de panela. Knoblock morreu depois de ficar presa em sua casa.

Levin M. Dawson, 64 anos, era poeta, budista e vegetariano. Ele praticava ioga, não tinha carro e usava sua bicicleta para ir a toda parte. Todo dia, Dawson pedalava da casa de férias de sua irmã em Waveland, onde morava, para ler para sua mãe de 94 anos em um asilo próximo.

O filho do meio de cinco, Dawson tinha Ph.D. em inglês pela Universidade Rice em Houston, onde estudou poesia romântica e escreveu uma tese sobre John Keats. Ele lecionava na Universidade de Nova Orleans antes de largar o emprego para escrever poesia e trabalhar em empregos temporários.

J. Anthony Brugger, 64 anos, nasceu em Wisconsin, foi criado na Pensilvânia e, após quatro anos com os marines, foi à faculdade em Missouri e recebeu um MBA no Havaí.

Em 1991, Brugger e sua esposa, Diane, visitaram amigos que se mudaram para Long Beach, Mississippi. Por impulso, o casal decidiu comprar uma casa em Pass Christian e abrir uma pensão. O local, o Harbour Oaks Inn, abriu em outubro daquele ano com cinco quartos -quatro foram acrescentados em
janeiro- e se tornou popular entre os turistas, particularmente após o início das atividades dos barcos-cassino no rio em 1992.

Van A. Schultz, 69 anos, um veterano do Exército nascido em Utah, conheceu sua esposa em Las Vegas, quando trabalhou como administrador de um hospital de lá. Eles se mudaram para Bay Saint Louis, a cidade natal dela, onde Schultz assumiu o negócio de telhadura de seu sogro. Sua esposa, Lydia, abriu uma loja para vender artigos para pássaros.

O casal adorava beija-flores, e mesmo após terem se divorciado três anos atrás, Schultz continuava pendurando os alimentadores de pássaros nos cantos da casa que eles construíram. Na aposentadoria, ele trabalhava meio período como ajustador de valores de seguro e viajou para Orlando, Flórida, no ano passado para avaliar os danos causados pelo furacão Charley.

Nancy B. Murphy, 86 anos, a segunda de nove filhos, já tinha viajado para o Havaí com seu irmão e para a Venezuela para visitar sua irmã, uma enfermeira lá. Murphy nunca se casou ou teve filhos; ela tinha muitos amigos.

Ela conheceu sua melhor amiga, Edith Beckett, quando elas trabalharam juntas na Base Keesler da Força Aérea, em Biloxi, na Segunda Guerra Mundial. Murphy trabalhou por décadas como corretora de seguros, vendendo apólices de vida e propriedade. Seu irmão, R. Michael, um patologista da fala aposentado, vivia a menos de um 1,5 quilômetro dali em Bay Saint Louis, e todo dia ele e sua esposa, Jane, a visitavam e preparavam café para ela.

Por todo o sul do Mississippi, um assunto -evacuar ou não- esteve na cabeça de todos no fim de semana de 27 e 28 de agosto.

Muitas das vítimas que morreram na tempestade tiveram pelo menos um amigo ou parente que tentou convencê-las a partir. Algumas se recusaram de imediato. Outras ficaram indecisas. Outras concordaram em partir mas mudaram de idéia no último minuto.

As duas filhas de Schultz imploraram para que ele partisse.

"Ele disse: 'A propriedade não recebeu água durante o Camille -eu vou ficar bem'", disse sua filha mas velha, Brooke M. Schultz, de Woodstock, Geórgia. "Foi uma discussão acalorada. Ele simplesmente não queria partir."

Os Maxeys evacuaram sua casa no ano passado devido ao furacão Ivan e se juntaram ao filho mais novo deles, Roger, em Jackson.

"Com o trânsito, eles levaram oito horas para chegar a Jackson", lembrou James T. Maxey, outro filho, que estava com seus pais quando o furacão Katrina os atingiu. "Normalmente, é uma viagem de três horas. Era difícil para minha mãe viajar com meu pai. Ele tinha 92 anos e estava doente. Ele não podia fazer nada sozinho. Era difícil para ela colocá-lo e tirá-lo do carro."

O furacão Ivan provocou apenas alguns poucos centímetros de chuva no Mississippi, e os Maxeys decidiram que não queriam passar por nova evacuação.

"Eu queria que nós partíssemos, apenas por precaução", disse James Maxey. "Eu achei que a casa ficaria bem. Quando eles se mostraram irredutíveis em ficar, eu disse: 'Está bem'."

Algumas vítimas ficaram preocupadas com seus pertences ou animais de estimação.

Bishop, que freqüentemente passava o tempo em sua varanda, não queria deixar sua picape Ford para trás e disse ao seu sobrinho, que partiu, que iria em seguida.

"Ele estava apenas enrolando", disse uma sobrinha, Mary N. Jones, de Ocean Springs, Mississippi. "Duas ou três pessoas passaram para pegá-lo. Ele disse que partiria por conta própria. Ele não queria deixar sua picape lá. Ele a levaria consigo."

Knoblock, a viúva que gostava de jardinagem, sabia que seria difícil levar seu chow chow, Jimmy, e seu labrador, Herman, para um abrigo. Além disso, sua filha, Kim, estava com ela, juntamente com os dois chow chows dela.

"Eu implorei para ela, meu irmão implorou para ela", disse a filha, Angelique Mulina, a mais nova de três irmãos. "Eu sabia, meu irmão sabia, o que estava por vir. Mas ela não quis saber e nem a minha irmã."

Muitas vítimas morreram juntamente com seus cônjuges ou filhos. Em Bay Saint Louis, Kim E. Bell, 51 anos, e o filho dela, Steforno, 21 anos. Em Pass Christian, Samuel F. Tart, 51 anos, e seu filho, John, 2 anos. Em Ocean Springs, James E. Hyre, 83 anos, e sua esposa, Shamsi, 75 anos. Seu corpo foi encontrado na casa deles, o dela do lado de fora, supostamente arrastado pela onda.

Em pelo menos dois casos, a inundação engoliu famílias inteiras. Em Ocean Springs, Nadine A. Gifford morreu em sua casa com seu marido, Ted, a filha deles, Linda A. deSilvey, e a neta, Donna K. deSilvey. Em Waveland, quatro membros da família Bane, Edgar, Christina e seus filhos, Edgar Jr., 15 ano, e Carl, 13 anos, se afogaram na modesta casa de tijolos térrea deles.

Bane, um funcionário do Wal-Mart, e sua esposa, uma faxineira de hotel, se preocupavam com seus filhos, que eram autistas.

"Um motivo para não terem partido ou ido para um abrigo é que temiam que os meninos ficariam perturbados", disse Rachel R. Rimmer, de Ridgefield, a irmã mais nova de Christina Bane. "Eles eram muito protetores em relação aos meninos."

Em 28 de agosto, na noite que antecedeu a tempestade, os Bruggers forneceram comida em sua pensão para o pessoal de emergência que se reuniu em Pass Christian para se prepararem para o pós-tempestade. Na manhã de 29 de agosto, Brugger foi entrevistado por telefone pelo Pulse 24, um noticiário de televisão de Toronto.

"Nós acabamos de saber, assistindo pela TV alimentada por bateria, que o olho da tempestade aparentemente está vindo nesta direção", disse Brugger. "Eu não acho que o olho passará sobre nós, mas sim que passará a oeste daqui, o que é um pouco preocupante."

Ao ser perguntado por que não partiu, Brugger respondeu: "A casa foi construída em 1860. Há 15 anos de nosso suor nela, na sua restauração. Era um antigo hotel e ele passou por algumas tempestades grandes. É o ponto mais elevado da cidade. Nossa elevação é de cerca de 9 metros. Então normalmente nós podemos suportar as ondas."

Brugger morreu naquela manhã, quando a tempestade destruiu a pensão, que estava listada no Registro Nacional de Patrimônio Histórico. Nada restou exceto a sacada de concreto.

A lamentação no Mississippi começou cedo.

Nas funerárias que o furacão Katrina não destruiu, havia esperas de até quatro semanas para os serviços funerários. Algumas famílias optaram por abrir mão da cerimônia de corpo presente e optar por um serviço simples, ao lado do túmulo. A cremação se tornou a opção mais popular.

À medida que os escombros da tempestade são removidos, o número de mortes poderá aumentar. O Corpo de Engenheiros do Exército estima que o furacão deixou 13 milhões a 15 milhões de metros cúbicos de entulho apenas no Mississippi, o equivalente a 200 campos de futebol americano com pilhas de 15 metros de altura, e que serão necessários oito meses apenas para limpar as ruas e estradas do Estado. Os legistas estão contratando pessoas para checarem os aterros em busca de sinais de restos mortais.

Em Pass Christian, uma placa de pedra foi colocada na varanda do que costumava ser a Harbour Oaks Inn. Esta inscrição estava nela:

"Nossos corações ainda doem em pesar,
e lágrimas secretas ainda correm.
O que significou perder você,
ninguém saberá." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,38
    3,156
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    0,41
    65.277,38
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host