UOL Notícias Internacional
 

28/09/2005

Nova reserva de petróleo na Sibéria pode ser um "segundo Kuait".

The New York Times
Por James Brooke, em Yuzhno-Sakhalinsk, Rússia

colaboração de Jad Mouawad, em Nova York
Ao norte do Japão, no Oceano Pacífico, uma ilha siberiana à qual o acesso foi proibido durante muito tempo está preste a entrar para o mapa da energia global.

Em 1º de outubro, três décadas depois da descoberta de vastas reservas de petróleo e gás ao largo das costas desertas desta ex-colônia penal, um consórcio liderado pela ExxonMobil começará a bombear até 250 mil barris diários de petróleo do primeiro de sete poços perfurados nas profundezas do Mar de Okhotsk.

Esse será o início da produção em grande escala nas reservas marítimas da Ilha Sakhalina, uma região rica em petróleo que é chamada pelos geólogos, com uma certa fanfarronice, de "o Declive Norte do Alasca desta década". Ao ver os vários ministros que chegaram aqui, vindos de Moscou, em setembro, a fim de inspecionarem a nova reserva de petróleo, Galina N. Pavlova, principal autoridade do setor de energia da Sakhalina, se gabou: "Eles acreditam que a Sakhalina seja um segundo Kuait".

Mapeadas desde a década de 1970, as reservas recuperáveis desta grande ilha situada na extremidade oriental da Rússia são atualmente estimadas em 14 bilhões de barris de petróleo - o que representa pouco mais de 1% das reservas globais - e 2,7 trilhões de metros cúbicos de gás. Em números relativos a 2004, isso é o equivalente ao petróleo importado pelos Estados Unidos em quatro anos, e ao gás importado em 28 anos. Parte dessa produção seguirá para as costas norte-americanas.

Após décadas de debates, esta ilha longa e estreita, que fica a oito fusos horários de Moscou, está recebendo a maior injeção de investimentos estrangeiros da história russa. Os analistas esperam que os projetos da Sakhalina ajudem a aumentar a produção da Rússia e coloquem suprimentos necessários de petróleo e gás nos mercados mundiais famintos de energia nas próximas décadas.

A recente desaceleração da produção russa e o controle rígido exercido pelo Kremlin sobre o setor energético fizeram com que surgissem preocupações quanto ao clima para investimentos na Rússia. Mas com grande parte do Oriente Médio inacessível às companhias petrolíferas estrangeiras, a Rússia ainda oferece algumas das melhores perspectivas para o aumento dos suprimentos de petróleo.

O consórcio liderado pela Exxon está investindo US$ 12,8 bilhões, e um outro grupo, liderado pela Royal Dutch Shell, US$ 20 bilhões, para a produção de petróleo e gás, e para a construção da primeira usina de gás natural liquefeito da Rússia. A BP está explorando uma terceira seção. Nove seções marítimas adicionais continuam praticamente intocadas.

A Sakhalina promete ser uma máquina produtora de dinheiro que muito
contribuirá para o poder econômico da Rússia. As companhias acreditam que até 2050 a produção da ilha terá enchido os cofres de Moscou com US$ 85 bilhões derivados da venda de petróleo, royalties e impostos. Desta cifra, US$ 45 bilhões virão do projeto da Shell, e US$ 40 bilhões do da Exxon.

Podendo ser alcançada por navios petroleiros, a partir da Califórnia, após uma viagem de 12 dias através do Pacífico Norte,a Ilha Sakhalina pode também fazer com que os norte-americanos se voltem para a Rússia em busca de petróleo e gás. Até agora, a Rússia, dona de 6% das reservas mundiais conhecidas de petróleo, e de 27% das de gás, explora esses produtos basicamente no oeste da Rússia, vendendo-os para a Europa Ocidental.

Grande parte da energia da Sakhalina suprirá a China, o Japão e a Coréia do Sul. Mas, recentemente, foram iniciados trabalhos em um terminal no norte do México, que receberá remessas de gás natural liquefeito da Sakhalina no verão de 2008. Esse gás será então transportado através de um gasoduto até a Califórnia. Até lá, a Shell e a Exxon deverão também estar bombeando um total de 550 mil barris diários de petróleo para navios petroleiros, colocando 10% da produção total de petróleo da Rússia em águas do Pacífico e no mercado internacional.

"Este é o maior projeto integrado de gás do mundo", diz Ate Visser,
diretor-comercial da Sakhalin Energy Investment Corporation, o grupo
liderado pela Shell que possui um exército de 17 mil trabalhadores na Ilha Sakhalina.

O projeto começou com duas grandes plataformas de petróleo posicionadas ao norte, e agora estão sendo construídos um gasoduto e um oleoduto, ambos de 644 quilômetros. Eles transportarão a produção até Aniva, onde 7.250 trabalhadores, dos quais um terço é de nacionalidade estrangeira, constroem uma usina de gás liquefeito de US$ 2,5 bilhões e terminais de carregamento de navios em águas profundas em uma baía situada 145 quilômetros a nordeste do Japão.

A Shell está desapontada, já que o seu projeto de transporte dos campos de gás para os terminais se tornou o maior do mundo, em parte porque o custo estimado para um período de dez anos dobrou em julho, chegando a US$ 20 bilhões. O custo adicional parece ter sido causado pelas dificuldades de se fazer negócios na Rússia, e também pelos cálculos otimistas, feitos em 2003, referentes à aprovação final do projeto por parte do governo russo, que será o dono da maior parte do gás e do petróleo produzidos após o pagamento das despesas com a construção da infraestrutura.

A Shell, que é dona de 55% do projeto, diz que o custo adicional foi causado pela desvalorização de 25% do dólar em relação ao euro, pelo aumento do preço da mão-de-obra russa, pela elevação dos preços do petróleo e do aço para oleodutos, e pelas despesas com um programa para a minimização do impacto sobre uma população ameaçada de cem baleias cinzentas ocidentais que se alimentam todos os verões na área de produção da Shell.

"Nós insistiremos na realização de uma auditoria muito meticulosa disso
tudo", garantiu Pavlova, diretora de Petróleo e Gás do governo regional da Ilha Sakhalina, referindo-se à duplicação dos custos. "Nos reuniremos com a Shell durante todo o inverno".

Em julho passado, a Shell revelou o custo adicional de US$ 10 bilhões apenas uma semana após a empresa e a Gazprom, a companhia estatal russa que detém o monopólio sobre o setor petrolífero no país, terem anunciado uma troca mútua de bens. O objetivo da operação era inserir um poderoso parceiro russo em um projeto local dominado integralmente por empresas estrangeiras. Mas agora as duas companhias estão às voltas com reuniões que poderão durar um ano para o cálculo da diferença de preço que a Shell precisa pagar à Gazprom a fim de equilibrar o negócio.

"Foi algo que os nossos acionistas tiveram dificuldade em engolir", disse Visser, referindo-se aos acionistas minoritários, a Mitsui & Co., dona de 25% das ações, e a Mitsubishi Corporation, que é proprietária dos 20% restantes. "Mas foi difícil também para a Shell. No entanto, costuma-se olhar para apenas um lado da história, aquele que mostra que os custos dobraram. Só que o preço do petróleo também dobrou".

Cada vez mais nacionalista, a Rússia restringe o investimento estrangeiro aos aspectos técnicos mais complicados dos projetos de desenvolvimento energético, em sua maioria no alto-mar e no Ártico. As companhias estatais russas, por exemplo, extraem óleo de poços terrestres desde a década de 1930. Mas, depois que a produção diminuiu, o país procurou conhecimento estrangeiro para a extração no mar.

"Originalmente, a Rússia necessitava de companhias estrangeiras para a
obtenção de tecnologia e de dinheiro", diz Wiliam Dinty Miller,
vice-presidente da BP Sakhalin. Referindo-se às crescentes reservas de moeda estrangeira da Rússia, neste período em que o barril de petróleo custa US$ 70, ele acrescenta: "Agora o argumento financeiro foi colocado de lado".

Apesar da polêmica, o trabalho na usina de gás liquefeito prossegue. De uma janela de um vôo comercial, em uma manhã recente, podia-se ver uma escavação amarelada para o gasoduto e o oleoduto, ao sul da capital da ilha.

No momento, estão sendo construídas duas unidades de processamento de gás, o que dá à usina uma capacidade anual de 9,6 milhões de toneladas. A única usina no mundo que supera a da Sakhalina em tamanho é a Qatargas-2, em Catar, que produzirá 15,6 milhões de toneladas de gás liquefeito até o final de 2007. Na Ilha Sakhalina há espaço para a expansão do projeto em um terço.

Uma futura fonte de recursos será a seção que a Exxon começará a explorar em 1º de outubro. O petróleo e o gás da Exxon, provenientes de campos com reservas recuperáveis estimadas em 2,3 bilhões de barris de petróleo e 480 bilhões de metros cúbicos de gás, fluirão através de uma rede de oleodutos e gasodutos estatais russa, sendo extraídos de sete poços perfurados pelo complexo Yastreb da Exxon.

A instalação, situada em terra, permite que os poços sejam perfurados em
pontos situados a 11 quilômetros da costa, uma estratégia para minimizar o impacto ambiental e reduzir o número de plataformas marítimas em uma região inóspita conhecida pelas frentes frias que varrem a Sibéria, vindas do Ártico.

Stephen Terni, o presidente da Exxon-Neftegas Ltd., resumiu a questão para os executivos russos e norte-americanos que estiveram aqui em 12 de
setembro: "A instalação baseada em terra, a Yastreb, é o maior complexo
terrestre desta natureza já construído". Danilo Fonseca

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