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28/09/2005

Religiosos do Mississipi não querem volta de cassinos destruídos pelo Katrina

The New York Times
Rick Lyman

em Jackson, Mississipi
Apenas um mês após o furacão Katrina ter destruído os cassinos flutuantes do Mississipi na devastada costa do Estado, a assembléia legislativa estadual realizou uma sessão especial na terça-feira (27/09) para decidir se vai recuperar os cassinos, e como fazê-lo. Os cassinos têm sido fundamentais para a economia da Costa do Golfo.

Afirmando que não é mais seguro manter tais estruturas na água, o governador Haley Barbour criou instantaneamente uma polêmica ao propor que os cassinos, anteriormente restritos a barcaças ancoradas na costa sul do Mississipi, tivessem permissão para se deslocarem para terra firme, a uma distância de até 500 metros das margens. Os cassinos foram construídos em barcaças porque, de acordo com a lei do Mississipi, eles precisam flutuar a fim de que fiquem fisicamente separados das comunidades próximas.

Barbour disse que neste momento há uma oportunidade para transformar a
região em um ponto turístico de fama internacional, composto de complexos amplos e modernos de entretenimento, em vez de se simplesmente reconstruir a infraestrutura anterior.

"Daqui a 30 anos, quando eu estiver morto, as pessoas olharão para a costa sul e verão aquilo que ela se tornou", afirmou Barbour. "Caso ela se torne apenas uma outra versão daquilo que foi, teremos fracassado".

Mas vários dos líderes religiosos do Estado, que desde o princípio se
opuseram aos cassinos, estão tentando aproveitar a oportunidade para fechar permanentemente as casas de jogos. "É lamentável que com todas essas carências de ordem humanitária no Mississipi, o grupo político que apóia os cassinos tenha escolhido este momento infeliz para tentar expandir a sua influência", criticou William Perkins, porta-voz da Convenção Batista do Mississipi.

Outras propostas feitas pelo governador na terça-feira incluem um pacote de US$ 25 milhões em empréstimos para as pequenas empresas, uma linha de
crédito de US$ 500 milhões para manter os governos municipais e estadual
funcionando até que as verbas federais de auxílio estejam disponíveis, e
vários projetos de lei no sentido de cancelar os prazos e limitar as
penalidades para aqueles cujas vidas foram prejudicadas pela tempestade.

Mas a emergência dos jogos como um assunto central durante a sessão
parlamentar demonstrou o quanto o dinheiro proveniente de impostos gerados pelos cassinos se tornou crucial para o Mississipi e outros Estados que permitiram gradualmente a expansão desta indústria nas duas últimas décadas.

No Mississipi, que possui um dos impostos mais reduzidos do país para os
cassinos, 12% das verbas provenientes dos jogos são destinadas ao governo - 8% para o Estado e 4% para o município no qual se localiza o
estabelecimento. Os cassinos foram projetados para gerarem US$ 189 milhões para os cofres estaduais no próximo ano fiscal, um número que tem crescido de forma rápida e consistente desde que essas casas de jogos foram legalizadas em 1990.

O governador chorou por duas vezes durante o seu discurso. A primeira vez quando elogiou as iniciativas da sua mulher no sentido de ajudar as vítimas do furacão, e, a segunda, no final da sua fala, quando descreveu como não pode permitir que o Mississipi perca esta oportunidade. "Vamos liderar a renascença do Mississipi", disse ele.

Vários dos líderes religiosos dos Estados não demonstraram nenhuma comoção com as lágrimas do governador.

"Quando estava disputando o governo do Estado em 2003, ele foi duas vezes ao meu escritório e me disse que não expandiria a indústria dos jogos", disse Donald E. Wildmon, presidente da Associação da Família Americana, um grupo conservador com sede em Tupelo. "Os seus eleitores foram os ricos e os que defendem a moral, mas ele optou por dividir este eleitorado e se alinhar ao pessoal do dinheiro. Bom, eles podem ter o dinheiro, mas nós temos o povo, temos os votos e ele vai pagar pelo que fez".

Barbour, um republicano que já foi presidente nacional do partido, disse que a sua nova posição é inteiramente consistente com aquilo que disse durante a campanha, já que tudo o que prometeu foi que impediria que os cassinos se disseminassem pelos outros municípios do Mississipi.

"Bem, isso depende do que se entende por expansão", disse Perkins. "Nós
certamente entendemos que ele quis dizer que os cassinos permaneceriam do jeito que estavam. Mas o que ele está dizendo agora certamente soa para nós como uma expansão".

Quando os cassinos foram legalizados no Mississipi, há 14 anos, uns poucos barcos que recolhiam os fregueses e os transportavam aos cassinos ancorados ao largo. Depois, os parlamentares decidiram permitir que os cassinos operassem até mesmo se estivessem permanentemente atracados à costa, contanto que permanecessem na água.

E, no ano passado, a assembléia legislativa permitiu que os cassinos
colocassem estruturas submersas sobre o leito marinho a fim de dar mais
firmeza ao processo de ancoragem. Mas antes que tal operação fosse levada a cabo, o Katrina veio e destruiu a maior parte dos cassinos flutuantes da costa.

Segundo a proposta de Barbour, os operadores poderão construir cassinos em terra firme, a até 500 metros da costa, contanto que também contem com alguma outra estrutura na praia, como por exemplo um hotel, que ligue o cassino à água.

No entanto, os líderes religiosos vêem isso como apenas mais um pequeno
passo rumo àquilo que sempre temeram: que os cassinos tomem conta do Estado até que haja máquinas caça-níqueis em quase todo posto de gasolina e bar, como ocorre na vizinha Louisiana.

"Estamos dando pequenos passos em direção àquilo que tememos: a invasão
total do Estado pelo complexo político que apóia os jogos", disse Perkins.

Audiências relativas à nova legislação tiveram início na tarde da
terça-feira, e o deputado Bobby Moak, presidente do Comitê de Jogos da
Assembléia, disse esperar que a proposta seja encaminhada à votação no
plenário já na quarta-feira. Será nesse momento que os grupos que se opõem aos cassinos tentarão adicionar emendas com o objetivo de manter o status quo, ou talvez até mesmo reduzir o número de cassinos no Estado.

"Há uma proposta para cada grupo", disse Moak. "O governador falou em 500 metros. Os donos de cassinos querem uma distância maior. Os líderes
religiosos não querem que os cassinos saiam do lugar. Francamente, é muito barulho para um deslocamento de apenas alguns metros".

"Isso poderá ser perigoso", disse o deputado Ferr Smith, um democrata que apóia a proposta do governador. "Eles poderão votar pela proibição dos cassinos".

Se os grupos religiosos estão tentando colocar freios nos jogos de azar,
líderes políticos e religiosos da devastada região costeira estão suplicando pela aprovação da nova legislação de cassinos.

Em um editorial de primeira página na terça-feira, o jornal "Sun Herald"
disse: "Se a assembléia não agir decisivamente nesta semana, a destruição na área costeira reverberará até a fronteira com o Tennessee".

Algum tipo de cassino certamente retornará à costa do Mississipi. Moak disse que espera chegar a um acordo com os grupos cristãos.

"Não creio que isso ocorrerá", disse Perkins. "Não faremos acordos quanto a esta questão. Nunca faremos concessões quanto a questões morais. Para nós é isso o que o jogo significa". Danilo Fonseca

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