UOL Notícias Internacional
 

29/09/2005

Rumores exageraram os crimes em Nova Orleans

The New York Times
Jim Dwyer e Christopher Drew

Em Nova Orleans
Após a tempestade veio o apuro.

Nos dias que se seguiram ao furacão Katrina, o terror dos crimes vistos e não vistos, reais e frutos de rumores, tomou conta de Nova Orleans. Os temores mudaram distribuições de tropas, retardaram evacuações médicas, fizeram policiais se demitirem, retiveram helicópteros no solo.

Edwin P. Compass III, o superintendente da polícia, disse que turistas --a base da economia da cidade-- estavam sendo roubados e estuprados em ruas que mergulharam na anarquia.

Fred R. Conrad/The New York Times 
O sargento Dan Anderson verifica objetos saqueados --o saque é o único crime comprovado

A miséria em massa nos dois principais abrigos da cidade, abafados e não iluminados --o Centro de Convenções e o estádio Superdome-- foi combinada, segundo as autoridades, com gangues que estavam estuprando mulheres e crianças.

Mas uma análise das evidências disponíveis agora mostra que algumas --mas não todas-- histórias alarmantes que correram a cidade parecem ter sido pouco mais que invenções de imaginações assustadas, produto de circunstâncias infernais que incluíam comunicações não confiáveis, e talvez o resíduo de antigas relações deterioradas entre alguns policiais e membros da população.

Sem dúvida, o senso de ameaça foi despertado pela genuína desordem e violência daquela semana. Os saques começaram no momento em que o olho do Katrina passou por Nova Orleans, e variaram de roubo vil a busca por necessidades vitais. Os policiais disseram que pelo menos uma pessoa disparou durante várias noites contra uma delegacia nos limites do Bairro Francês. O gerente de um hotel na Bourbon Street disse que viu pessoas correndo armadas pelas ruas.

Pelo menos uma pessoa foi morta a tiros no Centro de Convenções, uma segunda no Superdome. Um policial foi baleado no bairro de Algiers, na outra margem do Mississippi no centro da cidade, durante um confronto com um saqueador.

Até o momento, é impossível dizer se a cidade experimentou uma onda de assassinatos, porque só foram realizadas autópsias em pouco mais de 10% dos 885 mortos.

Mas nesta quarta-feira (28/09), o dr. Louis Cataldie, o comandante do atendimento médico estadual para as vítimas do Katrina, disse que apenas seis ou sete pessoas parecem ter sido vítimas de homicídio. Ele também disse que as pessoas que estavam voltando para suas casas na região atingida estavam começando a encontrar os corpos de parentes.

O superintendente Compass, uma das poucas fontes aparentemente confiáveis durante os dias que se seguiram à tempestade, renunciou na terça-feira por motivos ainda não claros. Sua saída ocorreu após ser criticado pelo jornal "New Orleans Times-Picayune", que questionou muitos de seus relatos públicos de extrema violência.

Em uma entrevista na semana passada a The New York Times, Compass disse que alguns de seus relatos mais chocantes não foram verídicos. Ao ser questionado sobre os relatos de estupros e assassinatos, ele disse: "Nós não temos relatórios oficiais documentando qualquer assassinato. Nenhum relatório oficial de estupro ou ataque sexual".

Mas em 4 de setembro, ele foi citado pelo NYT sobre as condições no Centro de Convenções, dizendo: "Os turistas estão andando por lá e, assim que esses indivíduos os vêem, eles estão sendo atacados. Eles estão os agredindo e estuprando nas ruas".

Tais comentários, agora diz Compass, foram baseadas em relatos passados por terceiros. Os turistas "estavam caminhando com suas malas, e suas roupas e pertences eram levados", disse ele na semana passada. "Nenhum estupro que possamos quantificar."

Rumores afetaram a resposta

Um levantamento pleno dos crimes da semana, reais e ou imaginários, poderá nunca ser possível, porque muitas funções básicas do governo deixaram de operar no início da semana, incluindo as gravações de chamadas de socorro. Os operadores dos números de emergência da cidade deixaram seus postos quando a água começou a subir em volta do prédio onde trabalhavam.

Para elaborar um retrato da criminalidade --tanto real quanto percebida-- o NYT entrevistou dezenas de refugiados em quatro cidades, policiais, médicos, enfermeiros e autoridades municipais. Apesar de muitos terem fornecido relatos concretos, que presenciaram, outros recontaram histórias contadas por terceiros ou rumores que, após serem recontados múltiplas vezes, passaram a ser aceitos como fato.

Mesmo entre aqueles que disseram estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, as lembranças freqüentemente são difíceis de conciliar. Por exemplo, um líder da equipe policial da SWAT informou que seus homens perseguiram múltiplos clarões de disparos de armas no Centro de Convenções. Mas vários refugiados disseram que não ouviram disparos lá.

O que ficou claro é que o rumor de crime, tanto quanto a realidade da desordem pública, freqüentemente teve um papel importante na resposta de emergência. Uma equipe de paramédicos foi impedida de entrar em Slidell, do outro lado do Lago Pontchartrain, por quase 10 horas com base no relato de um policial estadual de que uma gangue de pessoas armadas, ameaçadoras, tinha se apoderado de barcos. Na verdade eram apenas dois homens fugindo de suas ruas inundadas, disse Farol Champlin, uma paramédica.

Em outra ocasião, suas ambulâncias ficaram trancadas devido ao boato de que o posto do Corpo de Bombeiros em Covington tinha sido saqueado por ladrões armados --um relato que provou ser falso, disse Aaron Labatt, outro paramédico.

Um contingente de soldados da Guarda Nacional foi enviado para resgatar um vice-xerife da Paróquia de Saint Bernard que pediu ajuda pelo rádio, dizendo que estava sendo retido por um atirador. Acompanhados por uma equipe da SWAT, os soldados cercaram a área. Os disparos revelaram ser a válvula de escape de um tanque de gás, que abria em intervalos de poucos minutos, segundo o general de exército Ron Mason, da 35ª Divisão de Infantaria da Guarda Nacional do Kansas.

"Faz parte da natureza humana", disse Mason. "Quando você recebe um ou dois relatos, eles repercutem pela comunidade."

Diante dos relatos de que 400 a 500 saqueadores armados estavam avançando na direção da cidade de Westwego, dois policiais entregaram seus distintivos na hora. Os saqueadores nunca apareceram, disse o chefe de Westwego, Dwayne Munch.

"Os rumores podiam arrasar um exército inteiro", disse Munch.

Durante os seis dias em que o Superdome foi usado como abrigo, o chefe da unidade de crimes sexuais do Departamento de Polícia de Nova Orleans, o tenente David Benelli, disse que ele e seus oficiais moraram dentro do estádio e investigaram cada rumor de estupro ou atrocidade. No final, eles fizeram apenas duas prisões por tentativa de ataque sexual, e concluíram que os outros ataques simplesmente não ocorreram.

"Eu acho que foi lenda urbana", disse Benelli, que também comanda o sindicato da polícia. "Sempre que você colocar 25 mil pessoas sob um mesmo teto, sem água corrente, sem eletricidade e sem informação, histórias serão contadas."

Crimes de oportunidade

Os verdadeiros crimes sérios começaram, segundo a lembrança de muitos, antes da falha catastrófica das barragens ter inundado a cidade, e a maioria deles consistia de crimes de oportunidade, em vez de assaltos.

Na cerca de meia hora em que o olho do Katrina passou pela cidade --um momento ilusório de calmaria, luz do sol e brisas leves-- os saqueadores atacaram, segundo o capitão Anthony W. Canatella, o comandante de polícia do 6º Distrito.

Usando uma corrente presa a um carro, eles arrombaram as portas de aço nos fundos de uma loja de penhores chamada Cash America, na Claiborne Avenue. "Adiantamentos de Salário até 350", dizia um cartaz onde estaria a marquise.

"Não havia nada lá com que você pudesse sustentar sua vida", disse o capitão Canatella. "Não havia nada lá a não ser armas e ferramentas elétricas."

O 6º Distrito --assim como grande parte de Nova Orleans, um tabuleiro de xadrez de riqueza e pobreza-- foi cenário de saques pesados, com grande parte doas furtos confinado aos bairros de baixa renda. Um alvo particular foi uma loja do Wal-Mart na Tchoupitoulas Street, na divisa com o elegante Garden District e construída no local do único projeto habitacional que ruiu na cidade.

Os saqueadores disseram a um repórter do NYT que seguiram os policiais até dentro da loja depois que estes a arrombaram, e os comandantes da polícia disseram que seus oficiais foram autorizados a pegar o que fosse necessário na loja para sobreviver. Um repórter do "Times-Picayune" disse que viu policiais pegando DVDs.

Um frenesi de roubo teve início, e os frutos dele podiam ser vistos na semana passada em três contêineres estacionados do lado de fora da delegacia de polícia do 6º Distrito. Dentro estavam bens recuperados de esconderijos criados pelos saqueadores em lares por todo o bairro, segundo Canatella, a maioria, mas não todos, ainda exibindo etiqueta do Wal-Mart.

Entre eles estavam um computador ainda na caixa, garrafas de conhaque, caixas de alimentos para bebês e fraudas, um massageador recarregável, um aparador de cerca viva, conjuntos de copos e pilhas de DVDs.

"Nenhum artigo educacional foi levado --os livros mais vendidos estavam todos intactos onde foram deixados", disse Canatella. "Mas todos os relógios de pulso de US$ 9 da loja sumiram."

Um dos policiais que foi ao Wal-Mart disse que eles não tentaram impedir as pessoas de levarem comida e água. "Pessoas sentadas do lado de fora do Wal-Mart, com alimentos, aguardando por uma carona, eu as deixava em paz", disse o sargento Dan Anderson, do 6º Distrito. "Se estivessem com aparelhos eletrônicos, eu simplesmente os devolvia lá para dentro."

Três lojas de autopeças também foram saqueadas. Em uma casa na Clara Street, Anderson disse que atravessou uma sala de estar encharcada, onde motores de arranque e alternadores, ainda nas caixas, estavam espalhados. Na parede acima do sofá, alguém pichou com spray de tinta a palavra "Saqueadores".

"O país está percebendo que tipo de criminosos temos aqui", disse Anderson.

Entre os refugiados, havia gratidão pelos esforços da polícia e outros para ajudá-los a deixar a cidade, mas ficou claro que alguns membros da população não tinham o Departamento de Polícia de Nova Orleans em grande estima, com várias pessoas citando casos de corrupção e violência de uma década atrás.

"Não me entenda mal, havia coisas ruins ocorrendo nas ruas, mas a polícia é suja", disse Michael Young, que disse que trabalhava como garçom em Riverwalk.

À medida que os ventos da tempestade se acalmavam naquela segunda-feira, pequenos grupos que partiram de bairros pobres tão distante quanto o baixo 9º Distrito, passaram pelo histórico Bairro Francês em busca de abrigo no Centro de Convenções.

"Algumas pessoas empurravam carrinhos de compras com seus pertences e segurando seus filhos", disse Anderson, o comandante da polícia. Ele disse que seus policiais davam comida, água e carona. "Isto também tinha outro propósito", disse ele, "o de que quando passassem, não causassem nenhum problema".

As lojas de jóias e antiguidades no Bairro Francês foram deixadas basicamente intactas, apesar de algumas pessoas terem ocupado alguns poucos hotéis. Apenas uma pequena mercearia e farmácias nos limites do bairro foram atingidas pelos saqueadores, segundo ele. Atrás das portas trancadas do hotel Royal Sonesta na Bourbon Street, Hans Wandfluh, o gerente geral, disse ter visto transeuntes que pareciam mal-intencionados.

"Nós ouvimos disparos", disse ele. "Nós vimos pessoas correndo armadas."

Ao cair da noite de segunda-feira, os saqueadores estouraram vitrines na Canal Street, invadiram farmácias, lojas de calçados e lojas de eletrônicos, disse Anderson. Alguns tentaram --sem sucesso-- invadir bancos, e outros tentaram tirar dinheiro de caixas eletrônicos.

O Centro de Convenções, sem água, ar condicionado, luz ou quaisquer figuras de autoridade, foi lembrado por muitos como um local de grande sofrimento. Muitos disseram que ouviram rumores de crime e viram comportamento sinistro, mas poucos disseram que testemunharam violência. Eles disseram que freqüentemente acreditavam que ela tinha ocorrido em outra parte do centro de 800 metros de extensão.

"Eu vi máquinas de refrigerante sendo arrombadas --todas elas foram arrebentadas no segundo andar", disse Percy McCormick, um segurança que passou quatro noites no Centro de Convenções e foi entrevistado em Austin, Texas.

O capitão Jeffrey Winn, comandante da equipe SWAT, disse que seus membros entraram correndo no Centro de Convenções em perseguição aos clarões de disparos de armas, visando expulsar os grupos de homens que tinham tomado alguns dos salões. Nenhuma arma foi apreendida.

As autoridades estaduais disseram que 10 pessoas morreram no Superdome e 24 morreram nos arredores do Centro de Convenções --quatro dentro e 20 nas proximidades. Apesar de as autópsias ainda não terem sido concluídas, até o momento apenas uma pessoa parece ter morrido por ferimento de bala em cada local.

Em outro incidente, Winn e o tenente Dwayne Scheuermann, o comandante assistente da SWAT, disseram que cada um atirou e feriu um homem empunhando uma arma perto de pessoas que se refugiaram em uma rodovia Interestadual. Winn disse que a equipe SWAT também trocou fogo com saqueadores na Tchoupitoulas Street.

A violência que parecia mais difícil de explicar era a dos relatos de disparos contra equipes de resgate e reparos, incluindo policiais e bombeiros, funcionários de construtoras e serviços públicos.

Funcionários de reparo da rede de telefonia celular tiveram que abandonar o trabalho após disparos vindos do projeto habitacional Fischer, em Algiers, disse Winn. Sua equipe varreu a área três vezes. Em uma varredura, agentes federais encontraram um rifle semi-automático AK-47, disse Winn.

Para os oficiais militares, que realizaram missões de resgate por toda a cidade, os relatos de que pessoas estavam atirando contra os helicópteros provaram ser falsos. "Nós investigamos um incidente, que revelou que ocorreram disparos em terra, não contra o helicóptero", disse o major Mike Young da Força Aérea. Supostos estupros e homicídios depois do furacão seriam invenções George El Khouri Andolfato

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