UOL Notícias Internacional
 

01/10/2005

Acostumados com corrupção, moradores da Louisiana vêem reconstrução com cautela

The New York Times
Peter Applebome e Jeremy Alford

Em Nova Orleans
Há várias razões para que, após dois furacões, a Louisiana esteja encarando a futura conjunção entre os políticos estaduais e os bilhões de dólares em verbas de ajuda federal com uma dose similar de medo e de esperança.

Para quem não sabe, eis os fatos: nove meses antes de o furacão Katrina ter atingido o Estado, três autoridades do setor de prontidão para emergências da Louisiana foram acusadas de praticar obstrução e mentir em um caso relativo ao uso indevido de US$ 30,4 milhões destinados à ajuda a áreas atingidas por desastres.

A Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (Fema, na sigla em inglês), tentou sem sucesso recuperar o dinheiro após uma investigação de um programa para a indenização de donos de casas em áreas sujeitas a enchentes.

Os inspetores federais dizem que, entre outros problemas, quase meio milhão de dólares foi gasto de forma inapropriada com itens como uma viagem à Alemanha, pagamento de dívidas de uma associação profissional, compra de equipamento de informática e aquisição de um automóvel Ford Crown Victoria.

Aqueles US$ 30 milhões representam um trocado quando comparados aos cerca de US$ 200 bilhões em verbas federais esperadas para a reconstrução da Costa do Golfo. Mas, à medida que Nova Orleans se concentra na colossal tarefa de procurar tornar-se novamente uma cidade funcional, os moradores da Louisiana --cansados, furiosos e amedrontados após os furacões Katrina e Rita-- parecem estar tão conscientes da história de corrupção e incompetência no Estado, quando da sua catastrófica meteorologia.

Criticar o governo é o passatempo nacional, e a natureza, e não o homem, causou as tempestades. Mas o fato essencial a ser lembrado enquanto prossegue a reconstrução de Nova Orleans é que talvez nenhum Estado possua uma cultura política tão excêntrica e problemática.

Este, afinal, é o Estado no qual os eleitores criaram um adesivo para automóveis com os dizeres, "Votem no patife. É importante.", para pedir um "voto repugnante" em Edwin Edwards para o cargo de governador em 1991, contra o ex-membro da Ku-Klux-Klan, David Duke (aliás, ambos acabaram na prisão).

Este é um local que o escritor A.J. Liebling descreveu como sendo a resposta norte-americana ao Líbano. No livro clássico de V.O. Key Jr., "Southern Politics in State and Nation" ("A Política Sulista no Estado e na Nação"), o capítulo sobre a Louisiana é intitulado simplesmente "The Seamy Side of Democracy" ("O Lado Sórdido da Democracia").

Ao contrário, por exemplo, dos furacões em série que atingiram a Flórida no ano passado, o furacão Katrina e o processo de reconstrução que se seguiu estão sendo vistos como tão relacionados à política e ao governo quanto ao vento e à chuva.

O povo está tão cético que, quando Juan Parke, consultor de computação que aguardava a chegada do furacão Rita em um bar na Rua Bourbon, foi indagado sobre o motivo pelo qual o Estado faria uso antecipado das verbas federais, ele deu de ombros e disse: "Acredito que haverá uma certa dose de ineficiência e de corrupção, mas até os ladrões só são capazes de usar duas mãos de cada vez, de forma que haverá dinheiro suficiente para que se consiga algo de bom".

Muita coisa mudou desde os dias de Huey e Earl Long e do apogeu da Louisiana como unidade politicamente burlesca da federação, e as autoridades atuais mais proeminentes do Estado não foram atingidas pelo escândalo. Mas quando o tema em Baton Rouge, em 2003, para a Spanish Town Mardi Gras, uma mistura anual de alegria e sátira política foi "Louisiana Purchase: Name Your Price" ("Compra da Louisiana: Dê o Seu Preço"), não era necessário ser um especialista em política estadual para entender a piada.

Várias autoridades estaduais recentes, de fato, já foram condenadas à prisão. Edwards estão cumprindo pena de dez anos em uma prisão federal por extorquir dinheiro dos candidatos à obtenção de licenças para cassinos em barcaças. Jerry Fowler, um ex-comissário eleitoral do Estado, cumpriu recentemente uma pena de quatro anos de prisão por estar envolvido em um esquema de propinas; e Jim Brown, um ex-comissário de seguros, saiu de uma prisão federal em 2003, após se tornar o terceiro comissário de seguros consecutivo a ser encarcerado.

E as autoridades acusadas no outono passado, incluindo dois funcionários antigos do Departamento Estadual de Segurança Interna e de Prontidão para Emergências, desempenhavam papéis diretamente relacionados com a prevenção de enchentes. Michael L. Brown, acusado de conspiração e de obstruir uma auditoria federal, estava à frente do Programa Estadual de Verbas para Mitigação de Riscos, que implementa projetos para a prevenção de perdas causadas por enchentes. Michael C. Appe, também acusado de conspiração, foi o responsável pelas finanças do programa.

Ambos afirmaram não ser culpados perante a Justiça, e foram afastados temporariamente dos seus cargos. Uma auditoria federal revelou que o programa despendeu dinheiro de forma inapropriada e não usou de maneira correta as verbas federais. A auditoria citou duas autoridades estaduais, cujos nomes não foram revelados, que disseram que o Estado não sabe como utilizar apropriadamente os dólares federais.

"Tratamos tudo como se fosse um grande fundo geral", disse a autoridade aos auditores. "Se não gastarmos o dinheiro, eles o tomam de volta".

Esse tipo de atitude com relação aos procedimentos federais pode não inspirar confiança quando bilhões de dólares são direcionados para a Louisiana. Do jeito que as coisas estão, a falta crônica de financiamento dos serviços estaduais, o sistema educacional precário e uma base trabalhista que recebe baixos salários fizeram com que se afirmasse com freqüência que a Louisiana lembra uma nação do Terceiro Mundo.

Também continua inalterada a sua eterna divisão étnica, mais ou menos cindida entre negros, brancos protestantes e cajuns --e a divisão entre Nova Orleans e tudo o mais--, que fez com que a política estadual se concentrasse basicamente em amalgamar alianças de grupos de interesses específicos, em vez de apelar para o bem comum. Todos esses fatores complicarão o processo de reconstrução.

Os moradores do Estado, em sua maior parte, têm oscilado entre ver a política como um entretenimento e encará-la como um desastre ferroviário, mas atualmente o aspecto humorístico pode estar em baixa.

Assim, quando Matthew McCann ofereceu recentemente as suas sugestões para a reconstrução de Nova Orleans em uma carta ao jornal "The Times-Picayune", ele falou por muitos outros, quando concluiu: "Durante os meus 20 anos em Nova Orleans, tudo o que vi foi zombaria, tramóia, ambição e corrupção".

É claro que muita gente também não quer ver o governo federal escapar como inocente.

Doug Barden, um garçom do Cassino Harrah's, em Nova Orleans, disse que o que deixou os diques vulneráveis não foram as decisões tomadas pelas autoridades locais. Para ele o desastre se deve à falta de apoio federal durante 30 anos e aos cortes dos investimentos no Estado, a fim de que o governo federal pagasse os despesas da guerra no Iraque.

"Temos um presidente que gasta o nosso dinheiro na guerra no Iraque enquanto a infraestrutura em todos os Estados Unidos está caindo aos pedaços", denunciou Barden. "De quem é a culpa? Do Estado?".

John Maginnis, jornalista, escritor e editor de um periódico de circulação estadual, disse que a reputação da Louisiana de mau comportamento ultrapassou a realidade, e que quaisquer que sejam as falhas observáveis nos atuais atores políticos --a governadora Kathleen Babineaux Blanco, os senadores Mary L. Landrieu e David Vitter, e o prefeito C. Ray Nagin, de Nova Orleans--, nenhum deles foi protagonista de escândalos éticos significativos.

Ele disse que os líderes estaduais estão se apressando a propor salvaguardas éticas, como o telefonema de Vitter ao presidente Bush para que este nomeasse uma comissão independente e apolítica para supervisionar os gastos. Na pior das hipóteses, tal comissão posicionaria melhor o Estado naquilo que já está se transformando em uma competição por verbas federais com o Mississipi (o medo de perder dinheiro para outros Estados provavelmente excede o temor de gastar essas verbas inapropriadamente).

Ao mesmo tempo, outros políticos da Louisiana esbravejam, dizendo que as verbas estão sendo repassadas ao Estado de forma desnecessariamente vagarosa.

"Não é desta forma que teremos a nossa economia e a nossa comunidade de volta", disse o deputado Charlie Melancon, um democrata que representa uma grande porção da região mais atingida da Louisiana. "Fico totalmente frustrado ao constatar que todo mundo acha que sabe o que é certo. Gente de Nova York está nos dizendo o que fazer. É como se fôssemos uma outra raça diferente do restante da população do país. Estou cansado disso".

Ainda assim, por mais que o Estado tenha progredido, até mesmo os seus próprios moradores freqüentemente não enxergam esse fato. Um estudo feito neste ano pelo Laboratório de Pesquisas de Políticas Públicas da Universidade Estadual da Louisiana revelou que 66% dos entrevistados disseram acreditar que o Estado está tão corrupto como sempre foi, ou talvez até mais corrupto do que no passado.

E quase todos concordam que este período será de teste da determinação política da Louisiana, não só em termos de integridade, mas também nas áreas de igualdade social e de preocupação com os pobres, à medida que dolorosas decisões forem tomadas a respeito de que áreas serão reconstruídas ou não.

Especialmente problemático será decidir como e se reconstruir o bairro Lower Ninth Ward, de Nova Orleans, uma região pobre e habitada por negros, inundada sistematicamente, mas na qual moram 40 mil pessoas, assim como porções igualmente devastadas do preponderantemente branco bairro Saint Bernard Parish, no leste da cidade.

"Para a Louisiana, este é o momento que nos dirá para sempre quem somos nós", disse Barry Erwin, presidente do Conselho Para Uma Louisiana Melhor, um grupo apartidário e sem fins lucrativos que monitora o governo estadual.

"Nos encontramos em um estágio no qual podemos aproveitar a ocasião e reconstruir o nosso Estado? Ou vamos desperdiçar esta oportunidade de tirar o máximo proveito de uma situação horrível? Não temos alternativa --precisamos fazer a coisa certa". Famoso por escândalos, o Estado é comparado a país do 3º mundo Danilo Fonseca

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