UOL Notícias Internacional
 

01/10/2005

Sul rural, após o Rita, vê-se perdido e esquecido

The New York Times
Jennifer Steinhauer

Em Cameron, Louisiana
Costumava haver uma loja de ferragens aqui, de acordo com as evidências de raspadores de tinta, potes e frigideiras de cobre, cabos de força e tomadas enterrados na lama e mato.

Também havia casas onde lençóis agora estão pendurados em árvores como enfeites de Natal. Aqui e acolá, há um telhado arrancado, um barco de pesca feito em pedaços com o choque contra um carvalho, um arquivo entortado na lama escura, com suas pequenas abas coloridas cruelmente intactas em meio ao cascalho.

Isto é tudo o que restou de Cameron, assim como da vizinha Creole. Estas cidades, que foram abertas na sexta-feira (30/09) aos moradores pela primeira vez, são parte de um arquipélago de assentamentos rurais da Louisiana e do Texas que foram essencialmente eliminados pelo furacão Rita, cuja força apenas agora está começando a se revelar, uma semana após sua passagem.

Por ter poupado Houston, Galveston e outras cidades no Texas que esperavam ser devastadas pela sua força e ventos, o furacão Rita foi amplamente visto como um chihuahua em comparação ao bulldog que foi o furacão Katrina, algo de que as pessoas se esquivaram em vez de terem sobrevivido. Mas em cidades como esta, fica brutalmente claro que de Shreveport, ao norte, a Pecan Island, ao sul, do extremo leste de Houston até Nova Orleans, a força do Rita foi tão ou mais forte do que a de seu antecessor.

Ele tomou vidas --muitas enquanto as pessoas tentavam fugir-- despedaçou casas e negócios, destruiu mais sondas de petróleo do que o furacão Katrina, e deixou centenas de quilômetros de área rural sem energia elétrica pelo futuro próximo.

"O povo americano já viu tanta destruição que está saturado", disse Charles Gibson, um soldado da Guarda Nacional da Carolina do Sul que foi um dos primeiros forasteiros a chegar aqui. "Pode não ter tido muito incentivo para as pessoas virem até estas pequenas cidades. Mas para as pessoas daqui que estão totalmente devastadas, elas se sentem deixadas de lado e ignoradas, como se a história delas não tivesse sido contada."

O furacão Rita trouxe uma dor indelével para as vidas de pessoas como os Pughs, cuja família composta de 50 pessoas perdeu todas as suas casas exceto uma. Na sexta-feira, o primeiro dia em que foi autorizada a voltar à cidade, Wardella Pugh e vários membros de sua família recolheram o que restou de sua loja, a D's Hardware and Tackle, tentando reconhecer um pedaço do teto e salvando coisas como o pequeno pote florido, que estranhamente sobreviveu aos ventos que arrasaram o restante de Cameron. "Você recolhe o que pode", disse Pugh.

Carros faziam fila pela Estrada 27, com vizinhos, com olhares descrentes, chamando uns aos outros pela janela. "Lamento muito, Wardella!" gritou um vizinha de sua picape. Pugh respondeu apenas com um olhar. "Você nasce e é criada em um lugar e você apenas deseja voltar", disse ela. "Mas quando tudo o que você vê é uma pilha de escombros, eu não sei mais."

Tendo atingido semanas antes, o furacão Katrina parece ter dado a esta região um presente com muitos dividendos: medo. Ao verem o que a tempestade provocou em Nova Orleans e além, centenas de moradores que, caso contrário, teriam optado por enfrentar a tempestade, fugiram para lugares como Jasper, Texas, onde o furacão Rita deu uma guinada rápida, inesperada, segundo as autoridades locais e refugiados que posteriormente voltaram.

"Se não tivesse acontecido o Katrina, eu acho que todos teriam ficado", disse Shannon Van Gossen, que estava comprando um gerador na sexta-feira no Lowe's, em Lake Charles, Louisiana. Mas sua família foi para nordeste até McComb, Mississippi, que ainda passa os dias sem eletricidade.

Além disso, após sofrerem fracassos embaraçosos de comunicações e resposta com o furacão Katrina, as agências locais e federais parecem ter sido rápidas e agressivas no envio de ajuda nesta direção, como concordam as autoridades e moradores.

"Eu acho que a FEMA está trabalhando além do limite, mas a resposta está boa a esta altura", disse Todd Hunter, o chefe de polícia de Jasper, onde 95% da rede elétrica foi destruída. "Esta tempestade fez algo muito imprevisível ao mudar de direção. Foi algo sem precedente aqui."

Jasper County [Texas] tem provado ser uma área muito difícil para as autoridades do governo e grupos de ajuda percorrerem. Ela é extensa e extremamente rural, e funcionários da Cruz Vermelha descreveram a chegada em pequenas áreas não corporativas onde pessoas estavam presas em suas casas atrás de um labirinto de árvores.

"Aqui ocorrem algumas das coisas mais tocantes que já vi em muito tempo", disse Brian Woodward, o supervisor de campo da Cruz Vermelha Americana em Jasper, com os olhos cheios de lágrimas. "Quando um homem de 80 anos, que não come há quatro dias, recebe de você um prato com carne e milho, pão e manteiga, e ele lhe abraça, isto mexe com você."

As duas tempestades criaram uma diáspora no Sul, com refugiados do furacão Katrina se vendo novamente em trânsito, desta vez acompanhadas de pessoas das cidades em eles se abrigaram. "Nós tínhamos um monte de pessoas do Katrina aqui, e todos tiveram que partir", disse Van Gossen.

Nos últimos dias, várias famílias começaram a consertar seus telhados, remover os escombros em seus quintais, telefonar para as companhias de seguro e rezar pela frente fria que está avançando. E algumas pessoas estavam oscilando entre revolta e descrença. "Você teria interesse em um velho barco usado para pesca de camarão?" disse Leonard Aulds, após sair de trás do que restou de seu barco de 12 metros, agora preso em volta de uma árvore, com seu cabelo alaranjado balançando no vento leve.

O barco, que assim como seu trailer não existe mais, estava ancorado no rio, a quase um quilômetro de seu atual local de descanso em Creole. Ele foi carregado por uma onda gigante pela Estrada 27 e terminou em uma árvore, explodindo em uma massa de madeira e metal, com seu motor exposto, arrancando a casca do carvalho que atingiu. "Eles ficavam nos dizendo na estação meteorológica que ele iria para Houston, para Houston, e que teríamos ventos de 24 km/h. Nós poderíamos enfrentar alguma chuva."

Isto representou o fim de seu negócio de pesca de camarão, assim como de sua cidade. "Todos fora daqui estão preocupados com Houston e Nova Orleans", disse ele, pegando um cigarro. "Nós estamos cheios disto. Esta tempestade atingiu a paróquia de Cameron dez vezes mais forte do que a que atingiu Nova Orleans, mas ninguém nem mesmo sabe." Pequenas comunidades são destruídas, mas não recebem atenção George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host