UOL Notícias Internacional
 

02/10/2005

Classe média vê o dia-a-dia definhar no Iraque

The New York Times
Sabrina Tavernise
Em Bagdá, Iraque
Da janela de seu quarto, Nesma Abdul-Razzaq, uma dona de casa de 43 anos, já assistiu rebeldes atirarem granadas de um gramado perto de seu jardim. As patrulhas freqüentes de tanques americanos fazem a casa trepidar. Uma bala perfurou uma vidraça.

"Você não pode viver em segurança se cooperar com qualquer um dos lados", disse ela, no quarto de sua casa, localizada na zona oeste de Bagdá, uma região controlada pelos rebeldes. Assim, quando as tropas americanas ofereceram pagar pelo uso da laje da casa no mês passado, ela educadamente recusou. "O que eu diria aos vizinhos?" disse ela.

Dois anos e meio depois da invasão americana, a violência não exibe sinal de diminuição, e a vida para os iraquianos de classe média parece apenas estar piorando.

Instruída, com investimento em negócios e propriedades e ansiosa por mudanças, a classe média daqui tinha tudo a ganhar com o esforço americano.

Mas a frustração está se transformando em desesperança, à medida que as famílias se sentem cada vez mais encurraladas pelas muitas forças que estão ameaçando dividir o país.

Os rebeldes travam combates armados nas suas ruas. As divisões sectárias estão se infiltrando nas salas de aula de seus filhos e até mesmo nas discussões de suas próprias mesas de jantar. Suas vozes seculares mal são ouvidas acima do barulho dos políticos religiosos e dos iraquianos mais pobres para os quais apelam. A vida diária que descrevem é uma pista de obstáculos de filas para gasolina, ruas bloqueadas e reparos no gerador tarde da noite.

Nos lares destas famílias, a conversa freqüentemente é sobre partir.

Placas de "À Venda" enchem os portões das casas em seus bairros. Mas reunir os filhos e parentes está provando ser difícil, de forma que muitas famílias, potencialmente as construtoras mais hábeis da democracia aqui, estão se preparando para um futuro que, para elas, parece cada vez mais sitiado.

No último ano, os rebeldes passaram a controlar grandes trechos da zona oeste de Bagdá, incluindo Khabra, uma área onde vive Abdul-Razzaq, o marido dela, Monkath, e seus dois filhos, de 12 e 9 anos, em um sobrado espaçoso. A janela do quarto deles dá vista para vias elevadas que são as principais artérias para a capital vindas do norte e oeste, onde os rebeldes estabeleceram zonas proibidas.

Em quatro ocasiões nos últimos meses, Abdul-Razzaq viu homens, às vezes mascarados, atravessando seu quintal, carregando lançadores de granadas propelidas por foguete em seus ombros. Certa vez, vários homens dispararam contra um comboio americano de trás de uma tenda funerária próxima de sua casa. Soldados americanos freqüentemente aparecem à procura dos agressores. Eles já revistaram a casa dela seis vezes.

A sudoeste em Amariya, a área que faz fronteira com a perigosa estrada que leva ao aeroporto, as batalhas de rua entre os rebeldes e a polícia iraquiana têm sido tão intensas que os dois principais mercados foram severamente atingidos e fecharam. Os moradores agora precisam procurar alimentos em outra parte.

"Nós o chamamos de Triângulo Sunita", disse Abdul-Razzaq sorrindo, uma referência à área tribal ao noroeste de Bagdá onde os rebeldes têm empregado violência para se opor à ocupação desde 2003.

Como resultado, ela e seus filhos têm praticamente permanecido confinados em casa. Eles não mais vão aos parques ou saem para caminhadas. Eles ficam assistindo televisão. Após seis crianças da escola dos meninos terem sido seqüestradas -elas foram devolvidas depois que seus pais pagaram o resgate- a família arranjou para que um motorista leve e traga as crianças da escola.

Mesmo enquanto o bairro deteriorava, Monkath Abdul-Razzaq ­-um engenheiro mecânico de 46 anos e um sunita secular- mantinha a esperança de uma vida melhor aqui. Ele sentiu que a eleição em janeiro era importante para o Iraque e ignorou os comandos dos sunitas religiosos para não votar. No dia da eleição, quando homens caminhavam pelas ruas perto de sua casa, alertando os moradores para não irem às urnas, Abdul-Razzaq saiu furtivamente de sua casa para votar.

Como muitos iraquianos, disse Abdul-Razzaq, ele desprezava Saddam Hussein. Seu tio esteve na prisão por quatro anos. Como oficial do exército iraquiano, ele viu cinco de seus amigos serem executados por traição em 1983, durante a guerra com o Irã. Mas ele também desfrutou dos benefícios de sua conexão com as forças armadas, obtendo contratos para peças sobressalentes depois de ter dado baixa. Ainda assim, a queda de Saddam foi motivo para comemoração, e ele tinha muitas esperanças para seu futuro aqui.

Mas a ascensão dos partidos religiosos nos últimos sete meses minou a esperança remanescente de Abdul-Razzaq. A classe média iraquiana é em grande parte secular, e a maioria de seus membros é ignorada pelos partidos religiosos que apelam para as massas pobres xiitas de um lado e aos sunitas amargurados, que perderam seu status após a invasão liderada pelos americanos, do outro. Abdul-Razzaq votou em um xiita porque o candidato era secular.

O governo religioso xiita do primeiro-ministro Ibrahim Al Jafaari, disse Abdul-Razzaq, está promovendo uma agenda que favorece altamente os xiitas religiosos, ficando mais profundamente uma cunha nas divisões já perigosas na sociedade iraquiana.

"Os americanos nos colocaram em uma situação ridícula", disse ele. "Eles vieram ao Iraque, e todos os partidos religiosos vieram com eles. O homem religioso no Iraque é como uma raposa."

Ele e sua esposa conversaram sobre partir; pelo menos três placas de "Aluga-se" foram colocadas em seu quarteirão. A melhor amiga de sua esposa, uma cristã que vivia na casa do outro lado da rua, se mudou para a Síria com sua família no mês passado.

Mas partir é caro e o dinheiro é escasso. No mês passado, pela primeira vez desde a guerra, Abdul-Razzaq não vendeu nada em sua loja de peças. A renda do prédio do qual é proprietário ajudou a pagar as contas.

"Eu estou muito preocupado", disse ele, transpirando após ir pela terceira vez até o teto para consertar o gerador. "Sem energia elétrica. Sem paz. Você acha que isto é vida? É o inferno." Lá embaixo, sua esposa estava lavando os pratos. "Nestes dois anos eu aprendi a ser paciente", disse ela. "A ser corajosa."

Do outro lado da cidade, em uma área tranqüila do centro de Bagdá, uma família de comerciantes sabe muito bem o que é partir. Dhia Al Din, um xiita de 70 anos, preside três gerações divididas em duas casas. Ao todo, cinco de oito filhos adultos e suas famílias vivem no exterior e ele passa grande parte do ano na Jordânia. Ele falou sob a condição de que o nome de sua família não fosse usado. Ele já recebeu duas ameaças de morte. Um filho escapou de ser seqüestrado e deixou o Iraque com sua família neste mês.

Ele dispõe de meios para partir, mas a emigração está espalhando sua família e lentamente apagando a vida que ele construiu lentamente por décadas.

"Eu perdi meu dinheiro, meu hotel, meu querido trabalho com as pessoas", disse ele, com a voz embargada. "Minha família, ela está desaparecendo."

Então ele acrescentou em um tom de brincadeira apenas parcial: "É tudo por causa dos sunitas".

Sua esposa, Samira, uma sunita, contra-atacou: "Por que os sunitas são sempre os culpados?"

Os dois estão casados há 50 anos e a diferença religiosa nunca pareceu importar. Mas recentemente surgiram novos questionamentos. Um neto de 9 anos foi perguntado na escola no mês passado se era sunita ou xiita. Então uma sobrinha de 24 anos, chamada Rim, teve seu noivado rompido pelos pais do noivo por ela ser sunita.

"Ela chorou e chorou", disse a mãe dela, Hana, sentada em uma grande sala de estar com suas mãos entrelaçadas sobre o colo. "Mesmo se voltassem, eu nunca daria minha filha para eles."

O golpe levou sua filha a sentir sua identidade sunita ainda mais intensamente, ela disse. Isto, por sua vez, causou um problema com um tio, Husham, que foi prisioneiro sob Saddam e agora trabalha como um alto funcionário no novo governo. Outro membro da família o apresentou à visitante, brincando, como "o extremista xiita". Rim deixou de falar com ele depois que ele fez comentários depreciativos sobre os sunitas.

"Ele não devia falar sobre os sunitas daquela forma", disse ela, o evitando com os olhos. "Ele odeia sunitas."

Mais tarde, durante um almoço com quiabo, cordeiro e berinjela, Samira e uma tia nutriam sozinhas uma nostalgia pelo passado. Saddam, segundo elas, ao menos era capaz de manter o fornecimento de eletricidade. Dhia Al Din respondeu furiosamente: "Eles nos matavam como ovelhas".

Seu filho apontou para as pessoas reunidas à mesa, com seus dedos engordurados de frango, e disse: "É um Iraque em miniatura".

Em Mansour, um bairro no limite mais seguro da zona oeste de Bagdá, perto do coração da cidade, a rotina diária da família Abbas segue tranqüilamente em sua casa grande. Salwa Ibrahim prepara bolos de casamento em sua cozinha. Seu marido, Ali Abbas, vende material esportivo em uma loja ao lado.

Seu irmão mais velho, que é deficiente de nascença, assiste televisão em um quarto nos fundos. Até recentemente, a família vivia praticamente protegida da violência. Mas ao longo dos últimos meses, os rebeldes obtiveram um maior controle da área, com alguns alugando casas agora vazias pela partida das famílias.

No mês passado, a família tinha acabado de sair de um restaurante próximo quando um carro explodiu do lado de fora, matando duas pessoas e ferindo 20. Na semana passada, os rebeldes mantiveram reféns em uma casa a poucos quadras de distância. Uma batalha foi travada por horas, até que helicópteros americanos chegaram e dispararam contra a casa.

Ibrahim escutou, horrorizada, de sua cozinha, enquanto a área explodia em disparos. As pessoas na sua rua nem mesmo conseguiam chegar até suas casas, e ela abriu seu portão para quatro estranhos -uma professora, sua filha e dois outros- por várias horas enquanto a batalha se arrastava.

Os membros da família se sentem à vontade em sua casa, mas temem a aproximação da violência. Abbas disse que já pensou em partir, mas com 10 pessoas, incluindo seu irmão, ele praticamente descartou tal opção.

"Somos uma família grande com uma pessoa deficiente", disse ele, sentado à mesa da cozinha. "Não é um trabalho fácil." George El Khouri Andolfato

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