UOL Notícias Internacional
 

02/10/2005

Maserati Quattroporte, uma ópera italiana sobre rodas

The New York Times
Ted West
Em Nova Jersey
Levaram minha Maserati hoje. Não, pior: me fizeram dirigi-la até a revenda em Nova Jersey e devolvê-la. Não foi fácil.

Maserati/New York Times 
A italiana Maserati Quattroporte
Em menos tempo do que se leva para passar fio dental num urso adulto e saudável, minha Maserati e eu havíamos nos tornado uma dupla. Compartilhávamos questões de temperamento e gosto. Estávamos mutuamente intrigados por nossa personalidade, espontaneidade, impetuosidade --em termos de namoro por computador, tínhamos amplos motivos para começar um relacionamento.

Tenho uma fraqueza por coisas italianas, e minha Maserati Quattroporte --está bem, era um carro de teste que foi meu só por uma semana-- era tão italiana que se comunicava com as mãos.

Nestes tempos automotivos homogêneos, o carro étnico tornou-se gravemente indefinido. Para ter precisão e confiabilidade alemã, compramos japonês; para ter economia japonesa às custas do estilo, compramos americano; e para ter luxo de Detroit e desempenho exagerado, procuramos os alemães.

Mas os carros da Itália de certa forma continuam desafiadoramente italianos, em toda a sua grandiosidade verdiana. Meu Quattroporte (significa quatro portas) foi prova disso.

Por que "minha" Maserati?

Quando nos conhecemos, ela me olhou diretamente nos olhos e disse, com um forte sotaque bolonhês: "Meu amigo, para nos darmos bem, primeiro você precisa aprender algumas coisinhas sobre mim. E se você concordar eu o farei se sentir 'stupendo'!"

Eu já tinha passado por esse processo de avaliação antes. Lembro-me de estar numa mesa em Perugia há muito tempo, tentando enrolar tagliatelle no garfo --sem pontas soltas-- sem usar a colher de sopa oferecida aos estrangeiros. Na primeira vez que consegui: "Ah, signore, bravo!"

Como o teste do macarrão se aplica à Maserati Quattroporte?

Bem, considere minha experiência aprendendo a usar o câmbio DuoSelect de seis marchas. Numa tecnologia do tipo Fórmula 1, ele não usa nada tão mundano quanto uma alavanca de câmbio ou um pedal de embreagem. Em vez disso, há dois pequenos controles atrás do volante, um de cada lado. Puxe o controle direito e subirá uma marcha; puxe o controle esquerdo e reduzirá. Deixe-os em paz e o DuoSelect mudará de marcha automaticamente, como o velho Oldsmobile do seu filho.

A boa notícia: é facílimo se acostumar com os controles. Mas lembre que eu disse que o Quattroporte tem personalidade: operado em automático, ele o conduzirá sem esforço pelo indigno anda-e-pára da hora do rush. Mas ouse mexer nos controles e "presto", você estará nas profundas complexidades de "la bella Italia".

O que significa isso? Se o DuoSelect fosse alemão, acionar o controle de marchas iniciaria 200 mil cálculos binários, depois dos quais o câmbio lhe daria um assentimento condescendente e faria o que foi planejado para fazer. Mas se você mexer nos controles na Maserati, ela simplesmente fará o que você pediu. Por isso, peça com cuidado.

Em minhas primeiras experiências, o DuoSelect trocava de marchas como um saco de vidro quebrado. Para acompanhar o tráfego, eu sentia uma série de trancos e ruídos --tan-tank, tan-tank. Isso era perturbador, porque o Quattroporte tem um coração de leão. Com seu V-8 de 4.2 litros tem 395 cavalos e torque de 45 quilos-metro, e o carro dispara até 100 km/hora em 5,1 segundos. O governo americano registra o consumo de combustível em 6,3 km/litro na estrada e 4,6 na cidade, o que justifica a aplicação de um imposto de desperdício de US$ 3.700. E com o motor dianteiro bastante recuado no chassi e a transmissão no eixo traseiro, o carro tem uma excelente distribuição de peso: 48% na frente e 52% atrás. O Quattroporte nunca encontrou uma curva pela qual não se apaixonasse.

Certamente, então, essa elegância italiana deveria mudar de marcha adequadamente. Seria fácil dizer: não, o negócio não é bom. Mas, tendo passado há muito no teste do tagliatelle, eu sabia que em questões italianas pode haver necessidade de certa técnica. E o pessoal da Maserati tinha me avisado que eu encontraria alguns "truques" dirigindo esse carro, o que me pareceu tolo na época.
Mas depois de um dia ou dois de tan-tak, tan-tank, entendi que o DuoSelect era um pouco lento em combinar a velocidade do motor com a velocidade da roda ao trocar de marcha. Experimentei dar um toque no acelerador ao reduzir a marcha, como se faria com um câmbio manual. Funcionou!

Experimentei até dar um toque no acelerador ao aumentar a marcha, o que parece ilógico. O motor não deveria precisar acelerar quando vai para uma marcha maior. Mas, ora, é um carro italiano. A mudança também foi suave e rápida.

Continuei encontrando sutilezas de acelerador em diversas velocidades, e a Maserati ganhou vida --atlética, ágil, pronta para dançar na cabeça de um alfinete. Tudo o que ela me pedia era um certo toque de pé e um pouco de técnica. Trocar de marcha tornou-se como acionar os pedais de um órgão de tubos. Eu estava tocando o DuoSelect como se fosse Puccini.

Como fora prometido, me senti ótimo. Minha Maserati não era uma diva adorável com mau hálito, mas uma dama graciosa e bem-humorada --e ela me achava fascinante!

Os confortos do Quattroporte nunca foram questionados. Projetado para capitães de indústria que também podem jogar polo, esse carro declara que é bom ser rico, mas é melhor ser bonito. Seu interior é sóbrio, requintado e abençoadamente simples. Os sistemas de áudio e de navegação combinados declaram que na Maserati o objetivo não é um manual do motorista de 500 páginas, mas o prazer de dirigir sem distrações. Você define o controle climático com um ou dois gestos --revolucionário pelos padrões excessivamente computadorizados dos carros de luxo atuais. E finalmente eis um ar-condicionado italiano que supera os piores abafamentos de um verão nova-iorquino.

Colocado entre os grandes e belos velocímetro e tacômetro azuis, um mostrador informa o consumo de combustível, a velocidade média, a autonomia de percurso e outras coisas. Controles no volante regulam o som e o telefone.

A coluna do volante se inclina e alonga conforme suas necessidades, e a circunferência e a empunhadura do mesmo lembra que dirigir pode ser uma sensação agradável. No lugar onde costumava ficar o câmbio, uma pequena alavanca em T fornece acesso à marcha a ré.

Os bancos da minha Maserati (não vou desistir dela sem lutar) eram de couro preto com uma bonita borda cinza. E como esse é o tipo de carro voltado para o tipo de gente voltada para esse tipo de carro (se você me entende), os quatro assentos têm ajuste eletrônico.

Isso é importante. Se seu Quattroporte for dirigido por um motorista, enquanto você se senta no camarote, dirigindo o mundo, os bancos traseiros são totalmente senhoriais. Chame-os de sala do conselho.

Depois de ajustar seu banco (para ficar ligeiramente mais alto que o de seu advogado, à esquerda), você pode apertar o que chamo de botão ejetor. Esse dispositivo mágico faz o banco dianteiro deslizar para a frente, dando ao "patrone" o espaço para pernas quase ilimitado que você merece. Os bancos dianteiros são para o pessoal assalariado, de qualquer modo. Que eles batam os joelhos.

Para dar privacidade, há uma cortina elétrica bem escura na janela traseira. Mas esse carro é mais que mera suntuosidade: aprender a usar o DuoSelect é fundamental para compreender sua personalidade. Ele é principalmente um carro de piloto, com o qual você precisa encontrar uma "adaptação".

Lembrou-me de muito tempo atrás, quando eu pegava carona nos Alpes italianos como um verdadeiro sem-destino. Eu esperava horas por uma carona até que finalmente um Alfa Romeo Giulietta Sprint cupê parou. O motorista e seu filho adolescente ocupavam os bancos dianteiros, então me enrolei como uma bola no de trás --mas depois da longa espera, não me queixei. O motorista era um clássico italiano do norte: bronzeado, com costeletas grisalhas, num terno de tweed impecável. Audrey Hepburn teria olhado para ele, duas vezes.

Ele acelerou fundo pela pista dupla cheia de curvas, os pneus cantando em cada curva. Estávamos voando. Mas não era a velocidade do motorista que me intrigava --era sua completa calma e segurança. O perfeito motorista cavalheiro italiano, ele sabia o que estava fazendo em cada milímetro do caminho.

Minha tese? Hoje ele dirigiria um Quattroporte DuoSelect --rápida e impecavelmente, e sem o tan-tank.

Os bons carros italianos não são para qualquer um, e não apenas porque este custa US$ 106.850. Fora o aspecto financeiro, o Quattroporte está fora de alcance em termos filosóficos. Um carro de performance que exige do motorista, ele espera habilidades de pessoas que são apaixonadas por dirigir, e retribui essas habilidades com mais envolvimento, mais personalidade automotiva do que qualquer coisa fora de uma pista de corrida.

Mas e suas idiossincrasias?, você pergunta. Qual o problema? Os truques e estranhezas dos grandes carros italianos os tornam queridos por seus motoristas. O modo manual do DuoSelect não apenas lhe dá maior controle da velocidade do motor e da roda do que a transmissão totalmente automática, como você também é convidado a praticar uma nova técnica satisfatória.

O Quattroporte compete com mega-sedãs de seis dígitos como o Mercedes-Benz S600 e o BMW 760Li. A Maserati está vendendo cerca de mil desses carros por ano nos EUA, com outros mil encontrando compradores em outras partes do mundo.

Duas novas versões dele estão chegando para 2006, um Sport GT mais agressivo e um mais confortável Executive GT.

O Quattroporte é para os poucos fiéis que acham que um carro deve ter alma. Esses motoristas adoram um carro cuja individualidade é inconfundível. Afinal, as maiores personalidades humanas são cheias de particularidades. Por que não um grande carro de performance? Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host