UOL Notícias Internacional
 

04/10/2005

Começa a investigação do acidente que matou 20

The New York Times
Michael Cooper*

No Lago George, Nova York
O barco de turismo que virou no Lago George no domingo, matando 20 turistas idosos de Michigan e Ohio e lançando outros 27 na água, não tinha os dois tripulantes a bordo exigidos por sua licença, disseram autoridades na segunda-feira (03/10).

O barco, o Ethan Allen, transportava 47 passageiros e um tripulante --seu piloto-- quando afundou, disseram os investigadores. Mas a licença da embarcação exigia a presença de pelo menos dois tripulantes --o piloto e um ajudante-- sempre que transportasse mais de 21 passageiros, disse Wendy Gibson, uma porta-voz do Escritório de Parques, Recreação e Preservação Histórica do Estado, que regula os barcos comerciais.

Ozier Muhammad/The New York Times 
Barco é resgatado do fundo do lago por meio de bolsas infláveis postas por mergulhadores

Na noite de segunda-feira, o Estado suspendeu as licenças de operação de cinco outros barcos de cruzeiro de propriedade da Shoreline Cruises, citando seu aparente fracasso em cumprir as exigências de tripulação para o Ethan Allen. As autoridades disseram que os investigadores determinarão se qualquer lei criminal foi violada. Os responsáveis pela Shoreline Cruises não retornaram os telefonemas que pediam comentários na noite de segunda-feira.

Não se sabe se a presença de um segundo membro da tripulação a bordo do Ethan Allen poderia ter alterado o resultado trágico em um dos mais belos e populares lagos do Estado, dada a velocidade com que o barco virou e afundou e o fato de que nenhum dos turistas idosos a bordo, alguns com andadores, usavam coletes salva-vidas. Mas é possível que a presença de uma segunda pessoa teria ajudado a salvar vidas na água, ou tomado alguma medida para ajudar a corrigir o barco antes de ter virado.

As autoridades informaram inicialmente que 21 pessoas tinham morrido, mas na segunda-feira elas disseram que 20 dos 47 turistas a bordo do barco tinham perecido.

A revelação de que o Ethan Allen não contava com os dois tripulantes exigidos por sua licença ocorreu enquanto uma equipe de mergulhadores erguia com muito trabalho o barco do fundo lamacento do lago, a mais de 20 metros de profundidade, e investigadores locais, estaduais e federais trabalhavam para determinar as causas do acidente em uma dia de tempo bom.

E ocorreu enquanto os parentes das vítimas começavam a chegar aqui, vindos de Michigan, para reclamar os corpos dos mortos, e enquanto a maioria dos sobreviventes --homens e mulheres, casais e vizinhos, todos em uma excursão de outono pela região da Nova Inglaterra-- começava a voltar para casa de ônibus. Às 16h45, os responsáveis do Glens Falls Hospital disseram que oito pessoas continuavam hospitalizadas.

O capitão do barco, Richard Paris, 74 anos, disse aos investigadores que o barco virou depois que ele tentou fazer uma manobra em uma grande onda, ou onda provocada por algum outro barco, disseram as autoridades. "Ele disse que o barco enfrentou algumas ondas e que o barco virou quando ele tentou deviar de uma delas", disse o xerife Larry Cleveland, de Warren County, que está comandando a investigação.

Mas Cleveland disse não saber se havia qualquer embarcação nas proximidades capaz de provocar uma onda grande o bastante para virar um barco de turismo.

Paris, um policial estadual aposentado de Nova York que pilota barcos há cerca de 20 anos, disse para um repórter na noite de segunda-feira que seus empregadores e advogados o aconselharam a não discutir o incidente. "Eu fiz o que pude, mas não foi o bastante para algumas pessoas", disse ele, parecendo perturbado ao sair para a varanda traseira enquanto sua esposa, Ruth, preparava o jantar.

Os investigadores tentavam determinar na segunda-feira que papel, se é que teve algum, a distribuição dos assentos do barco pode ter tido no naufrágio do Ethan Allen.

Citando os relatos dos sobreviventes, as autoridades disseram durante a tarde que acreditavam que os assentos do barco não estavam presos ao convés, e que a primeira onda a atingir o barco podia ter feito muitos passageiros idosos deslizarem pelo convés em seus assentos, desequilibrando o barco e possivelmente o fazendo virar. Mas quando o barco foi trazido de volta à superfície, eles encontraram os bancos de madeira fixados ao chão.

O governador George E. Pataki, que veio para cá na segunda-feira, chamou o naufrágio do Ethan Allen de uma "tragédia de proporções imensas" e prometeu uma ampla investigação.

Mark V. Rosenker, o presidente da Junta Nacional de Segurança do Transporte, disse que sete investigadores estavam iniciando o longo e meticuloso trabalho de tentar determinar as causas do acidente. "É cedo demais para determinar o que aconteceu lá no lago", disse ele em uma coletiva de imprensa pela manhã.

Com o resgate do Ethan Allen, os investigadores terão algo com que trabalhar. Os mergulhadores --incluindo alguns dos mesmos mergulhadores da polícia estadual que ajudaram a resgatar os destroços do vôo 800 da TWA no Oceano Atlântico, em 1996-- foram ao fundo do lago com bolsas infláveis gigantes que chamam de "lift bags". Assim que as bolsas foram posicionadas, elas foram infladas, e o barco de 11 metros subiu lentamente à superfície.

A bandeira americana encharcada do barco foi uma das primeiras coisas a emergir das águas por volta das 16h30.

Uma mensagem na secretária eletrônica da Shoreline Cruises dizia: "A família Shoreline está profundamente entristecida pela tragédia de ontem a bordo do Ethan Allen", e prosseguia dizendo que a empresa está cooperando plenamente com os investigadores da junta de segurança.

Para os sobreviventes, a virada do barco foi um terror que dificilmente esquecerão.

Jeane Siler, 76 anos, de Trenton, Michigan, veio na excursão para aliviar a tensão do trabalho voluntário para a Cruz Vermelha Americana na Louisiana, onde ajudou as vítimas do furacão Katrina. "E nós estávamos tendo uma bela viagem", disse ela. "O tempo estava lindo. Tudo o que fizemos foi festivo. Éramos todos amigos."

"Eu estava falando com uma amiga, conversando", ela se lembrou. "Se havia uma onda, eu não percebi. Eu vi o barco guinar. Ele guinou em uma onda, então percebi o convés ficar molhado. Eu não sei por que, mas me levantei. E não sei se pulei ou fui jogada pelo barco quando ele virou."

Então ocorreu o pandemônio.

"Todos os meus amigos ao meu redor, alguns deles, sem saber nadar, estavam se debatendo", lembrou Siler. "Alguns estavam gritando. E aqueles que podiam estavam tentando se agarrar à lateral do barco."

Uma pessoa agarrou o pé de Siler. Outra mulher começou a gritar. "Eu pedi a ela que não gritasse, porque estava deixando algumas das outras pessoas em pânico", disse Siler. "Ela apenas estava apavorada."

"Quando eu saí do barco, eu agradeci a Deus por ter me permitido continuar viva", disse Siler. "E rezei para que meus amigos também tivessem sobrevivido. E fiquei um tanto entorpecida. Eu sei que comecei a tremer. Eu não conseguia parar de tremer."

*Colaboraram Al Baker, Sewell Chan, John Holl e Donna Liquori com reportagem. Barco de turismo transportava 47 passageiros; maioria era de idosos George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,28
    3,182
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,29
    64.676,55
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host