UOL Notícias Internacional
 

04/10/2005

Escolha mostra Bush sem muita vontade de lutar

The New York Times
Richard W. Stevenson

Em Washington
Ainda há muito o que saber sobre Harriet E. Miers, mas ao indicá-la para a Suprema Corte, o presidente Bush revelou algo sobre si mesmo: que ele não está com apetite, em um momento em que ele e seu partido estão cercados de problemas, para uma batalha ideológica total.

Muitos de seus ardorosos simpatizantes na direita esperavam que ele fizesse uma escolha claramente conservadora, que atendesse à meta deles de alterar claramente o equilíbrio da Suprema Corte, mesmo ao custo de uma amarga batalha pela confirmação.

Mas, ao optar por uma pessoa leal ao governo, sem experiência em magistrado e sem histórico substancial sobre aborto, ação afirmativa, religião e outras questões socialmente divisórias, Bush se esquivou de um confronto direto com os liberais e, na prática, pediu à sua base na direita que confie nele nesta escolha.

A pergunta é: por quê?

Por um lado, seus motivos para tentar evitar um confronto partidário são óbvios, e se resumem à sua relutância em investir seu capital político cada vez menor em uma batalha pela Suprema Corte.

A Casa Branca ainda está tentando se recuperar de sua resposta falha ao Furacão Katrina. O Partido Republicano está ocupado tentando dispersar o cheiro de escândalo do segundo mandato. A sangrenta insurreição no Iraque continua pesando nos índices de aprovação de Bush. E nenhum presidente pode manter sua autoridade política por muito tempo se perder o apoio do centro.

"A bravata sumiu desta Casa Branca", disse Charlie Cook, um analista político independente, citando uma série de outras dificuldades enfrentadas pelo governo, incluindo os altos preços da gasolina e o fracasso de Bush em promover a reforma do Seguro Social. "Eles sabem que têm problemas horríveis e optaram pela opção menos arriscada que podiam fazer."

Vista de outra forma, a escolha é ainda mais difícil de explicar. Ao escolher Miers, Bush se aprofundou ainda mais em uma mata política que já jogou por terra sua imagem bem cuidada de competência, com críticas de que tem a tendência de encher o governo de amigos em vez de pessoas escolhidas apenas por suas qualificações.

Talvez ainda mais sério para ele e seu partido, ele deixou muitos conservadores irritados e diminuídos, quando não traídos, agravando enormemente um problema que tem se tornado mais agudo nas últimas semanas, devido à preocupação da direita sobre os gastos descontrolados do governo após o furacão Katrina.

Para um governo que a todo momento tem tentado evitar os erros do pai de Bush, especialmente a alienação por parte do primeiro Bush da ala direita e a subseqüente falta de entusiasmo pelo esforço para sua reeleição em 1992, as repercussões na segunda-feira (03/10) foram particularmente evidentes.

Há poucos meses e uma época política atrás, Bush estava disposto a ir ao ringue por uma indicação conservadora controvertida, pressionando repetidas vezes o Senado a confirmar John R. Bolton como embaixador na ONU e então nomeando Bolton durante o recesso, após os democratas o bloquearem.

Na segunda-feira, enfraquecido e lutando para evitar um fim de gestão prematuro, o governo tentou se defender contra as sugestões da direita de que não apenas perdeu o rumo, mas também sua coragem.

Escrevendo para o "National Review Online", David Frum, um comentarista conservador e ex-redator de discursos de Bush, disse que os simpatizantes do presidente tinham motivo "para ficarem desapontados e alarmados".

Quando o vice-presidente Dick Cheney, que foi enviado a programas de rádio conservadores na segunda-feira, defendeu a escolha diante de Rush Limbaugh, dizendo que em dez anos Miers provará ter sido uma "grande indicação", Limbaugh respondeu: "Por que precisaremos esperar dez anos?"

Miers é sem dúvida uma conservadora, e após ter trabalhado estreitamente com ela por mais de uma década, Bush está claramente à vontade de que ela atende ao padrão que ele freqüentemente busca para seus candidatos ao Judiciário, o de que interpretem fielmente a Constituição e que não legislem a partir dos tribunais.

Não há nada em seu retrospecto que sugira que se desviará da doutrina conservadora em seu modo de pensar, e alguns indicadores, incluindo seu envolvimento em uma igreja evangélica e uma disputa em torno de aborto na qual se envolveu quando comandou a Ordem dos Advogados do Texas, mostram que ela faz parte do movimento social conservador.

Mas não há nenhuma evidência pública clara de que ela atende outro quesito que Bush sugeriu há muito tempo que aplicaria aos seus candidatos: o de que se enquadrariam no estilo dos ministros Antonin Scalia e Clarence Thomas, que têm buscado agressivamente pender a Suprema Corte para a direita, se transformando assim em heróis para muitos conservadores.

O que Miers leva para a Suprema Corte é um longo histórico de lealdade a Bush, uma característica que alguns analistas disseram que seria atrativa para a Casa Branca em um momento em que a corte enfrenta uma série de conflitos, além do aborto e outras questões sociais, que são de preocupação imediata para o governo.

O principal entre eles, disse William P. Marshall, um ex-vice-conselheiro da Casa Branca no governo Clinton, é o sigilo do governo e do Poder Executivo. Em ambas as áreas, Bush tem buscado estabelecer uma ampla liberdade de ação para o Poder Executivo, especialmente no combate ao terrorismo e extremismo religioso em casa e no exterior.

"Não há melhor forma de proteger suas prerrogativas nestas áreas do que nomear alguém que é, em primeiro lugar, leal ao governo e, em segundo lugar, uma ideologia", disse Marshall, um professor de Direito da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.

Além da política, ideologia e o pensamento de Bush sobre os assuntos na agenda da Suprema Corte, há outra forma de avaliar sua seleção. Bush sempre se orgulhou de sua habilidade de julgar caráter e colocar em cargos importantes e sensíveis pessoas com as quais se sente à vontade. Ele valoriza a lealdade, e Miers já serviu em uma longa lista de cargos com uma das características mais valorizadas pela família Bush, a discrição.

Bush também parece gostar de desafiar, de vez em quando, o lugar comum da política, ao se distanciar da confusão cotidiana de Washington para ter uma melhor visão. E ele sempre gostou de se cercar de mulheres fortes --uma característica reforçada publicamente por Laura Bush, que expressou mais de uma vez a esperança que ele indicaria uma mulher para a Suprema Corte.

"Há um ponto em que como presidente você não pode arriscar tudo", disse Charles O. Jones, um professor emérito de ciência política da Universidade de Wisconsin. "Você precisa ir ao âmago de sua forma de fazer as coisas. Esta é uma indicada, eu acredito, em quem ele tem confiança e sente que ela tem as qualidades para o cargo. Presidente tenta evitar conflitos ideológicos ao indicar juíza à Corte George El Khouri Andolfato

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