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05/10/2005

Guinada para religião marca vida de Harriet Miers

The New York Times
Ed Wyatt e Simone Romero*

Em Dallas, Texas
Em 1979, Harriet E. Miers, então com pouco mais de 30 anos, realizara aquilo que algumas pessoas demoram a vida toda para fazer. Ela era sócia do Locke, Purnell, Boren, Laney & Neely, um dos mais prestigiados escritórios de advocacia no sul dos Estados Unidos, tendo uma sala no 35º andar da Torre do Republic National Bank, no centro de Dallas.

Mas ainda assim ela sentia que faltava algo a sua vida, e foi após uma série de longas discussões --conversas informais a respeito de família, religião e outros assuntos, que costumavam se estender do fim da tarde até altas horas da noite-- com Nathan Hecht, um colega do escritório, que Miers tomou a decisão, que segundo muita gente próxima a ela, mudou a sua vida.

"Ela decidiu que queria que a fé fosse uma parte substancial da sua vida", disse em uma entrevista Hecht, que atualmente é membro da Suprema Corte do Texas. "Certa noite, ela me chamou até o seu escritório e disse que estava pronta a assumir um compromisso. Aceitar Jesus Cristo como o seu salvador e nascer de novo". Ele atravessou o corredor, indo do seu escritório até o dela, e lá, em meio a processos legais e documentos de tribunais, Miers e Hecht oraram e conversaram.

Pouco depois disso Miers foi batizada na Igreja Cristã Vista do Vale.

Essa foi uma transformação pessoal fundamental para a mulher que acaba de ser indicada para ocupar uma cadeira na Suprema Corte dos Estados Unidos. Uma experiência não muito diferente daquela do presidente Bush e de outros membros dos círculos políticos e empresariais texanos da época.

Miers, que era católica, se tornou cristã evangélica e passou a se identificar mais com o Partido Republicano do que com os democratas, que durante muito tempo dominaram a política no Texas. Ela ingressou no comitê de missões da igreja, que é decididamente contrária ao aborto. Colegas e amigos dizem que depois disso Miers raramente olhou para o seu passado democrata.

"Naquela época, não havia muitos republicanos no Texas", conta Merrie Spaeth, diretora de relações de mídia da Casa Branca durante o governo Reagan, e que conheceu Miers após se mudar para Dallas em 1985. "Harriet é aquilo que se pode chamar de dama sulina. É maravilhoso vê-la nas reuniões em que estão presentes pessoas donas de grandes egos. Ela permite que esses indivíduos pensem que os bons resultados alcançados são o produto das suas próprias idéias".

A fim de persuadir a direita a abraçar o nome de Miers, apesar do fato de ela não contar com um histórico claro no que diz respeito a questões sociais, funcionários da Casa Branca levaram Hecht a pelo menos um encontro com militantes conservadores na segunda-feira, para que ele falasse sobre a fé e o caráter da nomeada.

Alguns protestantes evangélicos comemoravam a possibilidade de que um dos seus pares pudesse ter um lugar na Suprema Corte, após passarem décadas reclamando de que a sua modalidade de cristianismo é tratada com condescendência e é excluída pela elite política norte-americano.

Em uma entrevista sobre no programa de televisão do pastor evangélico Pat Robertson, na terça-feira (04/10), Jay Sekulow, conselheiro principal do grupo conservador cristão Centro Americano de Lei e Justiça, disse que Miers seria a primeira evangélica protestante a ocupar um lugar na Suprema Corte desde a década de 1930.

"Portanto, esta é uma grande oportunidade para aqueles de nós que possuem uma convicção, que compartilham uma fé evangélica no cristianismo, de ver alguém com as nossas posições ser nomeada para a Suprema Corte", afirmou Sekulow.

Mas outros conservadores ficaram decididamente aborrecidos, já que queriam alguém que tivesse um compromisso publicamente declarado com relação a questões sociais como o aborto.

Embora Miers tenha guardado a sua posição religiosa como um ás na manga, a sua inclinação gradual rumo às visões conservadoras resultou em algumas iniciativas incômodas quando se afastou de uma lucrativa carreira no direito e se meteu na política, ao se engajar em uma campanha para o Conselho Municipal de Dallas, em 1989, um cargo não partidário.

Miers apareceu como uma candidata da Convenção Política de Gays e Lésbicas. Mas, ainda que tenha dito que os gays devem ter os mesmo direitos civis que outros cidadãos, ela não chegou a apoiar a revogação de uma lei texana cujo objetivo era criminalizar o comportamento sexual dos homossexuais.

A religião parece ter influenciado nas suas visões quanto a certas questões. Em uma discussão com o seu gerente de campanha, em 1989, Miers disse que, quando era mais jovem, defendia o direito da mulher ao aborto, mas que passou a condenar esta prática, devido à influência da sua crença religiosa, disse Lorlee Bartos, consultor de campanhas políticas em Dallas.

"Miers era uma pessoa cuja visão de mundo havia mudado, e ela me explicou isso", disse Bartos.

Mesmo assim, o pragmatismo, e não a ideologia, parece ter guiado Miers com relação à maioria das questões durante o seu curto período naquele cargo público, antes de ser nomeada pelo governador George W. Bush, em 1995, para ser a diretora da Loteria do Estado do Texas.

Uma das questões mais controversas levada ao Conselho Municipal de Dallas durante o único mandato de Miers, que terminou em 1991, foi uma disputa para decidir se a cidade deveria adotar um plano no sentido de abolir os membros do conselho escolhidos de forma irrestrita. Esse método eleitoral era criticado pelos grupos minoritários em Dallas, que acreditavam que, dessa maneira, ficavam marginalizados na política municipal.

Miers, eleita desta forma, inicialmente se mostrou favorável ao sistema, tendo depois passado a apoiar uma proposta pela criação de vários distritos diferenciados na cidade. Esse método foi adotado, e mais tarde resultou em uma maior representação de negros e hispânicos em Dallas.

"Embora conhecida como conservadora moderada, Harriet não chegou a se distinguir como tal", diz Domingo Garcia, um advogado que foi eleito para o conselho no início da década de 1990, após uma ferrenha luta pela criação dos novos distritos. "Ela não era nem uma líder nem uma peça decorativa. A sua posição era intermediária".

Mas Miers, conhecida pelo seu estudo rigoroso das questões apresentadas ao conselho, conquistou o respeito de colegas de todas as faixas do espectro político. "Dá para pensar que ela é ingênua, por parecer ser dócil e humilde", diz Al Lipscomb, ex-membro do conselho municipal. "Mas os Estados Unidos são capazes de lidar com uma republicana conservadora que seja mansa? Ela é uma tigresa quando entra no campo do direito".

Origens

É claro que a Dallas das batalhas políticas pelos direitos das minorias e dos gays era totalmente diferente da cidade predominantemente branca e segregacionista na qual ela nasceu, como a quarta entre cinco irmãos. Poucas escolas representavam mais a velha Dallas do que a Hillcrest High School, na qual Miers concluiu o segundo grau em 1963.

"Era uma escola do tipo que se esperava na época", diz Ron Natinsky, colega de classe de Miers, e atualmente um membro do Conselho Municipal de Dallas. "Os professores eram chamados de senhora e senhor".

Esse grupo de estudantes de Hillcrest era quase que inteiramente composto de brancos. Faltavam ainda muitos anos para a integração racial que ocorreria naquele setor de Dallas. O álbum da classe de 1963 mostra uma moça loura e sorridente, descrita pelos colegas como "eficiente, doce e sincera, além de ser boa em esportes". Natinsky se lembra de Miers como uma pessoa envolvida com os clubes e atividades do colégio, não sendo, entretanto, parte da "turma de vanguarda".

"Ela era quase que invisível na escola", conta Natinsky. Miers foi batizada na igreja católica, e algumas vezes assistia à missa na Capela Saint Jude, no centro de Dallas.

"Mas antes de ter abraçado o protestantismo evangélico, a sua experiência com religião era esporádica", conta Hecht.

Os amigos dizem que muitos fatores na sua experiência de vida moldaram as suas atitudes e posturas, desde o fato de ter feito carreira em uma profissão dominada por homens, até a lealdade e os serviços de advocacia prestados a Bush no Texas e em Washington.

Mas segundo amigos e parentes, a influência da religião foi tão importante quanto a trajetória profissional para a sua abordagem de questões de importância política e legal.

Após ter ingressado na Igreja Cristã Vista do Vale, ela passou a lecionar para estudantes da primeira, segunda e terceira séries na igreja.

Vickie Wilson, gerente do escritório da Vista do Vale, conheceu Miers quando ela passou a freqüentar a igreja, em 1979. As suas duas filhas, atualmente com 27 e 30 anos, estavam no grupo dominical de jovens.

"Ainda que se soubesse que Miers era uma advogada influente em Dallas, ela nunca usou a igreja em benefício da sua carreira política", diz Wilson. "Ela jamais assumiu um papel de destaque na igreja. Miers preferia atuar como servente, fazendo café nas manhãs de domingo e distribuindo bolinhos".

Um relacionamento estreito com Hecht --um membro antigo da Visão do Vale--, que aparece freqüentemente com Miers desempenhando funções sociais em Washington e no Texas, foi um traço marcante da sua vida por quase 30 anos. Hecht é conhecido como um dos membros mais conservadores da Suprema Corte do Texas, dominada pelos republicanos.

Jornais do Texas anunciaram que Hecht e Miers estariam envolvidos romanticamente, e quando lhe perguntaram em uma entrevista se isso seria verdade, Hecht respondeu que eles são próximos, sem entrar em maiores detalhes.

"Ela trabalha em Washington, e eu em Austin", disse Hecht. "Nós jantamos quando ela está por aqui. E se ela me convida para ir a Washington, vou com satisfação. Falamos ao telefone com freqüência".

Hecht e Miers falaram-se no domingo à noite, mas, segundo ele, Miers não lhe informou a respeito do anúncio da sua nomeação, que estava por ser feito. "Ela segue estritamente as regras", disse Hecht. Ele disse que nunca perguntou a Miers como ela votaria quanto à questão do aborto caso esta fosse levada à Suprema Corte. "Ela provavelmente não responderia. Não veria isso como uma atitude apropriada".

"Sim, ela freqüenta uma igreja contrária ao aborto", afirmou Hecht, acrescentando: "E eu sei que ela também não apóia o aborto". Os dois participaram de "dois ou três" jantares de arrecadação de verbas para o movimento antiaborto no início da década de 1990, contou Hecht, acrescentando, porém, que ela nunca foi uma militante ativa deste movimento.

Além das questões relativas ao aborto e outros assuntos com as quais Miers será confrontada na sua sabatina de confirmação, o forte vínculo que ela e Hecht possuem com a igreja está passando por um teste. A congregação da Vista do Vale está em meio a uma cisão, e Hecht afirma que ele e Miers são aliados dos grupos que estão criando uma nova igreja liderada pelo antigo pastor Ron Key.

Membros da igreja disseram em entrevistas que Key foi despedido várias semanas atrás pelo conselho de anciões da Vista do Vale, após ter se recusado a assumir um papel menos proeminente na liderança da instituição. Os membros afirmaram que o pastor e o conselho da igreja discordaram com relação a várias questões, incluindo a nomeação de novos pastores e a adoção de formas mais atualizadas de culto, como forma de tentar atrair membros mais novos.

Barry McCarty, pastor da Vista do Vale, diz que Miers muitas vezes pediu à congregação para orar pelo presidente, e acrescentou que acredita que se ela estiver se juntando aos cerca de 150 membros que estão partindo para criarem uma nova igreja, os membros da Vista do Vale continuarão orando por Bush.

"A nossa congregação está comprometida com a formação de novas igrejas", explica McCarty. "Isso é algo que eles fazem com a nossa bênção".

*Colaborou David D. Kirkpatrick, de Washington. Indicada por Bush à Corte decidiu aderir a igreja já na casa dos 30 Danilo Fonseca

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