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05/10/2005

Mortos pelo Katrina continuam sem identificação

The New York Times
Shaila Dewan

Em Baton Rouge, Louisiana
Em um país que venera o nome dos mortos, lendo-os em voz alta, gravando-os em pedras e costurando-os em colchas, é estranho que as vítimas do furacão Katrina continuem, mais de um mês depois, basicamente anônimas.

Sua idade, sexo, raça e quantidade não estão claros, tampouco como morreram ou onde foram encontrados. É até difícil encontrar uma página na Web em homenagem às vítimas individuais. Com 972 mortes confirmadas e a busca por corpos terminada, Louisiana entregou 61 corpos e divulgou apenas os nomes de 32 vítimas.

Por outro lado, dos 221 mortos no Mississippi, 196 foram identificados, disse uma autoridade do Estado.

Como em qualquer silêncio, o que encobre os mortos de Louisiana é cheio de interpretações --para alguns, é a maior prova da confusão burocrática ou da falta de consideração pelos pobres negros que, sem dúvida, são a maior parte das vítimas; para outros, é uma tentativa deliberada de evitar que a verdade embaraçosa seja divulgada.

Autoridades estaduais, ainda em crise, dizem que compilar e divulgar dados sobre os mortos simplesmente não é uma prioridade. Elas dizem que vários fatores contribuíram para a demora: investigações criminais que exigiram maior número de autópsias do que esperado; a chegada de um segundo furacão, Rita, que deslocou a equipe forense; e a má condição dos corpos, que dificulta a identificação, depois de passarem dias ou semanas no calor ou na água.

O diretor forense de Nova Orleans, Frank Minyard, disse que patologistas de todo o país ofereceram ajuda, mas ainda está esperando um trailer da Agência Federal de Administração de Emergência (Fema) para abrigá-los.

Os críticos dizem que as autoridades estaduais demoram até para liberar os corpos facilmente identificados. A Louisiana impôs um rígido padrão para confirmar os nomes das vítimas, diferentemente do Mississippi, que aceitou como provas tatuagens, carteiras de motorista e características físicas.

Essas indicações, no entanto, aparentemente não são suficientes para autoridades de Louisiana, que disseram na semana passada que estavam exigindo impressão digital, arcada dentária ou comprovação por DNA.

Cerca de 370 dos corpos no necrotério temporário montado pela Fema foram identificados "temporariamente", mas esperam confirmação por um desses três métodos.

Tampouco o Departamento de Saúde e Hospitais divulgou as informações que conseguiu sobre os locais onde os corpos foram encontrados e qual é o número de crianças. Louis Cataldie, diretor de emergência do Estado, deixou transparecer que está atormentado com os pedidos dos repórteres por números precisos. Na semana passada, quando questionado quantos corpos ainda estarão desaparecidos, ele pareceu exasperado: "Há um, é só isso que importa, não é?"

Depois da coletiva com a imprensa, o Departamento de Saúde e Hospitais listou os nomes de 32 dos mortos na Internet, mas na manhã seguinte a lista havia sumido.

Nos limites da zona de desastre, um retrato muito mais claro das vítimas do Katrina emergiu. Em Houston, o Instituto Médico Legal do Condado de Harris apresentou os nomes dos 53 mortos entre os evacuados. A maior parte morreu de causas naturais e dois por suicídio. Em Dallas, houve 23 mortes, inclusive de gêmeos que morreram por "nascimento prematuro extremo devido à exaustão materna e desidratação ocorrida como resultado do furacão Katrina".

Don Morrow, diretor de operações forenses da paróquia do oeste de Baton Rouge, que inclui a cidade de Baton Rouge, disse que entre os evacuados que morreram em seu distrito havia 24 homens e 44 mulheres, 36 eram brancos, 30 pretos, e dois hispânicos, e mais de 60 vítimas tinham mais de 50 anos. Seis tinham entre zero e 20 anos de idade; a vítima mais velha tinha 95 anos.

Os que morreram diretamente pela ação da tempestade são os menos conhecidos.

A falta de informações deu um tom de impessoalidade ao número total de mortos divulgado diariamente pelo escritório de Cataldie. "Realmente não houve histórias sobre quem eles eram", disse Marian Fontana, que perdeu seu marido no World Trade Center e tornou-se proeminente defensora das famílias das vítimas de 11 de setembro. "Acho que as pessoas realmente se conectaram com as vidas das pessoas de 11 de setembro, e realmente não ouvi nada sobre isso. Faz-me lembrar da tsunami" --onde centenas de vítimas terminaram em covas comuns-- "Foi um número gigante (de mortos) em um lugar distante."

As famílias do Katrina expressaram frustração, até mesmo angústia, com o ritmo lento do processo. Missas e enterros foram adiados indefinidamente, e as famílias precisam aguardar os certificados de óbito para resgatarem seguros, executarem testamentos e venderem propriedades.

Mesmo os poucos que puderam enterrar seus amados questionam o que está acontecendo. Uma mulher, Marion K. Babin, disse que levou semanas para conseguir a liberação do corpo de seu marido, Justin Babin, apesar de ele estar identificado pela pulseira do hospital com dados médicos, nome e condição. As autoridades disseram que o corpo de Babin precisava passar por autópsia, pois foi encontrado em um hospital, e o promotor geral está investigando todas as mortes em hospitais e lares de idosos.

Algumas mortes não relacionadas à tempestade foram envolvidas no processo. Um dos 32 nomes divulgados foi o de Jason Curtis Zito, 30, que se engasgou com tabaco até morrer no dia 23 de setembro, disse sua mãe.

Gary T. Hargrove, diretor forense do condado de Harrison em Mississippi, disse que estava "bastante surpreso" em saber que a Louisiana havia identificado tão poucos mortos. Ele especulou que o atraso se devia à demora no esforço de recuperação de corpos, que começou uma semana após a tempestade.

"Começamos as buscas na tarde de segunda-feira depois da tempestade, assim que os ventos caíram para menos de 95 km/h", disse Hargrove, acrescentando que 65 dos 88 corpos do condado foram identificados e 63 liberados.

A decomposição avançada dos corpos, porém, não explica inteiramente a discrepância. Assim como na Louisiana, muitos dos corpos do Mississippi estavam decompostos demais para serem vistos pelas famílias --mas ainda podiam ser identificados por características físicas. No condado de Jackson, nove de 12 identidades foram confirmadas por cicatrizes, tatuagens, próteses ou implantes, disse a legista Vicki Broadus.

Mesmo assim, peritos forenses que lidaram com as baixas advertiram que todo desastre apresenta desafios distintos.

"Isso acontecem em todos os desastres. Sempre se sugere que os legistas estão sendo exigentes demais", disse Mary Jumbelic, examinadora médica do condado de Onondaga, em Nova York, que trabalhou após os atentados de 11 de setembro e na tsunami, no ano passado. Médicos legistas querem evitar que as famílias fiquem com os restos errados, disse ela. "Se não forem seguidos os padrões, essa questão surgirá daqui a alguns meses."

Charles Hirsch, médico legista de Nova York responsável pela identificação dos mortos pelos ataques ao World Trade Center, disse que a Louisiana tinha questões geográficas e jurisdicionais diferentes. Em NY, o desastre ocupou uma área restrita e os familiares dos sobreviventes não estavam dispersos por 50 Estados.

Mesmo assim, com a maior parte dos corpos do Katrina intactos, peritos forenses tiveram muito mais opções de identificação do que após o 11 de setembro, quando muitos dos restos eram fragmentos. "Se você tiver uma amostra de DNA, com a tecnologia moderna, você pode provavelmente fazer identificações em uma semana ou duas", disse Hirsch.

O departamento de saúde coletou 246 amostras de DNA de parentes. Um funcionário do necrotério foi a New Orleans buscar arquivos dentários.

Cataldie admitiu que o processo está dolorosamente lento, mas disse que tinha que ter certeza de sua precisão. Segundo ele, uma das dificuldades é que os corpos e algumas vezes até os históricos médicos encontrados em New Orleans precisam ser descontaminados para entrarem no necrotério.

"Se eu tivesse um filho naquele necrotério, seria horrível, com certeza", disse ele. "Não sei como tornar (o processo) mais rápido." Estado de corpos e rigor técnico atrasam reconhecimento de vítimas Deborah Weinberg

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