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06/10/2005

Gripe fatal de 1918 teve origem aviária, diz estudo

The New York Times
Gina Kolata*

Em Nova York
O vírus da gripe de 1918, a causa de uma das pandemias mais mortais da história, foi reconstruído e revelado como sendo uma gripe aviária que saltou diretamente para os seres humanos, anunciaram duas equipes de cientistas, uma federal e outra universitária, nesta quarta-feira (05/10).

National Museum of Health/The New York Times 
Pacientes com a gripe espanhola são tratados em galpão no interior dos EUA, em 1918

Os cientistas reconstruíram o vírus de 1918 ao longo de uma década, usando tecido do pulmão de dois soldados e uma mulher do Alasca que morreram na pandemia daquele ano. O tecido dos soldados foi salvo em uma arquivo patológico do Exército, e a mulher foi enterrada em um solo permanentemente congelado.

Os cientistas seqüenciaram meticulosamente os genes, sintetizaram o vírus usando ferramentas de biologia molecular e infectaram células de pulmões humanos e ratos com ele em um laboratório seguro, especialmente equipado, dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), em Atlanta. A pesquisa deles está sendo publicada nas revistas "Nature" e "Science".

Os resultados, disseram os cientistas, revelam um número pequeno de mudanças genéticas que podem explicar por que este vírus foi tão letal. Ele é significativamente diferente dos vírus de gripe que causaram as mais recentes pandemias de 1957 e 1968. Tais vírus não eram vírus de gripe aviária, mas sim vírus de gripe humana que adquiriram alguns poucos elementos genéticos da gripe aviária.

A pesquisa também confirmou os temores legítimos sobre os vírus de gripe aviária, chamados vírus H5N1, que estão despontando na Ásia. Desde 1997, bandos de aves em 11 países foram dizimados por causa de surtos de gripe. Mas quase todas as pessoas infectadas --mais de 100, incluindo mais de 60 que morreram-- contraíram a doença diretamente das aves. Mas ocorreu alguma transmissão entre pessoas.

O vírus de 1918, por sua vez, era altamente infeccioso, e nas últimas semanas o temor de que a transformação de uma das atuais gripes aviárias possa torná-la infecciosa aos seres humano fez políticos de ambos os partidos se esforçarem para demonstrar que estão levando a sério a ameaça de um surto de gripe aviária.

O presidente Bush pediu nesta semana aos líderes das principais fabricantes do mundo de vacina para gripe --Chiron, Sanofi-Aventis, Wyeth e GlaxoSmithKline-- para virem à Casa Branca na sexta-feira para discutir os preparativos para uma pandemia de gripe, segundo pessoas com conhecimento da reunião, que pediram pelo anonimato porque a Casa Branca ainda não a anunciou.

O fato de a Casa Branca ter convocado tal reunião com tamanha rapidez reflete a explosão de interesse na preparação para uma pandemia de gripe. Há poucos meses, especialistas em gripe aviária estavam tendo dificuldade para fazer com que as autoridades escutassem seus alertas.

Após o furacão Katrina, grande parte de Washington está preocupada com a possibilidade de uma gripe se tornar um desastre para o qual o país está despreparado.

A pesquisa do vírus de 1918 é diretamente aplicável às preocupações atuais, disseram o dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, e a dr. Julie L. Gerberding, diretora dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças, em uma declaração conjunta.

"Os novos estudos poderão ter um impacto imediato ao ajudar os cientistas a se concentrarem na detecção de mudanças na evolução do vírus H5N1, que possam transformar uma ampla transmissão entre humanos mais provável", eles disseram.

Os vírus de gripe aviária predominantes no momento compartilham algumas das mudanças genéticas cruciais que ocorreram na gripe de 1918, disseram os cientistas, mas não todas. Os cientistas suspeitam que com a gripe de 1918, mudanças em apenas 25 a 30 dos cerca de 4.400 aminoácidos nas proteínas virais transformaram o vírus em um assassino.

O novo trabalho também revela que o vírus de 1918 atua de forma muito diferente dos vírus humanos de gripe comuns. Ele infecta as células no fundo dos pulmões dos ratos e infecta as células do pulmão, como as células que revestem os alvéolos, que normalmente seriam impermeáveis à gripe. E apesar de outros vírus humanos de gripe não matarem ratos, este, como as atuais gripes aviárias, mata.

Os cientistas disseram que o novo trabalho é altamente importante, abrindo caminho na identificação de vírus perigosos antes que seja tarde demais e na busca de formas para detê-los.

"Isto é grande, grande, grande", disse John Oxford, um professor de virologia do Saint Bartholomew's Hospital e Royal London Hospital, que fez parte da equipe de pesquisa. "É um grande avanço ser capaz de colocar um holofote em um vírus que matou 50 milhões de pessoas. Eu não consigo pensar em nada maior que tenha acontecido na virologia em muitos anos."

Influenza

A gripe de 1918 mostrou quão terrível tal doença pode ser. Ela foi "como um anjo sombrio pairando sobre nós", disse Oxford. O vírus se espalhou e matou com velocidade assustadora, atacando preferencialmente os jovens e saudáveis. Alfred C. Crosby, autor de "America's Forgotten Pandemic The Influenza of 1918" (a pandemia esquecida da América: a influenza de 1918), disse que ela "matou mais seres humanos do que qualquer outra doença com duração semelhante na história do mundo".

As autoridades médicas da época tiveram dificuldade até mesmo para descrever a devastação. Um médico, Victor Vaughan, escreveu sobre os corpos dos jovens soldados no Forte Devens, "empilhados como lenha", vítimas da gripe.

A pesquisa, assim como sua publicação, gerou preocupação sobre os cientistas deveriam ter ressuscitado este assassino, que desapareceu da face da Terra ha quase um século.

"É algo que levamos a sério", disse Fauci, cujo instituto ajudou a pagar pelo trabalho. O trabalho foi extensivamente revisado, ele acrescentou, e o Conselho Científico Nacional para Biossegurança foi consultado sobre se os resultados deviam ser divulgados publicamente. O conselho "votou por unanimidade que os benefícios superavam o risco de poder ser usado de forma nefasta", disse Fauci.

Outros não ficaram convencidos. O dr. Richard H. Ebright, um biólogo molecular da Universidade Rutgers, disse ter preocupações sérias com a reconstrução do vírus. "Há o risco, próximo da inevitabilidade, de liberação acidental do vírus; há também um risco de liberação deliberada do vírus." E o vírus da gripe de 1918, acrescentou Ebright, "talvez seja o agente de arma biológica mais eficaz já conhecido".

Mas o dr. D.A. Henderson, um estudioso residente do Centro de Biossegurança da Universidade de Pittsburgh e um importante especialista em bioterrorismo, disse ter concordado com a decisão de reconstrução do vírus e publicação de seu seqüenciamento genético.

"Este trabalho é da maior importância e é muito importante que seja publicado", disse ele.

A história da ressurreição do vírus da gripe de 1918 teve início em 1995. Antes disso, os cientistas consideravam a tarefa sem chance de sucesso. Vírus ainda não tinham sido descobertos em 1918, de forma que ninguém isolou nem preservou um dos que causaram a gripe.

Mas o dr. Jeffery Taubenberger, chefe do departamento de patologia molecular do Instituto de Patologia das Forças Armadas, em Washington, tinha uma idéia de como encontrar tal vírus antigo. Ele lembrou que seu instituto tinha um depósito de tecidos de autópsias, criado pelo presidente Abraham Lincoln.

Taubenberger investigou e encontrou tecido de dois soldados que morreram da gripe de 1918, amostras de pulmão embebidas em formalina e envoltas em pequenos blocos de cera. Naquele tecido se encontrava o vírus, partido e degradado, mas presente.

Um dos pacientes era Roscoe Vaughan, que contraiu a gripe quando tinha 21 anos e treinava no Campo Jackson, Carolina do Sul. Em 19 de setembro de 1918, ele se apresentou na enfermaria. Ele morreu em 26 de setembro, incapaz de respirar, com os alvéolos de seus pulmões cheios de fluidos.

O outro paciente era James Down, 30 anos, que por coincidência morreu no mesmo dia no Campo Upton, em Long Island, Nova York. As amostras de tecido dos pulmões deles permaneceram intocadas por quase 80 anos.

Então Taubenberger recebeu uma terceira amostra, de uma mulher que morreu em Brevig, Alasca, quando a gripe se alastrou por seu vilarejo, matando 72 adultos e deixando apenas cinco. Os mortos foram enterrados em uma vala comum no subsolo permanentemente congelado. Um patologista aposentado, Johann Hultin, ao tomar conhecimento da busca de Taubenberger, viajou por conta própria de sua casa em San Francisco. Ele escavou a sepultura com permissão dos aldeões, extraiu o tecido ainda congelado do pulmão da mulher e o enviou para Taubenberger.

Taubenberger e seus colegas passaram quase uma década extraindo e montado cuidadosamente os genes do vírus, da mesma forma que um quebra-cabeça. Ao longo do trabalho, eles publicaram resultados que eles e outros usaram para tentar entender a gripe de 1918, mas até o momento eles tinham publicado apenas seqüências de cinco dos oito genes que compõem o vírus. Os últimos três, que correspondem à metade do tamanho do vírus, serão publicados nesta quinta-feira na revista "Nature".

Em agosto, Terrence M. Tumpey, dos CDC, e seus colegas usaram o genoma do vírus para reconstruí-lo, e se perguntaram o que aconteceria se infectassem ratos e infectassem tecido de pulmões humanos. E, eles perguntaram, será que o vírus permaneceria tão letal se trocassem alguns de seus genes por genes dos atuais vírus de gripe?

Os cientistas tomaram grandes precauções, disse Gerberding, utilizando laboratórios especiais que foram projetados para proteger os pesquisadores e impedir a disseminação dos vírus. "Nós optamos por pecar pelo excesso de precaução em cada passo do processo", ela acrescentou.

Agora, disseram os cientistas, o trabalho está começando a revelar os segredos do vírus.

Nas experiências de troca de genes, os cientistas descobriram que pequenas substituições enfraqueciam o vírus reconstruído, de forma que não mais era capaz de se replicar nos pulmões dos ratos, matar os animais ou se fixar nas células de pulmões humanos no laboratório.

A meta final, disse Taubenberger, é produzir uma lista de mudanças para se acompanhar nos vírus aviários.

"Atualmente temos todos estes vírus circulando e não sabemos se eles vão se adaptar aos seres humanos. Será que causarão uma pandemia? Nós desconhecemos as regras", disse Taubenberger. "Há muita ciência ainda pela frente."

*Colaborou Gardiner Harris, com reportagem em Washington. Vírus pode causar nova epidemia letal para a qual não existe cura George El Khouri Andolfato

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