UOL Notícias Internacional
 

06/10/2005

Sob a névoa, bananeiras crescem com os cedros

The New York Times
Anne Raver

Em Indianola

Estado de Washington
Aqui na península Kistsap, a milhares de quilômetros da costa entrecortada dos Hamptons, um espírito livre brinca no jardim.

Há uma sinergia emocionante nas ilhas enevoadas de Puget Sound, a oeste de Seattle, onde os viveiros de plantas e seus catálogos disseminam espécies de todo o mundo --e onde os jardineiros as utilizam de formas originais.

Peter Yates/The New York Times 
Lílias orientais sob folhas de banana no jardim de Linda Cochran, em Bainbridge Island
A criatividade brota parcialmente do clima, com temperaturas que raramente caem abaixo de 5º C e parcialmente dos próprios donos dos jardins, aventureiros cuja influência se espalhou pelo país.

As antigas regras dos jardins tradicionais da Costa Leste, como o Jardim Botânico de Nova York, onde a geometria ainda define a horta, e o Show de Flores da Filadélfia, onde as clívias amarelas ainda reinam supremas.

Daniel J. Hinkley, explorador inveterado de plantas, fundou Heronswood Nursery em 1987 com Robert Jones, arquiteto. Em uma manhã no final do verão, ele estava no jardim repleto de sol em Windcliff, seu novo lar em Indianola, uma comunidade tranqüila de artistas, escritores e outros que gostam de viver em uma estrada de barro que não dá em lugar nenhum. Ele estava olhando para as pétalas azuis que caiam dos agapantos. "Essa aqui nasceu de uma semente que coletei em 1998 em Drakensberg, e está dando flor pela primeira vez", disse ele, referindo-se à cadeia de montanhas sul-africana.

O catálogo de Hinkley consegue transmitir a excitação dos caçadores aos jardineiros de escritório, seja por sua queda em um precipício dos Himalaias ou pelo canário que apareceu em um dia de março diante da janela de seu quarto. Suas páginas estão respingadas de descobertas como a revelação que a gúnnera adora o sol.

Por 20 anos Hinkley jardinou na sombra, a alguns quilômetros da península em Heronswood, em Kingston, Washington, onde morava em uma cabana nas terras do viveiro com Jones. Agora, os dois compraram 20.000 metros quadrados nesse morro ensolarado. Jones construiu a nova casa baixa, perfeitamente adaptada ao local; Hinkley começou a plantar todas as espécies que gostam do sol que tinha colecionado em várias partes do mundo.

Aqui o agapanto não cresce em vaso. Ele cobre amplos trechos de azul e branco, com os melianthus azuis, pequenos oceanos de laranja e amarelo das estrelas-de-fogo e gúnneras do tamanho de hipopótamos. (Na costa leste, as pobres gúnneras têm que ser protegidas com caixas no inverno).

Acima de um declive, Hinkley teve a coragem de plantar bananeiras perto dos cedros do Himalaia. Em Heronswood, ele colocou vasos de samambaias chilenas sobre colunas azuis que nascem da floresta, como um sonho perdido de Pompéia.

Essa loucura que lembra a Antigüidade é o trabalho de George Little, escultor, e David Lewis, ilustrador arqueológico, que não conhecem limites para seu jardim em Bainbridge Island, a sul de Indianola. Eles fazem modelos de concreto das folhas de gúnnera gigantes e depois de pintá-los de verde e laranja devolvem-nos ao jardim, debaixo de uma bananeira. Suas fontes têm o formato de ovos de dinossauro ou flores matinais. Seu livro, "A Garden Gallery", foi publicado em fevereiro pela Timber Press.

"Que inspiração é esse grupo", disse Jane G. Pepper, presidente da Sociedade de Horticultura da Pensilvânia, referindo-se aos viveiros especializados e criativos do Pacífico. "Eles têm uma abordagem muito divertida e leve à horticultura. Não é uma seriedade total. E é claro que ficamos verdes de inveja com a variedade de plantas que podem manter por lá."

Mas podemos tentar.

Pepper agora vê bananeiras e outras plantas tropicais crescendo em torno de cabanas na Filadélfia, onde há poucos anos ela "teria visto um mar de petúnias e crisântemos". Em Watertown, Massachusetts, Thomas C. Cooper, ex-editora da revista Horticulture, está alegremente observando uma planta do gênero verbascum, que encomendou de Heronswood. Também as loucuras e fontes de Lewis e Little estão acrescentando um pouco de mistério aos jardins da Costa Leste de Vermont a Nova York até a Flórida.

A influência da costa noroeste, porém, não é apenas nacional; é global. Atacadistas como Dan Heims, presidente da Terra Nova Nurseries, em Portland, Oregon, passeia regularmente por Puget Sound em busca de plantas promissoras para o grande mercado. Hemis estava procurando uma variedade de tiarella até a primavera de 1997, quando Hinkley lhe mostrou uma crescendo em Heronswood.

"Colocamos ela em cultura de tecido e demos o nome de Heronswood Mist", disse Heims. Agora Hinkley a vê em viveiros do Reino Unido e em coberturas no Japão.

Hinkley tem um olhar treinado para plantas, seja um gerânio que avistou em um jardim inglês ou uma Lobelia tupa particularmente vigorosa, com grandes flores vermelhas, crescendo ao longo da costa do Chile perto de Valdivia.

Cerca de 500 dessas plantas foram popularizadas por Heronswood, que tem um inventário de 12.000 espécies. Seu catálogo anual, escrito no estilo irrepreensível de Hinkley e descrevendo excursões na província de Yunnan, Butão e Vietnã, desperta desejos por todos os continentes.

(Heronswood foi tamanho sucesso que o império Burpee comprou o negócio em 2000; Hinkley e Jones continuam administrando a empresa.)

"Acho que pessoas como Dan foram as primeiras vozes de uma nova era", disse Little. "Aqui estamos no Pacífico. David e eu estamos fazendo um jardim tropical voluptuoso, e temos acesso a todas as plantas que fazem isso funcionar".

Em um dia nublado de agosto, a sonata "Moonlight" de Beethoven permeava o jardim, onde 14 fontes recebem o visitante com um som de água corrente que evoca um passeio pacífico. E em meio a bananeiras, pés de maracujá e solanums cobertos de flores azuis, todas as paredes são pintadas.

"Todo mundo tem concreto cinza no jardim em algum lugar, e as pessoas ficam apavoradas de acrescentar cor", disse Lewis. "Mas as plantas ficam fabulosas contra paredes coloridas."

E como diz Little, se não funcionar, "é só tinta".

Alguns jardineiros neste pequeno éden simplesmente adoram plantar o que ninguém planta. Linda Cochran, advogada que abandonou seu escritório para brincar com as plantas, depois de conhecer Heronswood mudou-se para Bainbridge Island há mais de 20 anos.

"Considerava Heronswood era uma espécie de catalisador", disse ela. "Era a nova era dourada do jardim. A geração do baby-boom estava chegando à idade em que a jardinagem parece interessante."

Mas foi ela que apresentou a Rhodocoma Gigantea a Hinkley. São plantas perenes sempre verdes da África do Sul, que parecem uma cruza entre bambu e aspargos, disse Cochran.. "Ninguém sabia sobre elas há 10 anos". Foi quando ela se apaixonou pela espécie em um parque de San Francisco. "Eu catei em todos os viveiros para trazê-as de volta no avião em um saco", disse ela.

Logo ela e Hinkley estavam tentando criar suas próprias mudas. Mas as sementes só germinam após exposição ao fogo. Então, em vez de acender um fósforo no jardim, eles encomendaram um pequeno tablete de "fumaça instantânea" que, quando dissolvida na água, ajuda as sementes a abrirem. Eles plantaram algumas em um vaso e as trataram com a fumaça simulada do Jardim Botânico Nacional de Kirstenbosch, na Cidade do Cabo.

Em uma noite de agosto, Hinkley e Jones estavam sentados em seu novo jardim, com copos de um pinot noir local, observando beija-flores beberem o néctar de flores tubulares vermelhas da Lobelia tupa que nasceu da semente que Hinkley coletou no Chile.

Depois de jardinar nas matas por 20 anos, eles ainda não se acostumaram com a vista. "Me senti drogado", disse Jones. "Foi incrivelmente narcótico nos primeiros meses".

A casa fica perto da terra, mas se abre para todos os lados, para pássaros que mergulham nos jardins de água, coníferas de 40 metros e os troncos alaranjados nativos das árvores brilhando com o sol da tarde.

"Fiquei aterrorizado com o local, para ser franco", disse Hinkley. "Era minha primeira vez no sol de frente e solos realmente arenosos, no limite da água salgada."

Ah, deixa disso: economize seu medo para as pontes bambas dos Himalaias.

Por enquanto, os dois homens podem observar as águias voarem sobre Puget Sound. Vegetação típica dos trópicos floresce no frio noroeste americano Deborah Weinberg

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