UOL Notícias Internacional
 

10/10/2005

Cidades renascidas podem ser guias de superação de desastres modernos

The New York Times
Anna Bernasek
Em Nova York
É comum que se façam referências à economia como sendo uma ciência, mas o fato é que esta disciplina padece de uma profunda limitação. Os economistas teorizam a partir de suas observações, mas se vêem quase que impossibilitados de realizar experimentos definitivos, especialmente no reino da macroeconomia. Simplesmente não existe um laboratório no qual eles sejam capazes de submeter a população em geral às suas experiências.

Isso até que ocorra um desastre.

Um grande desastre, como o furacão Katrina, atua como um experimento involuntário com o sistema econômico. Seria algo como infligir um grave ferimento a um paciente e, a seguir, observar se ele sobrevive.

Os resultados podem ser reveladores. No caso de um desastre que arrase uma cidade, a situação anterior da área atingida é bem óbvia, de forma que é possível avaliar a recuperação a partir da rapidez e da extensão com que ela retorna ao normal. É raro que uma cidade morra, como no caso da antiga Pompéia, mas o ritmo da recuperação pode variar enormemente de cidade a cidade, e essas diferenças podem lançar uma luz sobre a questão do aceleramento da recuperação de zonas atingidas por futuros desastres.

Além disso, os desastres urbanos podem fornecer pistas para a solução de algumas das maiores incógnitas da economia. Uma delas é como organizar uma economia, maximizando a prosperidade por intermédio da mistura certa de envolvimento governamental e privado.

Comecemos com duas histórias de sucesso que tiveram início com desastres no início do século passado, em Galveston, no Texas, e em São Francisco, na Califórnia.

O furacão que atingiu Galveston, em 1900, talvez tenha matado 10 mil pessoas, cerca de 25% dos moradores da cidade à época, além de destruir 8.000 imóveis. Em 1907, Galveston tinha praticamente se recuperado - reavendo a densidade populacional e o seu status de porto importante. À época ela só perdia para a cidade de Nova York em termos de valor das exportações, possuindo uma movimentação comercial substancialmente maior do que a de Nova Orleans.

Em 1906, a maior parte de São Francisco sobreviveu a um terremoto inicial, apenas para ser arrasada por um incêndio infernal que se propagou incontido. Cerca de 28 mil edificações foram destruídas. Quase 13 quilômetros quadrados foram incinerados, e 3.000 pessoas pereceram. Mas, em apenas três anos, 25 mil novas construções tinham surgido nas ruas da cidade, e, em 1911, São Francisco havia se recuperado substancialmente.

Mas, o que tornou possível essas duas recuperações? Em ambos os casos, o dinheiro do governo repôs somente uma porção das perdas totais. O principal trabalho de reconstrução foi realizado pela iniciativa privada. Mas o governo em todos os seus níveis - nacional, estadual e municipal - desempenhou um papel fundamental no restabelecimento da confiança dos empresários, investidores e cidadãos comuns, o que é um pré-requisito para o crescimento econômico. O governo conseguiu isso de três maneiras.

A primeira foi garantindo a segurança pública, deixando claro que a cidade não corria mais o risco de passar pelo mesmo desastre. A municipalidade de Galveston, por exemplo, decidiu construir um molhe para proteger os moradores contra futuras tempestades. Com mais de 13 quilômetros de extensão e situada 1,22 metro acima do nível alcançado por qualquer enchente conhecida que tenha sido provocada por um furacão, a muralha foi financiada por várias fontes municipais, estaduais e federais. E, com precaução extra, a elevação da cidade foi aumentada de 30,48 centímetros a 4,6 metros acima da elevação anterior.

Em São Francisco, os governos federal e municipal trabalharam juntos no sentido de melhorar a segurança da cidade contra terremotos e incêndios. E o governo federal garantiu a emissão de títulos para a cidade que equivaliam a 10% dos danos totais.

A segunda foi reagindo rápida e vigorosamente em cada um dos casos. Todas as instâncias de governo tomaram medidas decisivas e tangíveis que funcionaram como um essencial restaurador de confiança para os cidadãos traumatizados.

Gastos governamentais imediatos criaram empregos para cidadãos que se viram subitamente desabrigados e desempregados, reativando as economias locais quando estas lutavam para recuperar o antigo ritmo. Dois dias após o terremoto em São Francisco, enquanto a cidade ainda ardia, o congresso agiu no sentido de garantir a reconstrução de todos os prédios públicos destruídos. Isso proporcionou trabalho para muitos cidadãos que perderam seus empregos. O presidente Theodore Roosevelt ordenou que o Departamento do Tesouro depositasse imediatamente verbas federais nos bancos locais, criando, de fato, uma linha de crédito sem juros para a reconstrução.

Os governos locais também agiram rapidamente. Em apenas uma semana, Eugene E. Schmitz, o prefeito de São Francisco, convocou 40 personalidades empresariais proeminentes para a formação de um comitê de reconstrução. Os planos iniciais para a reconstrução foram rejeitados pelo comitê, que preferiu aqueles que proporcionariam um progresso mais rápido.

A terceira medida foi o foco governamental sobre aquilo que era realmente importante, proporcionando não só segurança pública essencial, mas também garantindo regras justas.

Em Galveston, líderes promoveram reformas anticorrupção que se tornaram um modelo para cidades de todas as partes. Em uma cidade que já foi dominada por engrenagens políticas, uma comissão composta de cinco especialistas comerciais eleitos recebeu a responsabilidade de administrar a cidade.

Em São Francisco, autoridades públicas buscaram justiça de outras formas. Líderes como o deputado Julius Kahn, um republicano cujo distrito incluía São Francisco, investiu contra as seguradoras. Eles pressionaram fortemente as companhias do ramo que se recusavam a pagar seguros contra incêndio. Tais empresas alegavam que os danos foram causados pelo terremoto, um risco que não estava coberto pelas tradicionais cláusulas dos seguros contra incêndio. No final, a maior parte dos prejuízos foi paga, ajudando muito na recuperação da cidade incinerada - embora algumas seguradoras tenham ido à falência.

Há também lições importantes em outras partes do mundo. Vejamos a Alemanha após a 2ª Guerra Mundial. Em um trabalho recente, três pesquisadores holandeses - Steven Bramam, Harry Garrissem e Marca Choram - examinaram o ritmo da recuperação de cidades alemãs nos 20 anos que se seguiram aos bombardeios aliados. Eles descobriram que ao final daquele período a Alemanha Ocidental havia se recuperado, mas as cidades alemãs orientais não. É claro que a Alemanha Ocidental contara com duas vantagens enormes: o Plano Marshall e o envolvimento de bancos privados e empresários.

Mesmo nas circunstâncias mais terríveis, as cidades são capazes de ressurgir das cinzas. Segundo David E. Weinstein, um especialista em Japão do Departamento de Economia da Universidade Columbia, Hiroshima perdeu entre 20% e 30% da sua população após o ataque nuclear de 1945. Weinstein, com o seu colega Donald R. Davis, descobriu que, 30 anos depois, a cidade se recuperara sob vários aspectos.

Tal recuperação demorou tanto tempo porque o governo japonês estava sobrecarregado - 66 cidades foram bombardeadas durante a guerra - e praticamente falido. "A recuperação das cidades japonesas foi, quase que integralmente, fruto da iniciativa privada", explica Weinstein. "Simplesmente não havia dinheiro disponível para que o governo reconstruísse o Japão".

A avaliação da mistura correta de atividade governamental e privada é uma questão central para a elaboração de políticas econômicas.O que os desastres nos mostram é a diferença entre os planos que funcionam e aqueles que não dão resultados. Quase cem anos depois, não deveríamos tentar obter um melhor resultado em Nova Orleans? Danilo Fonseca

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