UOL Notícias Internacional
 

11/10/2005

Chavez mobiliza Venezuela contra 'Mister Danger'

The New York Times
Juan Forero

Em Caracas
A Casa Branca pode estar concentrada na questão do Iraque e nos estragos provocados pelo furacão Katrina, mas, na Venezuela, a maior preocupação do presidente Hugo Chávez parece ser o governo Bush. Ou, como ele freqüentemente coloca o problema, os grandes planos do governo norte-americano para matá-lo e invadir este país rico em petróleo.

Chávez diz que as ameaças são tamanhas que ele foi obrigado a cancelar várias aparições públicas e a criar uma milícia civil que fará com que as hordas ianques "comam poeira". E Chávez alerta que se os norte-americanos forem tolos a ponto de invadirem o país, "eles podem esquecer o petróleo venezuelano".

"Se o governo dos Estados Unidos tentar cometer a ação estúpida de nos atacar, ele mergulhará em uma guerra de cem anos", disse Chávez a Ted Koppel, em uma entrevista ao programa "Nightline", em setembro. "Nós estamos preparados. Eles não conseguirão controlar a Venezuela, assim como não foram capazes de controlar o Iraque".

Sempre que pode --em discursos, entrevistas, inaugurações de obras públicas ou no seu programa semanal de televisão-- Chávez faz soar o alarme. "Se algo acontecer a mim, o responsável será o presidente George W. Bush", advertiu ele em agosto.

Após cada um dos alertas sobre o "Mister Danger" --o apelido colocado em Bush pelo governo venezuelano--, as autoridades norte-americanas negam tudo, aborrecidas. Grande parte desses alertas ocorreu depois que Pat Robertson, o tele-evangelista e aliado de Bush, sugeriu, neste verão, no seu programa de televisão, que os Estados Unidos deveriam assassinar o presidente da Venezuela.

No programa da CNN "Late Edition", em 9 de outubro, Robertson voltou ao ataque, citando fontes não identificadas que teriam acusado Chávez de enviar "US$ 1 milhão ou US$ 1,2 milhão em dinheiro" a Osama Bin Laden depois dos ataques de 11 de setembro, e afirmando que a Venezuela está tentando obter a capacidade de fabricar armamentos nucleares. O vice-presidente venezuelano, Jose Vicente Rangel, negou as acusações de Robertson, dizendo: "Ele, no mínimo, é doido".

A cada ameaça e crítica vinda do norte, real ou imaginária, Chávez contra-ataca, parecendo crescer nessa atmosfera de confronto. E nisto os observadores veteranos da esquerda latino-americana vêem a história se repetir, e não necessariamente como uma farsa.

Wayne Smith, ex-diplomata norte-americano em Cuba, diz que vê paralelos entre a situação atual e o relacionamento antagônico que dez presidentes dos Estados Unidos mantiveram com o líder cubano Fidel Castro, que sobreviveu a invasão da Baía dos Porcos, financiada pela CIA, e, segundo diz El Comandante, a várias tentativas de assassinato.

"Castro faz o papel de Davi contra Golias de uma forma que encontra grande ressonância na América Latina", diz Smith, atualmente pesquisador do Centro de Política Internacional, em Washington. "Agora, Chávez está fazendo o mesmo".

Toda esta guerra de palavras traz a tona uma pergunta feita com freqüência em Caracas e Washington: Chávez está paranóico ou, como no caso de Castro, existe algum fundamento nas suas alegações?

Ou Chávez está simplesmente tentando aumentar o seu prestígio como um líder regional ao atacar um presidente norte-americano que é extremamente impopular na América Latina, e que é visto na região como um imperialista belicoso?

Após o impacto do furacão Katrina, Chávez acusou Bush em alta voz de prejudicar os trabalhos de salvamento. Na sua viagem a Nova York para um encontro de cúpula da ONU, em setembro, ele fez questão de visitar duas áreas altamente pobres, que são redutos do Partido Democrata, no Bronx. Lá ele ofereceu petróleo para o aquecimento doméstico a preços baixos e apoiou um estudo ambiental do poluído Rio Bronx.

"Ele disse, 'Não tenho nenhum problema com o povo norte-americano, e sim com algumas pessoas que integram o governo dos Estados Unidos'", conta o deputado Jose E. Serrano, democrata por Nova York, que convidou o presidente venezuelano para visitar o bairro. "Depois disso, ele levantou a bandeira dos dois países".

Serrano acrescentou: "Não dá para negar que existem certas pessoas neste governo que gostariam que Chávez sumisse do mapa".

As autoridades do governo Bush podem não esconder a antipatia que têm por Chávez --isso, todos concordam, é uma grande parte do problema--, mas essas autoridades repudiam tais acusações, que eles consideram ridículas.

"Os Estados Unidos não planejaram, não estão planejando, não planejarão e não podem planejar assassinar Hugo Chávez", disse o embaixador dos Estados Unidos na Venezuela, William Brownfield, de Caracas. "Isso seria uma violação da lei e da política norte-americanas".

Porém, na Venezuela, onde a rede de televisão estatal tem colocado no ar um vídeo de autoridades norte-americanas criticando Chávez como sendo o líder do império do mal, com a música do filme "Guerra nas Estrelas" ao fundo, a ameaça é levada a sério. Afinal, conforme dizem freqüentemente as autoridades venezuelanas, não faz muito tempo que o governo Bush apoiou tacitamente um golpe que afastou Chávez brevemente do poder.

A Venezuela comprou 100 mil fuzis de assalto AK-47 da Rússia, e está adquirindo aviões de combate do Brasil. Em todo o país, as milícias civis estão se preparando intensamente para uma guerra, treinando voluntários como Josefina Rojas, 43, que se apresentou recentemente em uma base da Guarda Nacional.

"Quero proteger o presidente", disse ela. "Eu defenderei a minha pátria".

Em agosto, o governo Bush chegou a ser julgado por crimes cometidos contra a humanidade durante um Festival Mundial dos Estudantes e da Juventude. No julgamento simulado Bush foi considerado culpado, o que não é de se surpreender. Rangel presidiu a sessão e Chávez foi uma testemunha fundamental da acusação.

A promotora foi Eva Golinger, uma advogada de Nova York que é amada pelo governo de Chávez por ter tornado públicos documentos norte-americanos que detalham quanto dinheiro os grupos de oposição na Venezuela receberam da Fundação Nacional Para a Democracia, que é financiada pelo congresso dos Estados Unidos.

Nos bairros pobres nos quais se concentra grande parte do apoio a Chávez, os moradores temem a ação de agentes da CIA infiltrados, e preocupam-se com os relatos sobre a presença de belonaves norte-americanas ao largo da costa venezuelana. O povo assiste com freqüência aos discursos de Chávez na televisão, e está pronto para dar atenção às advertências do presidente.

"Temos que nos preparar. É isso o que diz o presidente", afirma Jose Gutierrez, 42. "Ele está falando a verdade. Se o presidente diz algo, o que ele diz é verdadeiro".

Uma partidária entusiasmada de Chávez é Bleidis Cabarcas, 49, uma defensora ferrenha da revolução.

"Já pensou se eles o matassem? Tudo isto terminaria", disse ela na sua casa, onde há uma foto de Chávez pendurada na parede. "Mas veja o que ocorreu no Iraque e em outros locais. A Venezuela não pode deixar que tal coisa aconteça aqui". Presidente diz que faz oposição a Bush --e não aos EUA como país Danilo Fonseca

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