UOL Notícias Internacional
 

11/10/2005

Tremor pode ter matado ao menos 30 mil na Ásia

The New York Times
Somini Sengupta*

Em Muzaffarabad, Paquistão
Ao longo do último meio século, duas guerras impiedosas foram travadas em seu nome. Suas famílias foram divididas. Elas vagaram como refugiadas.

Nesta segunda-feira (10/10), três dias depois de a terra ter sacudido sob a fronteira disputada, são os caxemires que estão pagando o preço mais alto. Aqui na duramente atingida Muzaffarabad, a capital da Caxemira controlada pelos paquistaneses, equipes de várias partes do mundo buscavam sobreviventes em meio aos escombros; também chegou a primeira ajuda material.

Mas foram os mortos que começaram a fazer sua presença ser sentida mais fortemente. Para se caminhar pelos passeios comerciais destruídos da cidade era necessário tapar o nariz.

O número de mortos na segunda-feira não era mais preciso do que no dia anterior, pairando por volta de 20 mil no Paquistão, a maioria supostamente em Muzaffarabad e arredores. Do outro lado da Linha de Controle, no setor indiano da Caxemira, o número de mortos subiu acentuadamente no último dia para mais de 900, segundo a agência estatal "Press Trust of India".

A agência de notícias "The Associated Press" informou que as autoridades indianas tiveram que lançar de aviões alimentos e mortalhas fúnebres sobre as aldeias remotas na Caxemira controlada pela Índia.

Em meio à miséria em ambos os lados da fronteira veio um pequeno avanço político. O Paquistão aceitou na segunda-feira a oferta da Índia de ajuda aos sobreviventes do terremoto. Cerca de 25 toneladas de tendas, cobertores, mantas plásticas, alimentos e medicamentos serão doados, anunciou o ministro das Relações Exteriores da Índia, Shyam Saran, em Nova Déli. Helicópteros, que também foram oferecidos pela Índia, não foram aceitos.

Ao ser perguntado sobre uma parceria com o Paquistão no trabalho de ajuda, Saran disse: "Eu ainda não vejo nenhum indício de que possa haver operações conjuntas."

A ajuda começou a chegar a Muzaffarabad na segunda-feira, à medida que as estradas que levam à cidade, bloqueadas por deslizamentos de terra, foram liberadas pelo primeiro dia integral e comboios do exército paquistanês traziam tendas, cobertores, arroz e leite em pó. O fato de ser muito pouco, e tão desesperadamente necessário, ficava evidente na confusão que ocorria toda vez que um caminhão do exército se aproximava.

Homens escalavam os caminhões militares, apenas para serem arremessados juntamente com os sacos de alimentos. Brigas estouraram no meio da rua.

Aqueles que sobreviveram aos tremores de sábado mal se agüentavam agora. Esta seria a terceira noite da maioria deles acampando no chão descoberto, sob o céu aberto com chuva de meados de outubro. Sobreviventes famintos, frustrados, alguns aturdidos, alguns vermelhos de raiva, disseram que não tinham água nem comida. Apesar de ser o Ramadã, o mês muçulmano do jejum, a abstinência aqui não era necessariamente voluntária.

Questionou-se a Abdul Aziz se ele tinha alimentado seus quatro filhos na manhã de quarta-feira. "Com o que consegui pegar", ele respondeu.

Na manhã de segunda-feira, foram biscoitos de um lojista, que correu atrás dele com uma vara. À noite, ele se juntou a uma aglomeração ao redor de um caminhão militar em uma arena esportiva nos limites da cidade, onde foi montado um campo de refugiados. Ele pegou um cobertor marrom atirado no ar.

"Apenas este cobertor, nada mais", disse ele sobre a ajuda do governo, taciturnamente. "Nós só temos o que carregamos."

Em outro estádio, que serviu de base para as operações de ajuda e resgate, um grupo de homens permanecia à margem esperando, pelo segundo dia consecutivo, por algo para abrigar suas famílias à noite. "Comida é uma coisa remota", disse Raja Muhammad Arif. "Nós não temos tendas."

Qari Muhammad Ashraf se perguntava por quanto mais tempos todos conseguiriam suportar a espera. "Nós não recebemos nenhuma informação sobre quando a ajuda chegará", ele disse, e nem ele estava pronto para desistir e voltar para sua família.

"Eles estão sem teto", disse ele. "Eles estão passando por uma situação difícil."

O principal porta-voz militar do Paquistão, o general de divisão Shaukat Sultan, disse à CNN que estima que 2,5 milhões de pessoas estão desabrigadas devido ao terremoto, que registrou uma magnitude de 7,6 graus na escala Richter.

No centro da cidade, os destroços da vida cotidiana jaziam em pilhas incongruentes: uma máquina de costura, um poste de rua, um batente de janela, pedaços de concreto. Carros, alguns altamente danificados, alguns sem pára-brisa, estavam na estrada, cheios de bagagem e deixando a cidade.

A via principal estava caótica. Pessoas carregavam nos ombros o que puderam salvar: sacos de arroz, roupa de cama, malas, seus mortos.

Uma equipe de busca e resgate turca saiu para procurar sobreviventes na segunda-feira. Fahri Akdemir, que sabia falar inglês, listou motivos para ser otimista: as temperaturas não estavam tão frias a ponto de congelar as pessoas, os prédios não ruíram a ponto de virar pó, como acontece após alguns terremotos, sufocando aqueles que estão presos entre os escombros.

Além disso, ainda não se passaram 72 horas desde o terremoto: sobreviventes ainda podem ser encontrados. Eles reviraram uma pilha de escombros após o relato de alguém ter visto um par de mãos, ainda vivas. O relato provou ser falso. Eles gesticulavam. Pediam por um tradutor: qual é a palavra urdu para vivo?

Um espectador deu um tapinha no ombro de um membro da equipe de resgate turca. "Corpos mortos, corpos mortos", ele disse. Alguém acenou para eles diante de um prédio de três andares, de consultórios médicos. A placa de sua fachada caiu, deixando apenas uma fresta estreita pela qual entrar no seu interior. "Quem ouviu uma voz?" eles perguntaram.

Um homem se aproximou. O colega de trabalho dele, ele disse, estava gritando no porão. O cão de busca da equipe farejou o interior. Mas ele saiu tão rapidamente quanto entrou, sem um único latido. A equipe concluiu que não havia ninguém vivo no interior.

A história se repetiu por mais algum tempo. Descendo a rua, cão e a equipe penetraram nos escombros de uma loja de tapetes. Uma mulher e seus dois filhos estavam soterrados, um homem lhes disse. Desta vez o cão latiu.

"Por favor, não fale, nenhum barulho, por favor", um membro da equipe sussurrou para a multidão. O trânsito foi bloqueado. A polícia instruiu todos a ficarem imóveis. Todos atenderam.

Foram necessários dois minutos para que o veredicto indesejado fosse dado. Os homens saíram de um buraco, seguidos pelo cão. Eles podiam sentir o cheiro do cadáver.

Mais cedo, uma equipe de resgate britânica encontrou um menino de 14 anos vivo sob os escombros de um hotel em Muzaffarabad. A BBC noticiou que seis crianças foram resgatadas de uma escola que ruiu em Balakot, uma aldeia arrasada na Província da Fronteira Noroeste, que só perdeu para a Caxemira em extensão de estragos. Na noite de segunda-feira, uma mulher e filho foram retirados de um alto prédio de apartamentos que ruiu na capital, Islamabad.

Aqui em Muzaffarabad, helicópteros do exército paquistanês revistavam o vale por sinais de alguém soterrado por deslizamentos nas colinas. Outros helicópteros do exército paquistanês, um ou dois de cada vez, transportavam os feridos mais graves para hospitais -2.500 na tarde de segunda-feira, segundo o porta-voz do exército, o major Farooq Nasir.

A estimativa de feridos era de 43 mil, disse o ministro do Interior do país, Aftab Ahmed Sherpao, para a "Bloomberg News", e deverá crescer, ele disse, "à medida que chegarmos a áreas inacessíveis e obtivermos mais informação".

Um avião de transporte americano, carregado de cobertores, mantas plásticas e galões, chegou ao país na segunda-feira, como parte dos US$ 50 milhões em ajuda ao Paquistão, autorizado pela Casa Branca.

Helicópteros militares americanos também deverão auxiliar nas operações de ajuda humanitária nas áreas afetadas, na terça-feira, segundo a "The Associated Press". Kuwait e Emirados Árabes Unidos anunciaram cada um pacotes de US$ 100 milhões de ajuda, segundo a agência de notícias "France-Presse".

Nos últimos dois dias, missões de ajuda vieram da Grã-Bretanha, China, Coréia do Sul, Turquia, Espanha, Irã, Rússia, Holanda, Japão e Alemanha. Cinqüenta soldados alemães foram enviados da força de paz da Otan, de 10 mil membros, que está no vizinho Afeganistão, enquanto a Otan se reunia em Bruxelas para discutir uma maior ajuda.

*Colaboraram Carlotta Gall,com reportagem em Islamabad, e Hari Kumar, em Nova Déli. As equipes de resgate começam a chegar ao Paquistão e à Índia George El Khouri Andolfato

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