UOL Notícias Internacional
 

12/10/2005

Sobreviventes do terremoto na Ásia sem socorro

The New York Times
Carlotta Gall e David Rohde*

Em Islamabad, Paquistão
Quatro dias depois de um terremoto ter devastado o norte do Paquistão, granizo e chuvas fortes, juntamente com uma escassez de helicópteros, impediam as equipes de resgate de chegarem a milhares de sobreviventes ainda presos em aldeias isoladas no Himalaia nesta terça-feira (11/10), disseram autoridades paquistanesas.

As equipes de resgate ainda não chegaram a "centenas de aldeias", disse o general de divisão Shaukat Sultan, porta-voz do exército paquistanês, aos repórteres na terça-feira. Oito helicópteros militares americanos se juntaram ao esforço de ajuda, mas o mau tempo impediu os vôos na tarde de terça.

Um total de 34 helicópteros militares e civis paquistaneses estão envolvidos no esforço de resgate, segundo oficiais militares paquistaneses. Isto representa virtualmente todos os helicópteros da nação empobrecida de 150 milhões de habitantes, disseram as autoridades, e muito mais helicópteros são necessários.

"Há muitas áreas que não conseguimos alcançar", disse o general Sultan.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shaukat Aziz, estimou o número de mortos em 23 mil na terça-feira, em comparação aos 20 mil estimados no dia anterior. Das 51 mil pessoas feridas pelo terremoto, apenas 3.110 foram evacuadas da área por helicóptero, segundo as autoridades paquistanesas.

A grande maioria dos mortos está na Caxemira, a região himalaia no centro de uma antiga disputa territorial entre o Paquistão e a Índia. Do outro lado da Linha de Controle, no lado controlado pela Índia, o número de mortos aumentou para cerca de 1.300 na terça-feira. As equipes de resgate encontraram os corpos de 60 operários de estrada em um ônibus esmagado por uma avalanche em uma estrada de lá, informou a agência de notícias "The Associated Press".

Nazir Ahamad, 30 anos, que vive na aldeia de Baramullah, na Caxemira controlada pela Índia, representa a sofrida existência na região. Em 2000, ele perdeu sua perda esquerda durante a troca de fogo entre as forças indianas e paquistanesas. Após o terremoto de sábado, de 7,6 graus de magnitude, ele procurou freneticamente sua esposa, irmã e filho de 2 anos nos escombros de sua casa.

"Minha esposa e irmã morreram", ele disse. "Meu filho, Mushtaq Ahamad, foi salvo no colo de sua mãe."

O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, em visita às áreas mais atingidas da Caxemira controlada pela Índia, chamou o quadro de "calamidade nacional" e prometeu US$ 116 milhões para reconstruir a região. Parte de tal dinheiro será destinado ao Paquistão, uma oferta que Islamabad aceitou na segunda-feira.

Em meio aos relatos de sobreviventes desesperados saqueando e brigando pela ajuda, a ONU emitiu um apelo mundial urgente para levantar US$ 272 milhões em ajuda. A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, está considerando uma visita ao Paquistão na quarta-feira, entre outras paradas na Ásia Central.

"Eu quero deixar bem claro ao povo paquistanês que o povo americano está ao lado dele", disse Rice na noite de segunda-feira. "Por outro lado, eu não quero fazer nada para atrapalhar a tarefa considerável que o governo e o povo paquistanês têm pela frente."

Nas ruas de Islamabad, a capital do Paquistão, caridades montavam tendas para arrecadar doações para as vítimas. No norte da capital, dezenas de caminhões e minivans dirigidas por voluntários e lotadas de suprimentos faziam fila nas estradas que levavam às áreas atingidas.

Em uma aldeia no lado paquistanês da Caxemira, a 160 quilômetros a nordeste de Islamabad, Asghar Hussain Shah, um professor de 49 anos, tremia em uma blusa fina ao lado de sua casa atingida. Ele, sua esposa e seus filhos se amontoavam sob uma lona encharcada para escapar da chuva. "Nós não podemos dormir na casa", disse ele. "Todos os homens e mulheres estão assustados."

Shah disse que sua família estendida --quatro irmãos, uma irmã e três crianças pequenas-- acamparam do lado de fora por três noites e estavam tentando se manter secos sob abrigos improvisados sob as árvores."Nós precisamos de tendas, mantas plásticas, camas e cobertores", disse ele. "Nós esperamos que o governo venha em nossa ajuda."

Apenas seis pessoas morreram na aldeia, chamada Mohri Furman Shah. Todas as 300 crianças da escola local escaparam antes do colapso do prédio, que deixou apenas 20 feridos. Mas no quarto dia, nenhuma autoridade do governo ou militar passou por aqui para oferecer ajuda, apesar da aldeia estar em uma estrada principal.

"Nós não vimos nenhuma pessoa do governo ou do exército", disse Shah. "Nós estamos esperando por algo, mas não aconteceu nada até agora."

Apesar de pouca ajuda ter chegado às pequenas aldeias, equipes de busca e resgate da Turquia, Grã-Bretanha, Alemanha, França e outros países continuavam à procura de sobreviventes em cidades maiores e mais duramente atingidas, como Muzaffarabad e Balakot, segundo relatos da mídia.

Após resgatar cinco crianças em uma escola em ruínas em Balakot, uma equipe francesa concluiu suas operações lá na terça-feira, segundo a agência de notícias "France-Press". Em Islamabad, uma equipe que revirava um prédio de apartamentos que ruiu retirou com vida uma mulher de 75 anos e sua filha de 55 anos dos escombros.

No campo de pouso militar paquistanês em Islamabad, na tarde de terça-feira, equipes de resgate da Jordânia, Malásia e Rússia experimentavam a frustração de correr ao Paquistão para salvar vidas, apenas para se verem impedidas após o mau tempo ter retido os helicópteros.

Antes da chegada das chuvas pesadas, quase 20 dos feridos mais graves chegaram de helicóptero de aldeias na Caxemira controlada pelo Paquistão.

Um menino de 5 anos chamado Owais, com sua perna esquerda inchada e enfaixada, estava deitado no chão, bebendo de uma caixa de suco de manga e aguardando para ser levado a um hospital. Ele estava enchendo uma garrafa de água do lado de fora de sua escola quando o terremoto sacudiu sua aldeia. Sua irmã de 10 anos estava em aula; ela não conseguiu escapar.

*Colaboraram Hari Kumar em Baramullah, Caxemira, e Somini Sengupta em Islamabad, Paquistão. Empobrecido, Paquistão tem dificuldade para levar ajuda às vítimas George El Khouri Andolfato

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