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14/10/2005

A evolução de um mestre que sonhava no papel

The New York Times
Michael Kimmelman

Em Nova York
Pouco depois de chegar à Provence, em fevereiro de 1888, Vincent Van Gogh escreveu ao seu irmão, Theo, sobre uma bela visão: uma "abadia em ruínas, no alto de um morro coberto de pinheiros, arbustos e oliveiras".

Era a velha abadia de Montmajour, uma fortaleza desmoronando e sua torre e com uma vista imensa dos vinhedos e campos de trigo. Em julho, Van Gogh subiu até lá. Com o forte vento mistral, era impossível firmar o cavalete e pintar sem a tela balançar incontrolavelmente, isso sem contar os mosquitos.

Metropolitan Museum of Art via The New York Times 
"Pollard Birches", desenhado por Van Gogh em março de 1884, integra a mostra no museu



















No entanto, Van Gogh gabou-se para Theo, disse que "poucos teriam essa paciência", mas ele conseguiu desenhar. Seus desenhos de Montmajour, feitos com caneta de palha sobre largas folhas de papel Whatman, estão na exposição de desenhos de Van Gogh atualmente no Metropolitan Museum of Art.

Eles traduzem o céu, as pedras e as planícies com pontos, ondas e riscos. Nuances nos padrões formados implicam os ventos que balançavam os ramos de oliveira e seus troncos retorcidos; inúmeros pontos microscópicos imitam a qualidade de luz turva sobre os campos do horizonte. No preto e branco de Van Gogh, dá até para ter uma sensação de cor -o marrom escuro da terra, os campos amarelos e lilases e o céu de azul cinza.

A dificuldade desses desenhos exigiu um tipo de devoção de monge, que serve para reiterar suas crenças religiosas herdadas da Reforma Holandesa sobre a natureza e a revelação de Deus. Para ele, a natureza era quase sobrenatural. Não há melhor prova de que Van Gogh não era o odioso louco da lenda do cinema do que esses tributos sublimes ao campo.

É possível imaginar Van Gogh, meticuloso, mergulhado em suas milhares de cartas e desenhos, diários em palavras e imagens, enviados ao seu irmão e a poucos amigos em quem confiava. Assim encontrava uma estabilidade que evidentemente não via em nenhuma outra parte. Filho de um ministro protestante, ele registrava cuidadosamente seus trabalhos constantes com caneta e papel.

Às vezes temos a impressão de que há sempre uma exibição de Van Gogh na cidade, mas a última grande mostra no Met de fato aconteceu há duas décadas.

"Van Gogh em Saint-Remy e Auvers" (1986) veio depois de "Van Gogh em Arles" (1984) -eventos quase absurdamente populares, uma apoteose cultural do excitamento da era Reagan com seu consumismo. Essas duas grandes mostras foram acompanhadas pelo espetáculo indelével dos investidores japoneses no mercado de artes, colocando bilhões de ienes em qualquer quadro impressionista, especialmente os associados ao santo holandês de uma orelha só.

Pobre Vincent. Primeiro foi Kirk Douglas. Depois foram as moedas tilintando, vendendo cartões postais do asilo e dando lucros à Sotheby, um tilintar ainda audível uma geração depois, como ondas de rádio viajando pelo espaço, fazendo parecer que as mostras de Van Gogh nunca terminam. No entanto, o gênio não reconhecido continua sendo o mártir favorito da arte, expiando nossos pecados culturais, chamando os cegos e fiéis ao templo da Quinta Avenida.

E agora ele está de volta, em uma mostra de desenhos e algumas pinturas relacionadas, para ilustrar como ele passava de um meio ao outro. Organizada por Colta Ives e Susan Alyson Stein, do Met, e Sjraar Van Heugten e Marije Vellekoop, do Museu Van Gogh em Amsterdã, a mostra é detalhada e densa (já está aberta aos membros do museu e terça-feira abre para o público em geral).

Se era difícil há 20 anos ver seus quadros no meio da multidão, será provavelmente ainda mais difícil apreciar estes trabalhos, com seus detalhes obsessivos e sentimentos cada vez mais cheios de nuances.

No entanto, eu sugiro que você pense novamente antes de decidir que está cansado de Van Gogh e desistir da ocasião. O foco desta exibição são os desenhos, que são menos icônicos que as pinturas, mas foram igualmente importantes para ele e para o início de sua fama.

Como dizem, é grande arte, não importa quantas vezes foi reproduzida ou confundida pelas multidões. De alguma forma, ela retém sua dignidade e originalidade. Ela acalma seu sistema e exige que você pare e olhe de novo.

E assim você pode se ver levado de volta ao inverno, em um arvoredo melancólico de Nuenen; ao amanhecer na praia ao lado dos veleiros esguios de Saintes-Maries-de-la-Mer; ao vestíbulo ensombrado do asilo de Arles, onde as portas duplas se abrem ao jardim ensolarado como se fosse o Éden; e à Place du Fórum à noite, na luz de gás do Café Terrace.

Visões assombradas e rostos familiares: o amado Zouave, com "um rosto pequeno, pescoço grosso e olhos de tigre", como disse Van Gogh a Theo, cuja jaqueta de brocado e linhas curvas o tornam uma espécie de Daphne de bigodes. E é claro, o próprio Vincent, olhando para nós do canto do olho, com um terceiro olho desenhado acima dele, como um símbolo maçônico, como se seu próprio olhar não fosse perturbador o suficiente.

Em busca do tempo perdido

Toda a mostra do Met, inclusive os desenhos ruins, é inesquecível.

Ela acompanha sua transformação durante uma década, em que passou de um ilustrador tedioso de cenas camponesas melancólicas a um artista fluente. Como se vê no início da mostra, não havia nenhuma razão para alguém acreditar que viria a ser bom. Inicialmente, suas tentativas com pessoas, como o senhor idoso sentado diante de uma lareira, ou a senhora costurando, chegam a ser engraçadas de tão desajeitadas.

Durante uma década ele tentou ser vendedor de arte, professor, vendedor de livros e evangelista free-lance entre mineiros belgas. Quando assumiu sua carreira artística, em 1880, aos 27 anos, estava desesperado para compensar o tempo perdido.

Mas o processo tornou-se um trabalho árduo e longo. Ele devorou manuais de instrução e adotou uma tela de perspectiva que carregava para toda parte para desenhar cenários. E imitou ilustradores ingleses, Rembrandt e pintores franceses como Millet e Breton, inconsciente até meados dos anos 1880, do Impressionismo.

O esforço valeu, mas não da forma óbvia. A primeira galeria do Met reúne os melhores de seus desenhos iniciais. Van Gogh, distante da vanguarda, sozinho em seus próprios estudos, gradualmente fez as pazes com sua própria estranheza. Os cenários alcançam uma grandiosidade bizarra e triste.

Um desenho de uma camponesa, de 1885, logo antes de Van Gogh ir para Paris, é desajeitado, quase uma abstração, que parece uma espiga de milho. Mas hoje o efeito parece proposital. Não surpreende quando a mostra conta que Degas adquiriu esse desenho, que claramente reverbera com seus próprios nus e suas anatomias exageradas.

"Diga a ele que eu ficaria desesperado se meus retratos fossem 'corretos' em termos acadêmicos", escreveu Van Gogh, depois que um colega reclamou das distorções. "Não quero que sejam 'corretos'. Verdadeiros artistas pintam as coisas não como são, de uma forma seca e analítica, mas como as sentem. Adoro os corpos de Michelangelo, apesar das pernas serem longas demais e os quadris e costas largos demais. O que eu mais quero fazer é fazer essas incorreções, desvios, remodelagens e ajustes da realidade algo que pode ser 'falsa', mas ao mesmo tempo é mais verdadeira que a verdade literal."

Sua observação poderia ser o manifesto do modernismo. Certa vez em Paris, envolvido pela nova pintura radical, pelo japonismo e por novos personagens, Van Gogh deixou o desenho por um período curto. Mas em Arles, voltou à técnica com uma missão. Jogou fora a moldura de perspectiva.

O cenário de Arles, com seus campos plantados, lembrando a Holanda e as planícies das impressões japonesas, o liberaram. Palhas, tiradas dos campos do Midi serviam de canetas que seguravam apenas um pouco de tinta por vez e o estimularam a criar uma espécie de notação rápida, um código morse, com variações infinitas.

Por exemplo, depois de pintar barcos no mar ele fazia, como propaganda de si mesmo, desenhos do mesmo quadro. Para Emile Bernard, ele desenhou uma cena com ondas; para John Russell, com águas mais calmas; para Theo, em um ambiente mais tranqüilo. Cada um era completamente diferente. Ele continuava reinventado o desenho, e também se encontrou.

Quando chegou ao asilo de Saint-Remy, estava gravando tudo em desenhos que respiram luz e ar. Eles têm uma graça nova, quase musical. Cachos aninhados representam os ciprestes e sua cor rica: "uma gota preta em um cenário ensolarado", como escreveu, "uma das notas mais interessantes, e mais difíceis de atingir com exatidão".

A mostra termina com casas de fazenda e campos na cidade de Auvers, no Norte: nuvens de linhas de aquarela e óleo, imitando o padrão staccato das canetas de palha. Em um antigo vinhedo, sob um céu azul bebê, galinhas ciscam na sombra de uma pérgula. Van Gogh desenhou isso pouco antes de se matar, quando disse a Theo: "Ainda amo muito a arte e a vida."

É a realização de uma pessoa que finalmente descobriu como fazer a coisa mais difícil parecer fácil.

É uma bela visão.

"Vincent Van Gogh: The Drawings" estréia na terça-feira (17/10) no Metropolitan Museum of Art, (Quinta Avenida com 82nd St.) e termina no dia 31 de dezembro. Desenhos de Van Gogh são expostos no Met até fim do ano, em NY Deborah Weinberg

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