UOL Notícias Internacional
 

14/10/2005

Sob suspeita, Casa Branca tenta retomar a rotina

The New York Times
Richard W. Stevenson*

Em Washington
Karl Rove tirou o seu Jaguar da garagem da sua casa na zona noroeste de Washington, no crepúsculo matutino, dando início a um outro dia durante o qual ele poderia lidar com uma problemática nomeação para a Suprema Corte, com a reconstrução das áreas atingidas pelo furacão e com todos os outros problemas que se empilham sobre a mesa de trabalho do mais influente assessor do presidente Bush.

Mas o principal desafio de Rove na manhã da última quarta-feira (12/10) surgiu antes que ele saísse da garagem: como passar pelas cinco equipes de televisão e pelos três fotógrafos que o aguardavam? Ele lançou o ofuscante farol alto do automóvel contra as lentes das câmeras e acelerou.

Nos últimos dias, é assim que as coisas caminham na Casa Branca de Bush As rotinas são as mesmas. Mas tudo é diferente no fulgor dos estágios finais de uma investigação criminal que alcançou os mais altos níveis do poder em Washington.

Rove deverá depor perante um grande júri federal nesta sexta-feira (14), a quarta vez que o fará com relação a este caso, que está concentrado na revelação da identidade de uma oficial de inteligência da CIA.

Rove, vice-chefe da equipe de políticas e assessor graduado da Casa Branca, e I. Lewis Libby, chefe do gabinete do vice-presidente Dick Cheney, são os mais proeminentes funcionários da administração a se verem alvos da impiedosa atenção do promotor especial, Patrick J. Fitzgerald, e do escrutínio constante da mídia.

Mas a comissão de inquérito assinalou mais de 12 outros funcionários da administração que foram questionados por investigadores ou depuseram perante o grande júri. E, caso esse processo leve à acusação formal de qualquer funcionário graduado da administração, isso terá o potencial para abalar as vidas profissionais de todos os membros da Casa Branca durante o período restante do segundo mandato de Bush.

O resultado, segundo funcionários da administração e amigos e aliados que estão de fora, mas que falam constantemente com eles, é um clima de intensa incerteza na Casa Branca. Em certos casos, esse clima gera temor quanto às conseqüências pessoais e políticas, e raiva por se deixar ser pego pela sanha de um promotor especial.

E, considerando como as coisas têm andado mal para Bush e sua equipe em todas as frentes --uma pesquisa divulgada na quinta-feira (13) pelo Centro de Pesquisas Pew revelou que o índice de aprovação de Bush está em 38%, o mais baixo até o momento--, eles praticamente não contam com reservas de entusiasmo ou benevolência às quais recorrerem.

"Todos estão fazendo o trabalho que têm em mãos enquanto se preparam para o pior cenário", disse um funcionário graduado do governo, sob a condição de que o seu nome não fosse revelado, já que a Casa Branca proibiu a todos de fazerem comentários sobre a investigação.

Várias administrações chegaram a um ponto similar a este, correndo o risco de ficarem paralisadas internamente, e congeladas externamente sob os holofotes do escândalo. Para aqueles que trabalharam na Casa Branca no governo Bill Clinton, isso chegou a ser quase que um estilo de vida, a ponto de os ex-funcionários sentirem certa simpatia pelos seus sucessores no poder, devido àquilo pelo qual estes estão passando.

"Nesta cultura em que se supõe que todos sejam culpados, que se consolidou em Washington nos últimos dez ou 15 anos, deve haver muita raiva e uma incapacidade de administrar os fatos", afirma Lanny J. Davis, advogada de Washington que foi trazida pra a Casa Branca de Clinton para ajudar a lidar com o escândalo Monica Lewinsky.

"É difícil imaginar o quão ruim está a situação. Você se senta à sua mesa e conhece os fatos, mas não pode revelá-los ao público porque os advogados te orientam a não fazê-lo. Ou, se você resolver falar, o barulho dessa cultura que vê a todos como culpados eclipsará os fatos".

Bush brincou no ano passado com Matthew Cooper, repórter da revista "Time", perguntando por que ele ainda não fora para a cadeia por lutar contra uma determinação judicial exigindo que depusesse a respeito de uma conversa com uma fonte, que mais tarde se descobriu ser Rove. Atualmente, porém, quase não se fala abertamente sobre a investigação na Ala Oeste da Casa Branca.

Advogados da maioria das autoridades que depuseram perante o grande júri optaram por não compartilhar informações uns com os outros, deixando os colegas praticamente na escuridão a respeito daquilo que os outros estão dizendo a Fitzgerald.

Existe a convicção dentro da Casa Branca de que todos os que forem indiciados renunciarão ou deixarão o cargo temporariamente para se defender, embora não se saiba ao certo qual é o plano para lidar com tal possibilidade.

A perspectiva de que se tenha uma Casa Branca sem Rove, um velho estrategista de Bush, faz com que alguns aliados do presidente quase entrem em pânico, com medo de que sem ele o governo perca a única pessoa capaz de impor a disciplina sobre um partido que se tornou cada vez mais fragmentado, e que está quase que em guerra consigo próprio devido ao fato de Bush ter nomeado a advogada Harriet Miers para a Suprema Corte.

Com a Casa Branca tropeçando e preocupada, alguns aliados do presidente enxergam um vácuo político que está sendo preenchido por outros republicanos proeminentes, como o senador John McCain, do Arizona, que recentemente driblou a administração para conseguir a aprovação no Senado de uma emenda que estabeleceria novos padrões para a prevenção da tortura durante o interrogatório de detentos na luta contra o terrorismo.

Ao ser questionado sobre o caso na sua entrevista diária à imprensa, na quinta-feira, Scott McClellan, o secretário de Imprensa da Casa Branca, disse que Bush está aguardando ansiosamente os resultados da investigação.

O caso se centra em saber se autoridades do governo revelaram a identidade da oficial de inteligência da CIA, Valerie Wilson, como parte de uma tentativa de distanciar a Casa Branca das críticas feitas pelo seu marido, Joseph C. Wilson IV. Em meados de 2003, Joseph Wilson, um ex-diplomata, se tornou um crítico enérgico da forma como a administração usara informações de inteligência sobre programas de armas iraquianos para justificar a invasão.

A investigação levou ao encarceramento de uma jornalista de The New York Times, Judith Miller, durante 85 dias, por ela ter se recusado a depor perante o grande júri a respeito da conversa com uma fonte confidencial, que se descobriu ser Libby.

"O presidente disse que ninguém deseja mais do que ele chegar ao fundo dessa investigação", disse McClellan, cuja própria credibilidade ficou abalada devido às declarações feitas por ele dois anos atrás, segundo as quais Rove não tinha envolvimento com o vazamento da identidade da oficial de inteligência da CIA. "Quero chegar ao fundo deste caso. Queremos saber todos os fatos".

Devido ao medo que Fitzgerald inspira, a Casa Branca tem tratado o promotor especial com bastante cuidado, não fazendo críticas em público, e prometendo a toda hora cooperar completamente.

Quando perguntaram a Bush sobre a investigação, durante a sua aparição no programa "Today", da rede de televisão NBC, na última terça-feira, ele disse que Fitzgerald tem conduzido o caso "de uma maneira muito digna". Tal afirmação pode fazer com que seja muito difícil para os republicanos atacarem o promotor, caso este faça acusações contra autoridades governamentais.

Se há duas características marcantes da Casa Branca de Bush, estas são a dureza e a flexibilidade. Enquanto a Ala Oeste parece estar mais no limite do que o normal --McClellan se meteu em uma discussão acalorada e incomum com os repórteres, na quinta-feira, quando estes lhe perguntaram sobre a nomeação de Miers--, a linha oficial é a de trabalhar normalmente, e os principais atores parecem estar se esforçando para desempenhar tal papel.

Libby ainda se levanta bem cedo todas as manhãs e trabalha de 14 a 16 horas por dia no gabinete de Cheney. Rove, que saiu de casa às 5h50 na manhã da quarta-feira, manteve a sua rotina usual, disse McClellan.

Após depor perante o grande júri na sexta-feira, Rove retornará diretamente à sua agenda política. No final de semana ele deve comparecer a um evento para arrecadação de verbas para Jerry Kilgore, o candidato republicano a governador de Virginia.

*Colaborou Doug Mills. Karl Rove, a eminência parda de Bush, se complica com a Justiça Danilo Fonseca

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