UOL Notícias Internacional
 

15/10/2005

Forças russas derrotam rebeldes islâmicos no sul

The New York Times
C.J. Chivers*

Em Nalchik, Rússia
As forças de segurança russas encerraram um capítulo mortal em sua luta contra os rebeldes islâmicos aqui, nesta sexta-feira (14/10), ao libertarem pelo menos nove reféns, matarem pelo menos 72 rebeldes, obtendo um final mais bem-sucedido do que os de outros confrontos recentes, que provocaram fortes críticas à sua atuação.

Após dois dias de assaltos de grande escala na turbulenta região do Norte do Cáucaso, a ação chegou ao final com a investida das autoridades contra o grupo final de rebeldes, entocado em garagens nos limites da cidade, matando todos eles, disseram autoridades e testemunhas.

Pelo menos 108 pessoas morreram ao todo, e muitas mais ficaram feridas em confrontos esporádicos nas ruas e prédios das forças de segurança desta cidade. Apesar da audácia e da coordenação tática dos ataques dos rebeldes terem realçado a fragilidade do controle da Rússia em seu canto sudoeste, a resposta das forças de segurança foi mais bem-sucedida do que em outros casos recentes.

Após terroristas tchetchenos terem tomado um teatro em Moscou, em 2002, atacado a cidade próxima de Nazran, em junho de 2004, e feito uma escola inteira como refém em Beslan, também em 2004, os sobreviventes destes eventos disseram que os reféns morreram inutilmente ou que os terroristas escaparam por causa das falhas e inépcia das agências de segurança russas.

Em Nalchik, após ter sido inicialmente surpreendido e superado em força, o governo enviou reforços e contra-atacou, fechando as rotas de fuga e matando dezenas de rebeldes, cujos corpos estavam espalhados por toda a cidade na manhã de sexta-feira.

Assim que o combate começou a se alastrar para a cidade próxima de Chegem, na quinta-feira, helicópteros do exército russo estavam preparados, disseram testemunhas: as aeronaves cercaram um grupo de rebeldes que estava escapando por um campo e os matou com disparos de foguete.

Além disso, enquanto o impasse com os reféns se arrastava, as autoridades negociaram: elas disseram ter fechado um acordo que libertaria os reféns em troca do que parecia ser um salvo-conduto para fora da cidade, mas que chegou ao fim a alguns quarteirões de distância com a morte dos rebeldes.

Pelo menos 72 rebeldes morreram e 31 foram presos, disse o vice-ministro do Interior, Andrei Novikov, em uma coletiva de imprensa; ele acrescentou que o número poderá aumentar.

Vinte e quatro membros das agências de segurança também foram mortos, disse Novikov, e 51 ficaram feridos. Não se sabia ao certo quantos civis morreram, com as autoridades dando estimativas entre 12 a 20.

O presidente Vladimir V. Putin registrou seu consternação diante dos ataques em televisão nacional, mas expressou satisfação pelo fato de que em Nalchik, ao menos, os rebeldes foram detidos. "É ruim o fato de ataques como este ainda serem possíveis", disse ele. "Mas é bom o fato das agências de segurança e manutenção da lei terem trabalhado bem, de forma eficiente, rigorosa. E continuaremos agindo desta forma em relação a qualquer um que pegue em armas e ameace as vidas de nossos cidadãos e a integridade do Estado russo."

As autoridades descreveram os agressores como guerrilheiros islâmicos aliados a separatistas tchetchenos, mas a maioria era de etnia kabardina que vivia aqui na república de Kabardino-Balkária.

Entre os mortos, disse Novikov, estava Ilyas Gorchkhanov, líder de um grupo islâmico, o Yarmuk. O grupo realizou ataques nos últimos anos e é aliado do terrorista tchetcheno Shamil Basayev, que planejou a tomada da escola em Beslan, no ano passado.

Nos ataques mais recentes, disseram as autoridades, uma das metas era a obtenção de armas. No quartel-general da Distrito de Polícia Nº 3, seu comandante, o coronel Ruslan Gudanayev, disse que após entrarem à força no prédio, os rebeldes buscaram imediatamente o arsenal. "Eles não conseguiram entrar no arsenal", ele disse. "Era a esperança deles."

Novikov também disse que os ataques provavelmente foram preventivos, já que a polícia, após ter estourado um laboratório de bombas nesta semana, estava preparando uma série de prisões.

Sejam quais fossem suas intenções, os rebeldes, armados com rifles automáticos e granadas, atacaram várias sedes de agências de manutenção da lei e duas lojas de armas na cidade na quinta-feira, no início do dia.

A surpresa foi total. À medida que os rebeldes remanescentes eram mortos, permitindo o acesso a áreas previamente sob o controle deles, surgia um quadro que mostrava o grau com que a polícia foi pega desprevenida.

Entre os mortos estava o corpo de um policial que foi baleado no banco da frente de seu carro particular, no estacionamento do Distrito de Polícia Nº 3. O oficial caiu pela porta aberta e morreu ao lado de seu chapéu. No banco de trás estava o corpo caído de um colega. Aparentemente nenhum dos homens teve tempo de sacar sua arma.

Testemunhas, sobreviventes e autoridades descreveram três ações principais na sexta-feira: uma na praça central da cidade, outra no Distrito de Polícia Nº 3 e a última nos escritórios e garagens do departamento correcional.

Em um sinal de quão confiante estavam os rebeldes, eles atacaram o escritório da agência de segurança FSB, a sucessora da KGB soviética, na praça cerimonial da cidade. Três rebeldes sobreviveram ao primeiro dia lá, disseram as autoridades, fazendo duas mulheres como reféns em uma loja do outro lado da rua.

As mulheres foram libertadas logo após o amanhecer, quando um veículo blindado invadiu a loja, que então foi tomada por soldados. Os rebeldes foram mortos, disse Marina Kyasova, uma porta-voz do Ministério do Interior da república.

Aproximadamente ao mesmo tempo, disseram as autoridades, eles iniciaram a operação no Distrito de Polícia Nº 3.

O resultado misturou violência e logro. Após horas de negociações, vários rebeldes que mantinham reféns no interior do prédio foram persuadidos a libertar as mulheres e adolescentes em troca da saída da cidade com quatro policiais como escudos, segundo o general de exército Khachim Shagenov, que disse ter negociado o acordo.

Mas após seus captores e policiais reféns embarcarem em uma van fornecida pelas tropas russas, uma armadilha foi ativada, disseram testemunhas e a polícia. Os relatos do incidente divergiam, assim como o número de reféns libertados em troca: as autoridades deram números variados como 7, 9 e 15.

A última batalha do dia ocorreu no departamento correcional. O coronel Akhmed Abidov, o comandante, disse que sua instalação foi tomada na quinta-feira, quando dois rebeldes atravessaram os portões atirando granadas de mão, seguidos por dois carros em aceleração transportando homens armados.

Os homens armados penetraram na instalação lutando, se entocando nas garagens do departamento e resistindo até que veículos blindados os silenciaram, na tarde de sexta-feira, com fogo pesado de metralhadoras. "Eles lutaram até a morte", disse Abidove, "gritando 'Allahu Akhbar'".

Apesar das autoridades terem retomado o controle dos prédios do governo, Nalchik continuava tomada pelo medo.

O governo da república apoiado pelo Kremlin tem desbaratado nos últimos anos o que descreveu como atividades islâmicas suspeitas, fechando mesquitas e prendendo membros suspeitos de grupos islâmicos. Mas não se sabe se tal tática retardou a insurreição ou a estimulou.

Os moradores expressaram preocupação na sexta-feira de que a guerra no Cáucaso, uma região cujas diversas etnias e antigas rivalidades freqüentemente colocam uns contra os outros desde o colapso da União Soviética, tenha chegado aqui para ficar.

"Eu sou um homem", disse Hussain Beslanaye, do lado de fora do departamento correcional. "Mas tenho medo."

*Colaborou Andrew Kramer, com reportagem em Moscou. Reação não provocou a morte de reféns, como em Moscou e Beslan George El Khouri Andolfato

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