UOL Notícias Internacional
 

15/10/2005

Verba do Katrina é gasta com TVs, golf e baralho

The New York Times
Scott Shane e Eric Lipton

Em Washington
Entre outras coisas, havia na longa lista de compras do governo federal para ajuda emergencial às zonas atingidas pelo furacão: US$ 223.000 (cerca de R$ 512.000) em chinelos, US$ 153.600 (em torno de R$ 353.000) em roupas de baixo, três carros de golfe alugados por US$ 1.500 (aproximadamente R$ 3.450) por mês e mata-moscas por US$ 5,28 (cerca de R$ 12). Ah, e quatro baralhos comprados pelo Serviço Florestal, sem indicação de preço, mas com uma explicação: "Para melhorar o humor durante o desastre do furacão Rita."

A maior parte da conta de US$ 150 bilhões (em torno de R$ 345 bilhões) para os furacões Katrina e Rita será para cheques de assistência a milhares de vítimas e contratos para remoção de entulho e alojamento. Mas há uma vasta quantidade de compras menores, feitas por uma legião de funcionários despachados para a região, muitos levando cartões de crédito do governo.

Foram compras em escala épica: US$ 66.632,37 (cerca de R$ 153.250) de uma só vez em uma loja da Wal-Mart em La Place; US$ 129.568,40 (em torno de R$ 297.560) em 195 visitas a lojas da Home Depot por funcionários da Agência Federal de Emergência (Fema); 3.000 sacos de dormir comprados em duas lojas, por US$ 60.639,61 (aproximadamente R$ 135.460).

Os auditores vão levar anos para avaliar a propriedade dos gastos; sua escala é tão grande que muitas compras provavelmente nunca chegarão a ser avaliadas. Mas uma análise dos livros da Fema e de quatro outras agências mostra que o governo freqüentemente pagou preços de varejo ou até mais por grandes quantidades de um mesmo item.

Uma das transações parece ter sido dividida para não superar o teto de US$ 250.000 (cerca de R$ 575.000) em compras com cartão, um limite que foi aumentado em cem vezes para o furacão Katrina, dos US$ 2.500 (aproximadamente R$ 5.7500 usuais.

As listas detalhando US$ 19 milhões (cerca de R$ 43 milhões) de gastos com cartões do governo federal não parecem irreais. Mas muitas vezes não é possível dizer se os artigos eram necessários ou até mesmo se foram usados.

As gordas cestas de compras parecem não só refletir a corrida para satisfazer as necessidades das vítimas desesperadas mas também o fato de ser fácil gastar dinheiro dos outros.

A Agência de Proteção Ambiental realmente precisava comprar uma quantidade não especificada de cantis de água estilo CamelBak por US$ 2.024 (cerca de R$ 4.650)? Seus funcionários não poderiam ter usado garrafas plásticas? Por que o Serviço Florestal gastou US$ 547 (em torno de R$ 1.250) por uma "manta de cavalo"?

Um porta-voz da agência não conseguiu explicar, mas um vendedor da Port Allen Hardware em Louisiana disse que a manta foi usada como um gigantesco saco de gelo, para manter as bebidas geladas.

E os US$ 89,37 (cerca de R$ 205) de tratamento de dor de dente de um funcionário em um centro de mobilização em Marietta, Geórgia?

Danielle Brian, diretora executiva do Projeto de Supervisão do Governo, questionou se as agências tinham justificativas para comprar tantos itens a preço de varejo, em vez de procurar descontos nos fabricantes. Nas lojas do Office Depot, por exemplo, funcionários da Fema gastaram US$ 382.162 (aproximadamente R$ 880.000) em cartões de crédito.

"Compreendo que havia uma questão de urgência, mas ainda sim se pode comprar muito rapidamente", disse ela.

Vários membros do Congresso disseram que vão estudar as transações com "cartões de compra", como são chamados os cartões de crédito pagos pelo governo. "Se houver algo errado, será como trancar a porta do celeiro depois que o cavalo foi roubado", disse o senador Charles E. Grassley, republicano do Iowa, diretor do Comitê de Finanças. "Mas ainda assim vamos investigar."

As histórias por trás dos gastos curiosos mostram como as compras relativas ao furacão Katrina distanciaram-se das práticas do governo. Por exemplo, quando a Fema pagou US$ 177.025 (cerca de R$ 408.000) para Banita Creek Hall, um salão de banquetes em Nacogdoches, Texas, estava de fato comprando 18 barcos chatos a motor de Mike Love, advogado de Lufkin, Texas, proprietário de uma empresa de lanchas.

Love disse que recebeu uma ligação tarde em um sábado perguntando se poderia conseguir barcos rapidamente para ajudar a coletar corpos ou sobreviventes em New Orleans alagada. Ele se esforçou para encontrar as lanchas de vendedores locais e pediu a um parente, proprietário do salão de banquetes, para processar a transação com sua máquina de cartão de crédito.

As lanchas custaram quase US$ 10.000 cada (cerca de R$ 23.000), o que pode ter sido um preço maior do que se conseguiria em outra situação. Mas essa não era uma opção, disse Love. "Os corpos estavam apodrecendo, e as pessoas precisavam de comida", disse ele. "Eu procurei pensar uma forma de fazer esse negócio acontecer rápido."

Apesar do aumento no teto das compras com cartão, as agências algumas vezes parecem tê-lo evitado. Por exemplo, no dia 14 de setembro, a Fema pagou US$ 271.838 (aproximadamente de R$ 620.000) em suprimentos médicos para uma empresa em Ohio, Bound Tree Medical. As compras, porém, foram divididas em três transações iguais de US$ 90.612 (cerca de R$ 200.000), ou seja, um valor abaixo do teto de US$ 250.000.

Larry Orluskie, porta-voz do Departamento de Segurança Interna, disse que talvez as regras tenham sido flexibilizadas pela necessidade urgente de aparelhagem médica. "Não poso imaginar ninguém criticando o agente de compras por ser criativo e fazer o sistema funcionar para salvar vidas", disse Orluskie.

Alguns itens que saltam aos olhos são compreensíveis quando se toma conhecimento dos detalhes. Os chinelos e roupas de baixo eram para as vítimas evacuadas, muitas das quais fugiram sem roupas extras e usaram banheiros públicos por semanas, diz a Fema. A Jockey International diz que forneceu roupas de baixo a preços abaixo do custo.

Parece estranho que Steve`s Christmas Trees, uma empresa da Califórnia, tenha recebido quase US$ 2 milhões (em torno de R$ 4,6 milhões) da Fema para "assistência ao furacão", mas uma ligação revela que a empresa é fornecedora de caminhões de água, chuveiros e unidades de lavanderia portáteis.

A conta de US$ 66.000 da Wal-Mart, segundo a empresa, foi para um caminhão de bens encomendados diretamente da sua sede em Bentonville, Arkansas, mas atribuída à loja de La Place por propósitos de contabilidade. Uma televisão e um sofá para o Serviço Florestal foram para bombeiros descansarem durante dias intensos, disse Daniel Jiron, porta-voz do Serviço Florestal.

O custo de operar em lugares que não tinham serviços básicos freqüentemente era alto. Uma unidade de chuveiro portátil, por exemplo, com 24 duchas alimentadas por caminhões de água e uma equipe de seis pessoas para mantê-la aberta 24 horas por dia, custa entre US$ 8.000 a US$ 10.000 (entre R$ 18.000 e R$ 23.000) por dia.

Quando a Administração Marítima perdeu seu escritório de Nova Orleans, com o furacão Katrina, gastou mais de US$ 40.000 (aproximadamente R$ 92.000) para equipar um novo escritório em Port Arthur, Texas.

Em suas compras forçadas, o governo não economizou. Pagou preços de varejo para enormes quantidades de tudo, desde cartuchos de tinta até Gatorade. Sob um contrato competitivo com um fornecedor da Virgínia, a Fema pagou US$ 3.125 (em torno de R$ 7.100) por computadores laptop, que permitem ao usuário escrever em telas sensíveis ao toque, mas especialmente resistentes, para uso externo.

Além disso, pagou a um revendedor no Alabama cerca de US$ 40.000 (ou R$ 92.000) cada por 50 caminhonetes Ford F-350 --um preço razoável, disseram outros revendedores, porque a agência também queria rodas posteriores duplas, cabines mais amplas e janelas e trancas especiais.

Representantes da agência insistem que as compras são analisadas antes de efetuadas. Orluskie, da Segurança Interna, disse que, longe de distribuir cartões de compras frivolamente, a Fema limitou-os a apenas 20 funcionários, que até agora registraram US$ 12 milhões (cerca de R$ 27 milhões) em gastos relacionados ao furacão.

Os cartões de compra ganharam um status lendário entre fiscais do governo, particularmente pela variedade de usos impróprios descobertos por auditores no passado: valises Coach de US$ 400 (ou R$ 920), uma cabeça de veado empalhada, um cachorro, carteiras da Louis Vuitton de US$ 250, um fone de ouvido Bose de US$ 300 (cerca de R$ 600), roupas da Victoria's Secret, óculos escuros Oakley, e até US$ 630 (em torno de R$ 1.400) por serviços de acompanhante.

Mas Orluskie disse que os agentes da Segurança Interna sabiam que haveria muitos fiscais vigiando suas compras. "Se você compra 500 televisores, é melhor poder explicar o que está fazendo com eles", disse ele. "Porque amanhã, sua compra vai ser questionada". Dinheiro da ajuda a vítimas do furacão tem uso no mínimo discutível Deborah Weinberg

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