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16/10/2005

Imprensa ajudou Bush com o culto à celebridade

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
Como escrevi certa vez, George W. Bush, "valoriza mais a lealdade do que competência" e prefere "assessores cuja sorte pessoal é quase inteiramente ligada à dele". Ele gosta de se cercar de "cortejadores obsequiosos".

Muitas pessoas estão dizendo coisas assim atualmente. Mas essas citações são de uma coluna publicada no dia 19 de novembro de 2000. Não acho que eu seja melhor do que ninguém em avaliar o caráter das pessoas. Acertei porque disse essas coisas no contexto da escolha por Bush de seus assessores econômicos, um assunto sobre o qual tenho alguma experiência.

Muitas pessoas na mídia alegam, ao menos implicitamente, serem especialistas em avaliar o caráter --e suas análises têm um papel forte, às vezes decisivo em nossa vida política.

As eleições de 2000 teriam terminado em uma vitória para o democrata Al Gore, à prova de cédulas enganosas, se muitos repórteres não tivessem tomado antipatia por ele, enquanto retratavam Bush como um cara honesto e agradável. As eleições de 2004 foram em grande parte decididas pela imagem de Bush como um líder forte e eficaz.

Então, é importante perguntar por que essas análises são tão freqüentemente enganadas. Neste momento, com o governo Bush desmoronando em várias questões, estamos ouvindo falar muito sobre as falhas pessoais do presidente.

Mas o que aconteceu com aquela imagem de homem no comando, de líder heróico na guerra ao terror? A resposta, é claro, é que essa figura nunca existiu: Bush é o mesmo homem de sempre. Todas as falhas de caráter que agora alimentam os programas humorísticos eram plenamente visíveis, para quem quisesse ver, durante a campanha de 2000.

E Bush o grande líder não é o único personagem de ficção, que não tem nenhuma semelhança ao homem de verdade, criado por imagens da mídia.

Leia os discursos que Howard Dean deu antes da guerra no Iraque e compare-os com a apresentação na ONU de Colin Powell. Sabendo o que sabemos hoje, está claro que um homem foi prudente e realista, enquanto outro desenvolvia loucas teorias de conspiração. Mas, de alguma forma, seus rótulos foram trocados em sua apresentação pela mídia.

Por que isso acontece? Grande parte da resposta é que a imprensa coloca muito peso nas entrevistas "pessoais e próximas" com pessoas importantes.

Por um lado, são difíceis de conseguir, por outro, são boas de público. Mas essas entrevistas raramente são reveladoras. O fato é que a maior parte das pessoas --inclusive eu-- não consegue avaliar bem o caráter pelas impressões pessoais. Segundo os psicólogos, a maior parte das pessoas se sai um pouco melhor do que o mero acaso quando tenta distinguir mentirosos de quem fala a verdade.

De forma geral, o grande problema das análises políticas baseadas em caráter é que não há regras, não há uma forma de se provar que estão erradas. Se um repórter fala dos nervos de aço de um político que depois se torna ineficaz e incapaz de fazer escolhas difíceis, você foi mal orientado, mas não vai exigir uma retificação formal.

Assim, fica mais fácil para os repórteres formularem a matéria pelo sentem que podem dizer com segurança, do que de fato revelarem o que pensam ou sabem.

Agora que os índices de aprovação de Bush chegaram à casa dos 30, estamos ouvindo falar sobre sua frieza e mau temperamento, sobre como os assessores têm medo de dar más notícias. Alguém acha que os jornalistas só descobriram essas características agora?

Sejamos francos: O governo Bush fez brilhante uso do carreirismo jornalístico. Os que escreveram matérias enaltecedoras de Bush e seus partidários foram recompensados com um impulso na carreira. Os que levantaram dúvidas sobre seu caráter viram-se sob ataque pessoal de agentes do governo. (Sim, em parte estou falando por experiência própria).

Somente agora, com Bush em apuros, a estrutura de recompensas mudou.

Então, qual é a solução? Melhorar a capacidade dos jornalistas em avaliar o caráter? Infelizmente, esse não é um plano tão prático. Afinal, quem avaliará sua avaliação?

O que realmente precisamos é de um jornalismo político que se baseie menos nas percepções das personalidades e mais nos fatos de verdade. Não deve causar satisfação o fato das histórias sobre a coragem de Bush terem cedido lugar às análises de seus tiques faciais.

Pensemos, em vez disso, sobre como o mundo seria diferente hoje se, durante a campanha de 2000, a imprensa tivesse se concentrado nas políticas fiscais dos candidatos, em vez de seus guarda-roupas. Jornalismo político deve priorizar os fatos, e não as personalidades Deborah Weinberg

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