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17/10/2005

Após dez anos, Stevie Wonder lança novo álbum

The New York Times
Alan Light

Em Nova York
Vale a pena notar que Stevie Wonder está várias horas atrasado. É verdade que ele tem um bom motivo para isso --os incêndios nas imediações de Los Angeles chegaram tão próximos à sua casa que ele teve que partir às pressas. Mas, independentemente disso, esperar por Wonder é uma das maiores tradições da música pop.

J. Emilio Flores/The New York Times 
Para o cantor e compositor de 55 anos, a música é que define o cronograma --e não o oposto

O lançamento nesta semana de "A Time to Love" põe um fim à maior das esperas. Já faz uma década que ele lançou o último álbum completo com material novo.

Para Wonder, 55, a música sempre determina a agenda, e não o contrário. "Estabeleço uma meta na minha mente", diz ele, em uma entrevista pelo telefone, falando do seu estúdio de gravação. "E, então, digo: 'Ok, é disto que esta música e este projeto precisam'. E, daí, não admito um padrão inferior à meta estabelecida".

Ele diz que desta vez o que valeu foi uma frase-chave. Ele ficou testando um fragmento musical no piano, até que um dia as palavras "a time to love" ("um momento para amar") surgiram na sua cabeça. "Quando me deparei com este título, sabia o que usaria e o que não usaria. Isso foi há uns três ou quatro anos".

A maior parte do seu trabalho vocal foi completada no ano passado, o que gerou a primeira onda de rumores de que o álbum finalmente seria lançado.

No entanto, ele ainda estava burilando a música até o mês passado. Alterando mixagens, acrescentando uma parte composta por uma voz feminina, e retirando outras. Pode-se chamar isso de perfeccionismo ou de procrastinação, mas desde que resolveu, de forma radical, assumir o controle sobre a sua própria composição e produção, em 1972, ele tem seguido de forma obstinada, e, com freqüência, brilhante, o seu próprio talento --e o seu próprio cronograma.

Após dez anos sem produzir nada, Wonder não perdeu o seu senso melódico sem paralelos. No álbum, ele retorna a ritmos mais informais e elásticos, em vez de se fixar nas batidas mecânicas que desfiguraram grande parte da sua música na década de 1990. Ele chegou até mesmo a tocar bateria.

"Sempre tinha gente me perguntando por que eu não tocava percussão como fiz em 'Innervisions'", relembra Wonder. "E eu dizia a esse pessoal que me deixasse em paz. Mas, no dia em que ouvi o resultado, disse para mim mesmo que eles apresentavam um bom argumento quando me pediam para fazer a percussão".

Nos 42 anos decorridos desde "Fingertips, Part 2", o primeiro sucesso de Little Stevie Wonder, o artista já teve 32 músicas no topo das paradas de sucesso, e ganhou um recorde de 19 prêmios Grammy.

Mesmo durante a sua ausência, ele não saiu do cenário musical. Artistas do Red Hot Chili Peppers ao Phish interpretaram as suas músicas, e o seu estilo magnificamente sentimental e filigranado ecoou por duas gerações de cantores, incluindo recentemente John Legend, Alicia Keys e Adam Levine.

"Ele de fato alterou a forma como as pessoas cantavam", explica Bonnie Raitt, que tocou a guitarra em "Tell Your Heart I Love You", uma faixa do novo álbum. Ela acrescentou que o cenário da música pop pode ser dividido em duas eras: "Antes e depois de Stevie".

Mas o depois de Stevie tem sido longo. Faz já 20 anos desde que ele emplacou um álbum ou uma música na lista dos dez maiores sucessos, e o som "mais orgânico" que ele diz procurar no seu novo álbum não parece se encaixar muito bem no rádio da era pós-hip-hop.

"Definitivamente será uma batalha dura", alerta B.J. Stone, diretor de programação musical da Sirius Satellite Radio. "Há muita expectativa porque ele é um gênio. Mas não creio que ele realmente tenha entendido o ritmo da música atual".

Também não ajuda o fato de o lançamento de "A Time to Love" ter sido adiado diversas vezes. "Existia uma falta de confiança com relação à nossa capacidade de lançar o disco", diz Sylvia Rhone, presidente da Motown Records. "Mas quando todos viram que desta vez era para valer, eles se animaram".

A julgar pelos créditos de "A Time to Love", a maior parte dos músicos ainda deixa de lado o que estiver fazendo se tiver uma chance de trabalhar com Stevie Wonder. Prince, India.Arie, o superastro do gospel, Kirk Franklin, e Doug E. Fresh compareceram. Paul McCartney (com quem Wonder gravou o dueto "Ebony and Ivory, em 1982) emprestou a sua guitarra à música que é o título do álbum.

McCartney pode ser o rival solitário de Wonder para o título de principal compositor de melodias da era do rock, mas Wonder diz que desta vez foi um outro Beatle que o inspirou.

"Eu estava ouvindo o canal dos anos 60 na XM (um serviço de rádio por satélite) e escutei 'All You Need Is Love'", conta Wonder. "Percebi então o quanto eu realmente amava John Lennon, e o lugar especial que ele tinha nas letras das suas músicas. Ele e Bob Marley eram incríveis poetas da razão e daquelas coisas que fazem sentido e que fornecem às pessoas um lugar e um objetivo".

Wonder manifesta um orgulho especial pelas palavras que escreveu para o seu álbum. "Creio que evoluí como criador de letras de músicas", disse ele. "Creio, por exemplo, que 'Passionate Raidrops' (uma outra faixa do álbum) possui uma letra diferente. Ela é muito pitoresca. Sou capaz de ver tudo o que estou escrevendo, posso visualizar todas aquelas coisas acontecendo".

É claro que Wonder é cego. Talvez o mais famoso homem cego vivo, mas ele fala de uma visualização que não é autoconsciente, como se fosse apenas uma dentre várias ferramentas à sua disposição como músico.

Ele fala de forma mais deliberada ao se referir ao trabalho humanitário, o seu outro grande legado. Ele é um dos elos remanescentes mais tangíveis da era dos direitos civis.

Atualmente, como pai de sete filhos, incluindo um recém-nascido, ele continua comprometido com várias causas e projetos sociais. O artista diz que tem conversado com Steven P. Jobs, o fundador da Apple Computer, a respeito de tornar o iPod mais acessível aos ouvintes cegos.

Quando a balada "Shelter in the Rain" ("Abrigo na Chuva") adquiriu um novo significado depois do furacão Katrina, ele destinou todas as rendas com a música aos projetos de ajuda aos flagelados. "Ele está em um plano superior como figura cultural. Está acima das questões partidárias e das críticas", afirma Raitt.

Quanto às músicas de "A Time to Love", elas se situam mais ou menos em um patamar acima do confronto direto, o que é algo surpreendente em se tratando de um compositor que faz comentários sociais tão críticos como em "You Haven't Done Nothing" e "Living for the City".

A maior parte do álbum consiste de músicas românticas explícitas, e as mensagens em "So What the Fuss" e em "Positivity" se concentram na empatia e na responsabilidade pessoal (segundo ele, uma música de protesto mais estridente, "Judgement Day", provavelmente aparecerá como um bônus na versão japonesa do álbum).

Apesar do tom das suas músicas, a sua visão sobre a situação mundial não parece ter se suavizado. "Existe um espírito maligno que paira sobre nós. Agora, ele está presente de uma maneira diferente. É um produto daquelas coisas com as quais não lidamos, que deixamos de lado, sem resolver", afirmou o cantor.

"Mas realmente não estou com raiva. Estou triste e desapontado. Mas procuro fazer o melhor que posso. E estou encorajando todos a fazerem o mesmo, a darem o amor que têm em seus espíritos, porque creio que as pessoas estão começando a enxergar as conseqüências daquilo que fazem ou deixam de fazer".

A Motown teve três presidentes durante o período de produção de "A Time to Love", e Wonder está encarando o lançamento do álbum como um teste. "Tenho estado comprometido com uma gravadora que é um fruto do trabalho de um afro-americano de Detroit", conta ele, referindo-se ao fundador da empresa, Berry Gordy Jr. "E, enquanto eles tocarem os seus negócios com as minhas músicas, estarei presente. Vamos ver agora como eles se saem".

Rhone diz que o verdadeiro desafio para a sua meta foi fazer com que o artista terminasse o álbum. "Trabalhamos com um grande plano de marketing que evoluiu durante um ano inteiro", diz ela. "Estamos tão bem preparados, tão ansiosos para executarmos o trabalho, que o lançamento do álbum no mercado é a parte divertida". Ela descreve Wonder como "a pedra fundamental da Motown".

De fato, Wonder é o único astro da Motown que restou da lista histórica da gravadora dos anos 60. Atualmente a companhia é mais conhecida como um repositório de nostalgia do que como uma gravadora que traz novidades.

"Para os donos da Motown, estou certo de que o legado está no catálogo, e posso entender isso", diz ele.

Mais de quatro décadas depois de ter feito a sua estréia, ele nitidamente ainda pensa em tais questões. "Mas o legado ainda não expresso tem que estar no futuro e naquilo que está acontecendo agora, e não no passado", afirma. "A Time to Love" tem o desafio de fazer sucesso na era pós hip-hop Danilo Fonseca

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