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18/10/2005

Crise de Bush aumenta críticas ao chefe de Gabinete

The New York Times
Anne E. Kornblut
Em Washington
Com Karl Rove colocado de lado devido ao crescente escândalo de vazamento da CIA, alguns dos erros do governo Bush nos últimos meses têm lançado uma sombra sobre Andrew H. Card Jr., há anos uma força importante como chefe de Gabinete da Casa Branca.

Seu gabinete supervisionou a resposta do governo ao Furacão Katrina, coordenando a assistência federal que foi amplamente condenada como lenta demais. Card coordenou pessoalmente a seleção de Harriet E. Miers para a Suprema Corte, uma escolha que dividiu o Partido Republicano e deixou o governo lutando para salvar sua indicação.

A confluência de crises, todas passando pela sala de Card, a poucos passos do Escritório Oval, tem feito alguns críticos perguntarem se Card precisa limpar a casa ou se impor mais fortemente -ou pelo menos considerar um plano de correção antes que Bush fique reduzido a uma figura decorativa.

"A lição tanto do Katrina quanto de Miers é que o sistema de tomada de decisão na Casa Branca não atende mais as necessidades do presidente", disse David Frum, um ex-redator de discursos de Bush que tem criticado a escolha de Miers.

Os críticos "poderiam talvez responsabilizar Andy por não dizer, 'Sr. Presidente, isto será um erro'", disse William Kristol, um comentarista conservador e outro forte critico da indicação de Miers.

"Ele sempre foi -mais fraco não seria justo, mas ele sempre foi um chefe de Gabinete menos poderoso do que estávamos acostumados", disse Kristol. "Isto funcionou bem por algum tempo. Ele parecia ser bom na coordenação de Karl, do vice-presidente, Josh Bolten e Condi. E de novo, para lhe dar crédito, é preciso dizer que no primeiro mandato as coisas transcorreram bem. De forma que realmente não culpo Andy; ele está fazendo o que sempre fez."

O próprio Card é raramente um alvo de críticas. Mais do que qualquer outro importante membro do governo, ele é admirado pelos secretários e funcionários, pelo presidente e por legisladores de ambos os partidos políticos.

Alegre a ponto de parecer piegas, Card, natural de Massachusetts, trabalha arduamente, geralmente chegando à Casa Branca antes do amanhecer e saindo depois da hora do jantar.

Sua esposa, Kathleene, é uma pastora metodista, e os dois têm um relacionamento fácil e caloroso com Bush e sua esposa, Laura -motivos para Card, atualmente em seu quinto ano, ter se tornado o chefe de Gabinete da Casa Branca há mais tempo no cargo.

Mas sua reputação de administrador eficaz da burocracia do Executivo tem se tornado cada vez mais difícil de ser defendida diante dos eventos recentes. Alguns críticos do governo têm se perguntado se antigos chefes de Gabinete -figuras imponentes como James A. Baker III ou Donald T. Regan- teriam deixado tantos problemas se acumularem.

A indicação de Miers provocou as maiores críticas. Alguns conservadores e aliados de Rove se queixam de que Card manteve Rove no escuro sobre a seriedade da intenção de Bush até ser tarde demais no processo, deixando de lado o conselheiro que tem sido o mais capaz de prever a dissensão nas fileiras republicanas.

Card também comandou um processo de avaliação que os críticos atacaram como inerentemente falho, pois colocou William K. Kelly -o vice de Miers na Casa Branca- encarregado de avaliar sua própria chefe.

"Independente do processo de avaliação ter sido completo ou não, ele representava inevitáveis conflitos de interesse", escreveu na semana passada o colunista conservador John Fund, na edição online do "The Wall Street Journal", citando Card como o principal culpado.

Para Card, que nunca se gabou de ser um mediador de poder assertivo, as críticas ao seu estilo de administração atingem os próprios talentos dos quais ele se orgulha.

Apesar de ter servido brevemente como secretário dos Transportes no governo do primeiro presidente Bush, grande parte de sua carreira política transcorreu nas anônimas -mas importantes- fileiras da burocracia, navegando pelos corredores dos bastidores do governo.

Ele entrou para a campanha presidencial de Bush não como conselheiro político, mas como um administrador dos aspectos práticos da convenção republicana. Mesmo agora, após cinco anos ao lado do mais poderoso líder do mundo, ele descreve seu trabalho como um bom burocrata.

"Eu não vejo meu trabalho como sendo nada mais do que a responsabilidade pelo pessoal", disse Card em uma entrevista no início deste ano.

Tecnicamente, Card é um superior de Rove -e ele, segundo pessoas de dentro e fora da Casa Branca, às vezes entra em choque com Rove, seu vice-chefe de Gabinete, ao qual considera às vezes abertamente político e desrespeitoso dos limites apropriados da Casa Branca.

Ainda assim, Card tem compartilhado a influência natural do cargo de chefe de Gabinete com forças mais diretas no governo, especialmente o vice-presidente Dick Cheney e Rove, disseram republicanos com ligações estreitas com Bush. A imagem mais famosa de Card, a dele sussurrando no ouvido do presidente de que o país estava sob ataque em 11 de setembro de 2001, é adequada: quando Card dá sua opinião a Bush, ele o faz tão discretamente que raramente recebe crédito, ou culpa, pela decisão que se segue.

"Meu trabalho não é fazer com que minha posição prevaleça", disse Card. "Meu trabalho é entender a posição do presidente, desafiá-lo, e então esclarecer as expectativas dele para as outras pessoas."

Em governos anteriores, "este chefe de Gabinete tentou exercer um papel semelhante ao de um primeiro-ministro, este chefe de Gabinete exerceu o papel de um presidente substituto, o executivo-chefe, este tipo de coisa", disse ele, se recusando a citar nomes, mas deixando claro que não considera nenhum destes modelos para seu exercício do cargo.

Repetidas vezes, Card afastou qualquer sugestão de que tenha exercido qualquer papel importante na decisão da agenda do presidente ou na definição do conteúdo de sua presidência. "Eu não quero dizer isto -eu peço a você que não veja isto como falsa modéstia, porque não estou tentando fazer isto. Mas meu trabalho não se trata de mim", disse ele. "Meu trabalho é facilitar a capacidade do presidente de extrair o melhor de sua equipe."

Mas é exatamente a equipe que tem sido tão problemática no segundo mandato. Foram necessárias semanas para que Michael D. Brown, o ex-diretor da Agência Federal de Administração de Emergência (FEMA), renunciasse após a resposta fracassada ao furacão Katrina. Enquanto isso, Card voltava correndo de suas férias em casa, em Poland, Maine, para tentar, sem sucesso, conter os estragos.

Card era o batedor óbvio para o furacão: ele foi enviado pelo primeiro presidente Bush para consertar a resposta federal desastrosa ao furacão Andrew, em 1992, na Flórida. Mais de uma década depois, em 2003, Card supervisionou a criação do Departamento de Segurança Interna, que absorveu a FEMA.

Nos primeiros dias do furacão Katrina, ele enviou seu vice, Joe Hagin, até a Costa do Golfo para administrar os eventos no local.

Mas ainda assim a Casa Branca se viu atolada na burocracia, enquanto Card passava a madrugada da primeira sexta-feira do desastre enviando fax para a governadora da Louisiana, Kathleen Babineaux Blanco, tentando estabelecer a cadeia de comando. Card, que trabalhou estreitamente com Miers em tal esforço, disse que trabalhou até as 4h30 da manhã para chegar "a ponto de estarmos todos, as administrações federal, estadual e locais, remando na mesma direção".

"Eu só dormi 45 minutos naquela noite", disse ele.

Ainda assim, outra semana inteira se passou antes que Card finalmente discutisse com Brown sobre suas falhas na administração da tempestade. Mesmo aí, ele disse, ele não pediu a renúncia de Brown. "Eu pedi para que ele pensasse na situação", disse ele. Brown renunciou dois dia depois.

Se Card teve uma conserva franca com Rove sobre a investigação criminal envolvendo o vazamento do nome de uma agente secreta da CIA, ela não foi revelada publicamente.

"Você não vai conseguir que Andy lhe diga que repreendeu Karl", disse um importante republicano. Vários funcionários do governo disseram que Card ficaria furioso com qualquer funcionário da Casa Branca que vazasse informação para a imprensa. Todos falaram sob a condição de anonimato porque não foram autorizados a falar pela Casa Branca.

Vários conselheiros republicanos com laços estreitos com a Casa Branca disseram que Card às vezes serviu como contrapeso de Rove, atuando como uma voz moderada e contendo Rove quando ele buscava passar tempo demais com o presidente ou influenciá-lo.

Vários conselheiros disseram que o temperamento de Card está mais alinhado com o de Karen P. Hughes, a ex-conselheira do presidente que atualmente está encarregada da diplomacia pública no Departamento de Estado, e que tinha uma clara rivalidade com Rove na Ala Oeste.

Ainda assim, com Rove assim como com Brown, Card, no mínimo, não os repreendeu antes que seus problemas se tornassem uma distração. E o que seus maiores defensores descrevem como os maiores atributos de Card -em particular, sua humildade e paciência- para outros poderiam ser os responsáveis pela recente turbulência.

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, que considerava Card um confidente em seus quatro anos como conselheira de segurança nacional, o descreveu como um conselheiro leal mas discreto, "não um daqueles chefes de Gabinete que acham que devem se interpor entre os conselheiros e o presidente".

"Andy não está apenas completamente à vontade, como até encoraja, os quatro ou cinco conselheiros chaves do presidente a sentirem que podem entrar no Escritório Oval para conservar com o presidente", disse Rice. "Há chefes de Gabinete que querem controlar o acesso o tempo todo; este não é o caso de Andy." George El Khouri Andolfato

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