UOL Notícias Internacional
 

18/10/2005

Totalização elevada de votos insinua fraude

The New York Times
Dexter Filkins e Robert Worth*
Em Bagdá, Iraque
Autoridades eleitorais iraquianas disseram nesta segunda-feira que estão investigando totalizações "incomumente altas" de votos em 12 províncias curdas e xiitas, onde até 99% dos eleitores teriam votado a favor da nova Constituição do Iraque, criando a possibilidade de que o resultado do referendo de sábado seja questionado.

Em uma declaração divulgada na noite de segunda-feira, a Comissão Eleitoral Independente do Iraque disse que o anúncio do resultado do referendo de 15 de outubro será adiado em "alguns dias", devido ao número aparentemente alto de votos "sim" ter obrigado os funcionários eleitorais a "reconferirem, compararem e auditarem" os resultados.

A declaração não fez menção à possibilidade de fraude, mas disse que os resultados estavam sendo reexaminados para atender às normas aceitas internacionalmente. As autoridades eleitorais disseram que sob tais normas, os procedimentos de votação devem ser verificados sempre que um candidato ou pergunta na cédula receber mais de 90% dos votos. Os membros da comissão iraquiana se recusaram a falar sobre o anúncio, nem deram detalhes. Mas um funcionário com conhecimento da votação disse que as 12 províncias ou eram de maioria xiita ou curda. Os líderes destas comunidades endossaram fortemente a Constituição proposta. Algumas destas províncias, disse o funcionário, apresentaram 99% dos votos contados a favor da Constituição.

É difícil imaginar por que qualquer líder político xiita ou curdo iria sentir a necessidade de apelar para a fraude. Juntos, a maioria dos membros dos dois grupos apóia a Constituição e eles correspondem à cerca de 80% da população do Iraque.

Nenhuma das províncias que estão sendo revistas possuem maiorias sunitas, disse o funcionário, apesar de haver relatos de totalizações igualmente desproporcionais contra a Constituição em algumas áreas sunitas.

"Quando você encontra consistentemente números muito, muito altos, então isto é motivo para maior averiguação", disse o funcionário, que falou sob a condição de anonimato, citando a sensibilidade da informação. "Qualquer coisa acima de 90% em qualquer direção geralmente leva a maiores investigações."

O anúncio ocorreu à medida que os resultados do referendo de sábado começavam a surgir. Cerca de 10 milhões de iraquianos votaram no referendo, ou cerca de 64% dos eleitores registrados, disse Barham Salih, o ministro do Planejamento. Os resultados preliminares, ele disse, mostravam que a Constituição parece ter sido aprovada por cerca de 65% dos eleitores iraquianos.

Mas agora tais números estão sendo questionados.

O anúncio de segunda-feira provavelmente provocará suspeita entre muitos eleitores iraquianos, especialmente os sunitas, que nutrem profundas suspeitas em relação à maioria xiita e aos curdos. Tais tensões poderão inibir o delicado esforço em andamento para atrair a comunidade sunita do Iraque, que forma a base da insurreição, ao processo democrático.

Segundo a declaração, a comissão eleitoral pretende reexaminar vários aspectos da votação, incluindo "o exame de amostras aleatórias de urnas", disse a declaração. Tal processo, se quaisquer irregularidades forem encontradas, poderá se arrastar por dias, levantando à possibilidade de que a eleição de 15 de dezembro, para um Parlamento com mandato pleno, possa ser adiada.

Alguns líderes sunitas disseram que a totalização exagerada sugere a ocorrência de fraude na votação. Mishaan Al Jubouri, um membro da Assembléia Nacional e um líder sunita, disse que é a favor de uma ampla investigação da votação.

Os partidos políticos xiitas e curdos no poder "estavam preenchendo cédulas e as enfiando nas urnas", disse ele em uma entrevista. "Eles também votaram em nome daqueles que não vieram votar."

Al Jubouri disse que monitores eleitorais em várias províncias do Sul, por exemplo, informaram um comparecimento modesto de eleitores nos centros de votação, mas que, após o fechamento das urnas, as autoridades divulgaram números gerais de comparecimento nestas províncias que pareciam extraordinariamente altos. Elas incluem as províncias predominantemente xiitas de Najaf, Karbala e Wasit, ele disse. Alguns centros não tiveram nem mesmo o comparecimento de 20% ou 30% dos eleitores, ele acrescentou. "Isto dá a impressão de que o processo não foi transparente."

As alegações feitas por Al Jubouri não puderam ser verificadas. A reação de alguns líderes sunitas à investigação foi mais contida; eles disseram estar resignados com a aprovação da Constituição e que querem se preparar para as eleições nacionais de dezembro, quando muitos sunitas deverão votar.

Nas semanas que antecederam o referendo, alguns líderes xiitas expressaram temores de que a Constituição poderia ser derrotada por uma combinação de alto comparecimento sunita e baixo comparecimento xiita. Para tratar de tais preocupações, a Assembléia Nacional Iraquiana aprovou discretamente uma medida mudando a forma de contagem de votos, reduzindo o limiar para aprovação da Constituição.

Sob intensa pressão da Organização das Nações Unidas (ONU), a assembléia anulou a medida pouco antes do referendo.

A investigação da votação é principalmente uma formalidade, provocada pelo apoio esmagador à Constituição, disse Salih, o ministro do Planejamento. Ele disse que a comissão eleitoral iraquiana lhe assegurou de que não há, ainda, nenhuma razão para suspeitar de fraude.

"Eles estão certos de que há evidência esmagadora de que a eleição foi livre e justa", disse Salih sobre os membros da comissão eleitoral.

Salih disse que espera que a Constituição seja aprovada por uma ampla margem nas áreas xiitas e curdas, e que seja rejeitada por ampla margem nas áreas sunitas.

"Há polarização na sociedade", disse Salih. "Há a liderança política de cada comunidade, e a população tende a segui-la."

De fato, muitos xiitas entrevistados nos locais de votação no sábado disseram que estavam votando a favor da Constituição devido ao endosso do grão-aiatolá Ali Al Sistani, que conta com uma ampla e freqüentemente incontestada fidelidade entre os xiitas iraquianos.

A Comissão Eleitoral Independente do Iraque, que é composta de seis iraquianos e um não-iraquiano, tem autoridade para anular os resultados da eleição caso os membros decidam que ela não foi conduzida de forma legal. Para proteger contra a possibilidade de fraude e intimidação, a comissão distribuiu cerca de 57 mil observadores eleitorais, extraídos de grupos de ajuda locais, e 120 representantes dos partidos políticos.

Mahmood Othaman, um membro curdo da Assembléia Nacional, disse que os observadores indicados para monitorar a eleição eram em sua maioria partidários, deixando poucas salva-guardas objetivas disponíveis. Nas áreas curdas, a composição dos observadores colocou os dois principais partidos curdos encarregados; o Partido Democrático Curdo e a União Patriótica do Curdistão.

"Eu esperava tais coisas", disse Othman. "Eu disse o tempo todo. Se não houver censo e nem observadores estrangeiros, você poderia esperar tais coisas."

"As pessoas que atuavam como observadoras eram as mesmas que concorriam", disse ele. "Em Erbil, é o Partido Democrático Curdo, em Sulymaniya, a União Patriótica do Curdistão, e no Sul são os partidos xiitas. A ONU fica sentada em Amã e diz que está tudo bem. É livre e justa, porque ela não quer vir aqui."

Mesmo enquanto prosseguia a apuração, alguns líderes iraquianos já estavam voltados para as eleições de dezembro. Na segunda-feira, um grupo de líderes iraquianos, liderado pelo ex-primeiro-ministro Ayad Allawi, anunciou a formação de uma coalizão política secular, visando fazer oposição à coalizão de partidos religiosos xiitas.

*Edward Wong contribuiu com reportagem para este artigo, em Bagdá. Comissão Eleitoral Independente do Iraque disse que o anúncio do resultado do referendo será adiado em "alguns dias" George El Khouri Andolfato

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