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18/10/2005

Uma silenciosa revolta contra instruções para evitar Síndrome de Morte Súbita na Infância

The New York Times
Brian Braiker
Danica Stanciu estava compartilhando suas dificuldades com sua amiga Natasha que, como ela, tinha dado a luz recentemente.

"Ela me ligou reclamando de falta de sono", lembra-se Stanciu. "Então eu disse: 'Você quer saber meu mais profundo segredo de mãe? Coloco Elena para dormir de bruços'".

Natasha ficou em silêncio, segundo Stanciu, que disse: "Talvez eu não devesse ter contado."

Em todo o país, pais como Stanciu estão se revoltando contra as indicações médicas. Por mais de uma década, os médicos dizem que os bebês devem dormir de costas, como precaução contra a Síndrome de Morte Súbita na Infância (SIDS, na sigla em inglês).

Alguns pais, porém, estão concluindo que é melhor ver seus filhos dormindo profundamente --o que ocorrem mais freqüentemente quando estão de bruços-- e correr o risco relativamente pequeno de SIDS.

Todo pai vive com o medo de uma morte súbita, inexplicável, de um bebê saudável durante o primeiro ano de vida. Em 1992, depois de revisar pesquisas britânicas e australianas sobre a SIDS, a Academia Americana de Pediatria recomendou que os pais colocassem seus filhos para dormir de costas na cama durante o primeiro ano.

Em 1994, o Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano reforçou essa recomendação com uma campanha de educação pública financiada pelo governo chamada "Back to Sleep" (Dormindo de Costas).

Na época, 70% dos nenéns nos EUA dormiam de bruços. Em 2002, esse número mergulhou para 11,3%.

Na mesma década, as mortes por SIDS caíram pela metade, de 1,2 mortes por mil nascimentos em 1992 para 0,57 mortes por cada mil nascimentos em 2002, de acordo com o Centro Nacional de Estatísticas da Saúde.

Há claramente uma conexão entre dormir de bruços e SIDS, mas os médicos ainda não sabem qual. "Se soubéssemos exatamente o que causa isso, não chamaríamos de SIDS", disse John Kattwinkel, diretor da força tarefa da academia pediátrica para a síndrome.

Novas pesquisas sugerem que bebês de SIDS são vítimas de uma confluência tóxica de composição genética e fatores ambientais, como hábitos de sono.

No dia 10 de outubro, a academia de pediatria re-enfatizou a correlação entre dormir de barriga para cima e um índice menor de SIDS.

A academia também aconselhou os pais a aleitarem, evitarem colocar os bebês para dormir de lado, de usar chupetas e de "dormir junto", ou seja, levar as crianças para a cama com eles.

Ainda assim, a maior parte dos pediatras admite que quando os bebês são colocados de bruços, eles tendem a dormir melhor, ficam menos assustados e freqüentemente passam a dormir a noite toda mais cedo.

Apesar das advertências, um número crescente de pais está se voltando contra a campanha Dormindo de Costas. Sites que discutem assuntos da maternidade e primeiros anos das crianças também indicam a tendência.

"O consenso na Web é que não há problema", disse Sarah Gilbert, mãe em Portland, Oregon, e editora do blog popular bloggingbaby.com.

Gilbert disse que deixa seu filho de 5 meses, Truman, dormir de bruços, como fez com seu filho de 3 anos, Everett. Truman, diz ela, não tem nenhum dos outros fatores de risco listados pela academia de pediatria: ela dá de mamar, ela não fuma e ele dorme perto dela em um espaço arejado.

"Na Web, as pessoas sempre tocam no assunto com certo cuidado", disse Gilbert. "Elas dizem: 'Só desta vez, deixei meu filho dormir de barriga'. E quando você diz que também deixa, elas dizem: 'Está certo, confesso que venho fazendo isso desde o terceiro mês.'"

Em alguns casos, disse Erica Lyon, instrutora de cuidados do recém-nascido e diretora do centro RealBirth em Manhattan, os pais que colocam textos anônimos na Web se sentem culpados e estão buscando permissão para ignorar as recomendações da academia.

No BabyCenter.com, site da Web para instruir pais, um leitor fez um apelo: "Meu bebê detesta dormir de costas."

O texto provocou respostas de mais de 400 outros pais, a maioria admitindo e até defendendo o sono de bruços. O site tem 3,5 milhões de usuários por mês.

Outra discussão, no fórum craigslist.com, começou com um pai nervoso que admitiu deixar o filho dormir de bruços e foi seguido de vários textos como: "O meu também fazia isso" e "Passei pelo mesmo".

Certamente, ninguém ignora os conselhos dos especialistas com tranqüilidade.

"Você prefere seu filho inconfortável ou morto?" perguntou Vanessa Saft, mãe de Ramona, de 2 anos, e educadora da infância que está fazendo mestrado em assistência social.

Saft disse que ficou assombrada com algumas das discussões permissivas que leu na lista de e-mail do Park Slope Parents, onde moradores do Brooklyn compartilham dicas sobre vacinas, canecas, escolas, babás e também sobre o sono.

Saft, porém, disse que tenta não expor seu ponto de vista, mesmo que seja o mesmo dos médicos, porque sempre se mete "em encrenca".

Linda Murray, editora executiva do BabyCenter.com, salientou as descobertas de uma pesquisa não científica conduzida pelo site.

A pesquisa, que envolveu mais de 24.000 usuários do site, revelou que 43% dos pais colocam seus bebês para dormir de costas e 42% de bruços, apesar de metade dizer que se "preocupava" com a síndrome de morte súbita infantil.

Por que um pai optaria por ignorar as recomendações contra um risco conhecido à saúde de seu bebê?

Murray sugere que a campanha "Dormindo de Costas" é vítima de seu sucesso.

O índice de SIDS caiu tanto na última década que cada vez menos pais conhecem alguém que perdeu uma criança por causa da síndrome. "As pessoas têm uma falsa sensação de segurança", disse ela.

Talvez não ajude o fato de que os próprios especialistas algumas vezes enviam mensagens confusas. Um estudo na revista Pediatrics em 2002, por exemplo, observou que muitas vezes os bebês prematuros nas enfermarias de cuidado intensivo eram colocados de bruços e se acostumavam à posição.

Lorrie Leigh teve gêmeos prematuros há três meses, e perdeu um. Ela disse que ficou surpresa quando as enfermeiras colocavam a gêmea sobrevivente, Kalleigh, de barriga.

Leigh, que dá aulas de amamentação em sua casa em Silver Spring, Maryland, já tinha três filhos com menos de 9 anos, então estava bem informada.

"Eu achava que os médicos seguiam as indicações", disse Leigh. "Mas as enfermeiras diziam que os bebês dormiam melhor de barriga."

Mas quando Kalleigh ficou pronta para ir para casa, as mesmas enfermeiras começaram a colocá-la de costas. "Elas disseram: 'Temos que dizer para a senhora fazer desta forma.'"

Não só muitas crianças dormem melhor de bruços como têm muito menos chances de desenvolver uma deformação do cérebro chamada plagiocefalia, que deixa os bebês de cabeça chata.

Jeffrey H. Wisoff, professor adjunto de neurocirurgia e pediatria do Centro Médico da Universidade de Nova York disse que, desde o início da campanha Dormindo de Costas, esse tipo de deformação tornou-se uma "epidemia".

Wisoff, apesar de não negar as evidências associando o sono supino a menores índices de Smsi, disse que há uma década via apenas meia dúzia de casos de plagiocefalia por ano.

"Agora recebo até uma dúzia de crianças com cabeças assimétricas por semana", disse ele. "Deixa os pais loucos." A academia pediátrica deveria alertar os pais para virar os bebês 180 graus no berço ocasionalmente e colocá-los de barriga quando estão acordados (uma prática chamada de "hora da barriga"), disse Wisoff.

No entanto, diante de tantos conselhos, muitos pais bem intencionados simplesmente hesitam. Os médicos fazem proclamações sem viver no mundo real, dizem.

"Entendo a mãe que não tem tempo para dormir e coloca o bebê de bruços sabendo que todos os especialistas são contra", disse Lyon, do centro RealBirth. "O papel do profissional é dizer quais são as recomendações e suas razões. O papel dos pais é pensar criticamente e aplicar as recomendações de forma que sua vida fique administrável."

"Algumas justificativas explicam porque as mães se dispõem a aceitar alguns fatores de risco e outros não", disse ele. "Você pode seguir todas as indicações, e seu bebê ainda pode morrer de Smsi. Mas, como organização nacional, precisamos advertir o público a respeito."

"Um pediatra que não o fizesse seria irresponsável", acrescentou. Deborah Weinberg

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