UOL Notícias Internacional
 

19/10/2005

Morre Alexander N. Yakovlev, 81, o "Padrinho da Glasnost"

The New York Times
Steven Lee Myers
Em Moscou
Alexander N. Yakovlev, historiador, propagandista e diplomata, morreu na terça-feira (18/10) em sua casa em Moscou. Arquiteto das reformas políticas de Mikhail S. Gorbatchev na União Soviética durante os anos 80, ele estava com 81 anos e morreu depois de ser hospitalizado pela manhã.

Yakovlev foi comunista e ideólogo dedicado, antes de se unir a Gorbatchev para defender a flexibilização das restrições econômicas e políticas que, em sua opinião, estavam atrofiando o incentivo e a iniciativa pessoal.

As reformas foram chamadas de Perestroika, ou reestruturação, e Glasnost, ou abertura, e contribuíram para a queda da União Soviética, apesar de tomar uma forma que nenhum dos dois imaginou.

Ex-embaixador e censor, em um momento que a censura estava diminuindo na União Soviética, Yakovlev tornou-se o mais influente assessor de Gorbatchev e um dos mais visíveis. No exterior, acompanhou Gorbatchev durante suas reuniões de cúpula com o presidente Ronald Reagan. Em casa, não só defendeu a liberdade da imprensa de criticar a União Soviética, mas também teve um papel importante na divulgação de alguns dos aspectos mais sombrios da história soviética.

Em 1989, Yakovlev detalhou para os Deputados do Congresso do Povo -eleitos pelas mudanças de Gorbatchev- as conseqüências do pacto secreto de 1939 de Stalin com a Alemanha nazista, que pavimentou o caminho para a divisão da Polônia e a anexação das nações bálticas.

Seu papel foi tamanho nas mudanças que varreram a União Soviética na época que ficou conhecido como o "padrinho da Glasnost". Ele foi um dos mais poderosos defensores da reforma democrática, antes e depois da dissolução soviética.

"Fomos capazes de levar o país até o ponto sem volta", disse Gorbatchev na terça-feira em entrevista telefônica de Londres, referindo-se à evolução democrática que levou à dissolução da União Soviética e continua na Rússia de hoje. "E fizemos isso juntos."

Ao final da era soviética, porém, Yakovlev rompeu com seu patrono e aliado por causa do ritmo das mudanças. Em 1989, enquanto as liberdades políticas varriam as nações do bloco soviético na Europa, ele foi menosprezado por Gorbatchev que se voltou para os radicais em busca de apoio para manter o país unido, enquanto Yakovlev defendia maior competição política.

Yakovlev foi fundador do Movimento de Reforma Democrática, uma coalizão para reformar o Partido Comunista. No dia 16 de agosto de 1991, ele deixou o Partido Comunista e advertiu sobre um iminente "golpe de Estado e no partido".

Três dias depois, um comitê de oito líderes do partido derrubou Gorbatchev, que estava de férias na Crimea. O golpe fracassou após três dias, mas o destino de Gorbatchev estava selado, junto com o da União Soviética.

"Por que ele se cercou de pessoas capazes de traição?" disse Yakovlev na época, em uma declaração tipicamente franca.

Alexander Nikolayevich Yakovlev nasceu no dia 2 de dezembro de 1923, em Korolevo, aldeia minúscula próxima de Yaroslavl, no Rio Volga. Ele cresceu durante o governo de Stalin, mas segundo contou em uma entrevista ao New York Times em 1988, as deportações e outras manifestações de suas repressões eram apenas vagas desconfianças na época. Elas depois se tornaram uma obsessão de Yakovlev.

Ele ainda não tinha 18 anos quando a Alemanha nazista invadiu a União Soviética, em 1941. Meses depois, ele foi para a guerra. Em 1943, foi gravemente ferido por tiros de metralhadora, perto de Leningrado, hoje São Petersburgo e ficou parcialmente incapacitado para o resto da vida. A vitória soviética inspirou-o. Ele entrou para o partido Comunista em 1944 e fez doutorado em história na Academia de Ciências Sociais de Moscou.

Em 1956, como jovem apparatchik no Comitê Central do partido, ele soube do "discurso secreto" de Nikita Khrushchev, revelando os detalhes do terror de Stalin e semeando as sementes de dúvida sobre a infalibilidade soviética.

Em 1958, Yakovlev foi estudar na Universidade de Columbia por um ano, como parte de um programa de intercâmbio para o qual nunca teria sido escolhido não fosse seu zelo comunista. Durante anos depois de voltar, ele escreveu várias histórias dos EUA cheias de rejeição e desconfiança das políticas sociais econômicas e estrangeiras dos EUA.

Ao mesmo tempo, seus estudos nos EUA mancharam sua reputação em casa, ao menos entre radicais desconfiados. Um deles foi o último diretor da KGB soviética, que em 1991 acusou-o de ligações com os "serviços secretos ocidentais".

Ele escalou a hierarquia soviética, entrando para o departamento de propaganda do partido em 1965, cargo que manteve até 1973. Sua carreira então tomou um rumo que assinalava uma ruptura com a ideologia soviética rígida, ou até com o sistema.

Ele foi enviado ao Canadá como embaixador soviético, onde padeceu em uma espécie de exílio das altas rodas em Moscou. Sua ofensa, aparentemente, tinha sido expor suas idéias abertamente, particularmente em um artigo publicado em 1972 sobre os perigos do nacionalismo e do anti-semitismo.

Ele serviu uma década no Canadá e ficou conhecido como uma pessoa curiosa e bem humorada, diferentemente de seus predecessores. Foi neste período que fez amizade com Gorbatchev, na época o mais jovem membro do Politburo, em sua primeira viagem internacional. Dois anos depois, tornou-se secretário geral.

Meses após o encontro no Canadá, Gorbatchev convidou Yakovlev para voltar a Moscou --na entrevista, Gorbatchev disse que foi uma "idéia de sorte"-- e juntos começaram a desenvolver as reformas. Yakovlev não foi apenas amigo e aliado ideológico, mas também intermediário para os autores, editores e outros intelectuais que testavam os limites das novas liberdades.

Perguntado pelo Times em 1988 sobre os esforços fracassados de Khrushchev e Brejnev para instituir as reformas, ele se referiu a um medo de emancipar o povo. "Um dos componentes vitais foi esquecido, o componente decisivo de todas as mudanças: a democracia", disse ele.

A posição de Yakovlev na Rússia foi tal que os políticos de todo espectro o homenagearam na terça-feira, desde liberais até o presidente Vladimir V. Putin. Em uma carta de condolências enviada pelo Kremlin, Putin disse que Yakovlev inspirou "a renovação democrática do país, o desenvolvimento da sociedade civil e a construção de um Estado baseado no Estado de direito"- ideais que Putin vem erodindo, segundo os críticos.

Como muitos democratas da Rússia independente, Yakovlev teve dificuldades nos anos após o colapso soviético. Por um tempo, no início dos anos 90, ele uniu forças com o primeiro presidente democraticamente eleito do país, Boris N. Yeltsin. Ele foi diretor da rede de televisão estatal até renunciar em 1995, em meio ao debate sobre o papel do Estado.

Gorbatchev disse que tinha se reconciliado com Yakovlev e os dois ainda se viam até recentemente, discutindo formas de fortalecer a democracia. "Ele nunca hesitou em sua crença no futuro da democracia na Rússia", disse ele. "Sua vida é uma lição importante para os que continuam comprometidos com a Rússia democrática."

Yakovlev escreveu prolificamente, buscando nos arquivos do governo soviético novas revelações sobre os horrores de Lênin e Stalin. Ele continuou trabalhando no Comitê Presidencial de Reabilitação das Vítimas de Repressão Política mesmo quando a vontade do país de revisitar o passado minguou.

No ano passado, ele questionou o compromisso de Putin com a democracia, advertindo que o comitê logo seria desmantelado. (Até agora, não foi).

"A reabilitação e os direitos humanos são considerados um obstáculo ao chamado processo de estabilização", disse ele em entrevista para a rádio Ekho Moskvy. "Se olharmos de perto para essa estabilização, veremos algo diferente por trás dela, ou seja, restauração."

Yakovlev deixou uma mulher, Nina; um filho, Anatoly; uma filha, Nataliya; sete netos; e uma bisneta. Ele foi o arquiteto das reformas políticas de Mikhail S. Gorbatchev na União Soviética durante os anos 80 Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host