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20/10/2005

Nova biografia corrige o que se sabe dos Beatles

The New York Times
Janet Maslin

Em Nova York
Bob Spitz diz que o seu livro sobre os Beatles corresponde a apenas um terço do manuscrito que submeteu à editora Little, Brown. Mesmo assim, ele tem quase mil páginas e é mais longo do que edições recentes de grandes biografias, como a de Mao e a de Abraham Lincoln.

Por que isso? Grandes novidades?

Um comunicado à imprensa citando as grandes revelações do livro inclui "um relato completo do dia em que Ringo foi seqüestrado da sua antiga banda para se juntar aos Beatles".

Espionagem?

As fofocas não fazem parte da obra.

Uma abundância de minúcias musicais?

Embora os detalhes musicais possam consistir em novidades para algumas pessoas, vários beatlemaníacos já sabem que foram necessários três pianos e dez mãos para que se atingisse o contundente acorde em Mi no final de "A Day in the Life".

Eis uma nova perspectiva: Spitz quer superar essas táticas convencionais ao elevar a vida dos Beatles ao reino da história séria. Imaginem "John Adams" com música e maconha.

"Os Beatles" foi escrito para os leitores que buscam uma imersão no passado, profunda e demorada, e que são capazes de olhar para além dos assuntos tradicionalmente grandiosos para obtê-la. Assim como a recente biografia de Willem de Kooning, escrita por Mark Stevens e Annalyn Swan, isso significa amalgamar as forças da personalidade, da cultura e da arte em uma história ampla e emblemática.

A princípio isto é preocupante. Sim, sim, sim: Spitz retrocede séculos para estabelecer um vínculo entre o tráfico de escravos e as exportações norte-americanas e das Índias Ocidentais para Liverpool.

Ele identifica John O'Leannain e James McCartney II como refugiados irlandeses da "Grande Fome das Batatas", da década de 40 do século 19. Spitz adorna a atmosfera dos primeiros anos dos seus personagens, imaginando como o jovem John Lennon (conforme evoluiu o nome da família) era acordado por "um ruído de cascos batendo no chão quando um velho cavalo, puxando uma carroça, fazia a entrega do leite ao longo da estrada esburacada".

Mas o impulso intrínseco do material logo toma conta do livro. E este livro --com a sua capa assustadoramente bonita, as suas ilustrações fotográficas descuidadas e as encantadoras páginas de rosto que reproduzem os rabiscos de uma adolescente beatlemaníaca-- começa a exercer o seu fascínio.

Com o movimento já inserido na história e o efeito cumulativo da abordagem equilibrada e engraçada do autor, a obra emerge com um trabalho que consolida e ilumina de uma maneira inédita. Para o leitor certo, essa é uma combinação irresistível.

Grande parte da informação contida neste livro pode ser encontrada em outras obras. Há quase 500 livros sobre os Beatles no mercado. Mas Spitz quis ser fiel aos fatos, evitando as ficções e as calúnias de versões anteriores, e criando uma visão ampla e incisiva. Entre as áreas nas quais ele teve especial sucesso está o detalhamento do trabalho de composição, apresentação e gravação, que fez dos Beatles um tal fenômeno (Spitz se baseou nos fartos arquivos do crítico de música de The New York Times, Allan Kozinn, para parte de suas pesquisas). O percurso da vida conjunta dos integrantes do grupo é revelado por meio do mapeamento do trabalho dos Beatles.

"Os Beatles" amplifica e corrige parte do que se sabe sobre os anos de formação da banda. Ele cria uma imagem particularmente vívida do jovem e irritado John Lennon, apresentando um quadro especialmente revisionista e assustador da mãe do artista. Ele também captura o frescor estimulante dos jovens músicos ingleses, prontos a tentar qualquer coisa louca (uma outra banda da época: "The Morockans") sem terem idéia de até onde conseguiriam chegar. "Nunca passou pela cabeça dos Beatles que eles poderiam ter fãs", escreve Spitz. E o livro transporta o leitor para uma época onde essa possibilidade era real.

Assim como o recente documentário de Martin Scorcese sobre o jovem e meteórico Bob Dylan, este livro evoca poderosamente tanto a excitação quanto o preço pago por uma ascensão tão súbita. Este livro fala sobre os Beatles no momento em que estes descobriam um estilo de sucesso, marcado pelas sacudidas dos cabelos, e viam o mundo ficar histericamente cativado à sua volta.

Quando o regozijo começa a azedar, o livro captura a assustadora sensação de se estar em um aquário, de ser aprisionado pela histeria dos fãs e pela aclamação da crítica. Entre as notas fantásticas há histórias sobre aqueles empresários musicais que desprezaram o som dos Beatles ("Musicalmente eles são quase um desastre. As guitarras e a bateria fazem um ruído impiedoso que arruína os ritmos secundários, a harmonia e a melodia").

Spitz alega que a época de "Sargent Pepper" dos Beatles foi mais notável pelas suas táticas de gravação inovadoras do que pela profundidade das composições. Ele faz uma fascinante argumentação ao descrever a construção passo a passo de algumas da mais conhecidas gravações existentes.

George Martin, o produtor dos Beatles, é uma das várias figuras que estava próxima aos membros do conjunto e que escreveu detalhadamente sobre a sua experiência. Mas Spitz é capaz de incorporar estas e outras memórias a um quadro maior. De forma geral, trata-se de uma imagem cativante que não havia sido vista antes.

"The Beatles" também ilumina a forma como a colaboração entre os membros se desfez. Spitz substitui os inúmeros boatos e acusações por um entendimento claro de como a indiferença e os mal-entendidos se acumularam. Ele mostra como as tentativas discretas de Paul McCartney de comprar ações da companhia de publicidade dos Beatles enfureceram John Lennon. O livro também analisa a união de Lennon e Yoko Ono e ilustra, com acuidade incomum, como e por que ele superou furiosamente o seu papel de Beatle.

Apesar do tamanho, "The Beatles" não se digna a descrever certas coisas.

O livro termina com a dissolução do grupo. Ele não invade a privacidade dos artistas contando detalhes sobre a morte de John Lennon e George Harrison. De vez em quando, ele favorece a percepção, em detrimento da suposição, de forma que acaba por se distinguir dos outros livros sobre os Beatles. Não há exceção.

O autor tem a arrogância de registrar thebeatles.bobspitz.com como um Web site, embora este ainda não esteja em atividade. Isso é mais uma evidência de que aquelas pessoas fascinadas pelos Beatles fizeram do conjunto uma parte das suas vidas.

The Beatles: The Biography

De Bob Spitz, ilustrado, 983 páginas, Editora Little, Brown & Co, Preço: US$ 29,95. Por trás da beatlemania: narrativa traz somente fatos, muitos fatos Danilo Fonseca

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